21/06/2005

O preço da inovação

A facilitadora nos pede que formemos um círculo. A dinâmica: ela tem um novelo de lã, cuja ponta irá prender nos dedos. Depois, jogará o novelo para outra pessoa, a qual irá falar sobre o treinamento, sobre o que mudou em sua atuação docente, sobre suas impressões, sobre...

E o novelo começa a rodar. A pessoa que recebe, também prende um pouco da linha no dedo, fala alguma coisa e passa o novelo para outra pessoa, que irá fazer a mesma coisa. Aos poucos, uma teia vai se formando, metaforizando, previsivelmente - para os mais atentos, creio -, a instituição.

Só que todos querem passar o novelo por baixo da teia. A justificativa implícita na cabeça de cada um: iria ser mais fácil desfazer a rede ao final. Uma mulher até tentou passar o novelo por cima, mas os líderes naturais - que sempre aparecem em qualquer universo social - logo brandem suas espadas: por cima não, por baixo!

Eu, que não sou afeito a lideranças, ainda mais as não-conquistadas, não poderia ligar para aquelas vozes quando chegasse minha vez. E chegou. Falo, dou minhas impressões, blá blá blá, e lá vou passar o novelo... por cima, claro. Ainda ouço uma voz incomodada pedir "por baixo...", uma voz que se desvencilhou no ar, no tempo, na visão de que seu pedido não fora atendido, num perfeito fade out de quem não apresenta forças suficientes.

Aquilo estava me incomodando. Se eu via a teia como a metáfora da instituição, não preciso dizer que via o passar-por-baixo como a indicação clara de que todas aquelas pessoas - menos a mulher censurada - gostavam de fazer as coisas iguais, sempre iguais, pois a mudança era arriscada e ainda ia dificultar a desconstrução da rede no final. Não, eu não podia ser só mais uma peça passando o novelo por baixo; precisava mudar, arriscar, fazer diferente.

A trajetória que o novelo fez foi pra nos deixar sem jeito. Passou por cima, por baixo, e, mais uma vez, por cima de outras partes da linha. O emaranhado foi feio. Não ia ser fácil desfazê-lo. O que me rendeu ter de ouvir uma brincadeira ao final: "é esse o preço da inovação, Paulo".

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