29/09/2011

Cama de gato

Deveria ter vergonha de alguns posicionamentos meus. Não do posicionamento, mas da maneira como lido com eles. E, bem, até tenho um pouco, na verdade, mas pelo visto não tanto assim a ponto de escondê-los. Arreganhemo-los, então.

Lá se encontrava minha pessoa, um perfeito médio burguês, pseudomarxista, meio de esquerda, meio intelectual, jantando e assistindo ao Jornal Nacional. William e Fátima, um dos casais-perfeição da rede do plim-plim, davam notícias importantíssimas sobre a possível moratória dos EUA, os acordos dentre republicanos e democratas, a posição desconfortável de Obama, os jogos de uns e de outros e, por fim, o que realmente havia sido acertado - o que nem vem ao caso agora, mesmo porque fiz questão de esquecer também.

Eu poderia ser cínico o suficiente para dizer "e eu com isso". Mas sei que os pauzinhos que mexem lá acabam reverberando por aqui. E eu bem deveria estar preocupado com isso, da mesma forma como deveria ter ficado penoso e tudo mais em relação aos problemas nucleares em Fukushima, dos quais se falou um pouco depois, ou até revoltado sobre a situação na Líbia, ou ainda chocado com os atentados na Noruega. Contrariando as expectativas quanto à minha performance, apenas continuo tomando minha sopa com uma cara de "próxima notícia, por favor". O impacto das boas novas porém não tão boas é tamanho que já está tudo anestesiado - o corpo, a mente, o coração. O pior de tudo, entretanto, não é meu descaso para o ocorre com o planeta, mas pensar no meu papel de ser-no-mundo enquanto nele estou.

Se ao menos morasse em Marte ou algo assim, ainda se justificaria essa apatia. Mas não moro. Ninguém mora.

Ora, que pouco depois do tal jornal, iria lá me dedicar àquilo que é centro das minhas atenções há muito. E, sem já me importar tanto assim para a qualidade e nas decorrências do meu presente trabalho, fico pensando se ele é assim tão importante a ponto de ser realizado. Pois que recebo dinheiro do governo para produzir algo relevante sobre outra coisa relevante, e no momento da notícia, nada parece mais relevante que o risco de calote americano. A impressão que dá é que um rombo nas finanças do Tio Sam é tão perigoso quanto um buraco negro criado instantaneamente em meio ao Grand Canyon. Mesmo porque o jornalismo, o bom jornalismo, só se ocupa de assuntos importantes, cruciais. Até as fofocas são relevantes. É tudo efêmero, de moratórias à bunda da irmã da princesa, mas é tudo relevante. E eu aqui, me ocupando com algo que meia dúzia de indivíduos entende de mal a pior - eu incluso. Pelo menos não é efêmero.

Mas é bem verdade que nem tudo está plenamente congelado. Ao ver notícias sobre o descaso do Cid Gomes para com os professores da rede municipal ou sobre a calamidade iminente acerca da usina de Belo Monte, devo dizer: ainda há choque, mas só torço para que o mundo dê fim a si mesmo, ou pelo menos consiga exterminar o homem. A gente não tem mais remédio. Ou melhor, poderíamos ser o próprio fármaco, mas somos excessivos demais para darmos conta de nossa própria proteção. Somos venenosos. Por certo há um quê de blasé nessa história toda, um foda-se arrogante mesmo. Talvez um dia haja tempo e/ou energia suficientes para que eu me volte àquilo que é relevante. Por enquanto, não há como negar: abrir a janela e olhar para o mundo é apenas uma forma de retornar a si mesmo. Algo como "vou fechar a cortina e voltar a dormir". Tá tudo errado e só quero acordar quando consertarem a bagunça toda.

E, claro, perceba-se o descaso em não querer consertar também. Mas, no fundo, quero.

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