O nome do empreendimento é Thales Cell. Mas quem trabalha lá é o Rodrigo. E o Rodrigo parece ser farrista, como vocês verão logo a seguir.
Eu sempre passava por aquela grande casa, situada numa avenida bastante movimentada. Há alguns anos, ouvi dizer que era a quinta ou terceira - não lembro bem - maior avenida do Brasil em extensão. Não me admiro se for verdade, e se ainda continuar a ser, porque já tive a oportunidade de percorrê-la de cabo a rabo e pude ver o quão imensa é.
Voltando à casa, eu a via todos os dias, porque se situa bem em frente à minha parada de ônibus, nessa tal avenida gigante, no meu lamento diário de ir à faculdade todos os dias, fatídica rotina que já dura mais de 3 anos e que, de tão enfadonha, vai se demorando cada vez mais, sem previsões muito exatas de quando vai acabar. Me parece mesmo que ela não quer findar, não...
Mas ali estava - e ainda está - a casa, de grande porte, como já disse, altiva, duplex, típica casa de classe média alta. Diria que pelos tempos, e por outros fatos que vocês verão logo mais, que aquele lar havia sido erguido pela força de um homem, apenas, desses que viveram nos tempos em que o seu emprego era suficiente por si só para se viver bem, e a mulher apenas decorava a casa, dando o toque de lar-doce-lar ao até então insosso canto onde iniciaram a nova morada. Diria mais. Diria que o homem da casa fora, nos tempos pretéritos, um militar de média patente, ou mesmo dono de algum negócio nem muito grande, nem muito pequeno, mas que teve que trabalhar muito para viver bem. Pelo menos foi essa impressão que tive ao vê-lo e ao conversar com ele. Mas entendam por que tive de falar com ele.
Meu celular deu problema. As teclas talk e end deixaram de funcionar depois de uma queda, e, na tentativa ajeitá-lo eu mesmo, abri-o, e quebrei a tampa. Aí danou-se. E já era hora mesmo. Uso-o desde 2001 (e ele é pelo menos de 2000), e até então o único problema que ele tivera foi a frouxidão da bateria - e esse é um problema comum demais pra ser levado à sério nos modelos Nokia 6120i, esses antigões, esbeltos, duros e até mesmo um tanto pesados, se comparados aos modelos atuais. Dizem que só servem pra quebrar casquinha de caranguejo (mas também servem pra quebrar a cabeça de quem diz isso), mas quem o possui sabe o quão é resistente esse modelo. Dizem ser dos melhores, até. E eu não o trocaria por um outro qualquer, e não tenho essa intenção tão cedo, porquanto durar seu funcionamento e sua utilidade: telefonar e receber chamadas, receber e enviar mensagens e servir de memorex e despertador. Pronto, pra mim tá perfeito, mesmo que a agenda telefônica dele já esteja lotada, mesmo que, de vez em quando, eu tenha que apagar um número não utilizado para pôr outro mais útil em seu lugar, mesmo que a bateria frouxa viva pregando peças em mim, como desligar em momentos inoportunos ou descarregar no meio de uma conversa.
Sim, mas o celular estava com defeito. Sem as teclas talk e end, eu nem podia fazer nem receber chamadas, e a única maneira de me comunicar por meio dele era com as mensagens. Não sou do tipo que vive recebendo ligações no celular, mas fico pouco tempo em casa, e, portanto, o conceito dele sobe no quesito utilidade. Então não dava pra continuar com o aparelho desse jeito, e lá vou eu procurar algum canto pra consertá-lo. E o Thales Cell foi o segundo lugar visitado. O primeiro só tinha duas cores de carcaça: rosa e verde-limão. Não dava, né? Mas procurei ir no Thales por questões de preço, também. Não que o primeiro lugar, o Nakakunda (sim, este é o nome da lojinha, e já que falei do Thales, tenho que falar do Nakakunda) estivesse caro, mas podia ser que o Thales fosse mais barato, além de ser pertinho da minha casa.
Mas o Thales já tem um inconveniente logo na entrada: é que ele fica no segundo andar na tal casa que lhes falei lá no início, e, pra subir, é preciso passar pelo jardim. Fácil de superar, principalmente porque, logo antes de entrar, encontro uma mulher tomando o mesmo caminho que eu, e eis que lhe pergunto se "o negócio do celular é ali em cima", ao que ela me responde afirmativamente, e me procura o suposto Thales dono do empreendimento que, também supostamente, leva seu nome.
Aí um susto: tem um salão de beleza lá em cima. O Thales Cell, com uma propaganda-estardalhaço no muro da casa, na verdade é uma bancada na varanda, apenas isso, e dentro da casa funciona um grande salão - que não tem propaganda nenhuma em muro nenhum. Além do susto, houve o inconveniente de estar no meio de um monte de mulheres, no ambiente delas, e só você de homem lá. Só entende esse embaraço o homem que já entrou num salão de beleza repleto de figuras femininas analisando-o dos pés a cabeça, e da cabeça aos pés em retorno, não exatamente com uma conotação sexual nesse olhar, mas com uma atenção analítica vexatória.
"Olha, procura o Rodrigo lá embaixo", pede a mulher que eu havia encontrado, e lá desço, então, atrás de um tal Rodrigo. Vai ver que Thales é o filho do Rodrigo, sei lá. Bato palmas, e aparece, vindo da sala, um senhor já de certa idade, de bermuda, sem camisa, barriga grande, mas não exatamente gordo, e uma bela barba branca, não completamente cheia, mas bonita, mesmo assim. Provavelmente o chefe da casa, aquele que eu supunha, alguns parágrafos atrás, tê-la levantado.
"Por favor, o Rodrigo está?", pergunto. E ele diz "Não sei se ele já chegou, acho que ainda não chegou, deixa eu ver", e grita pelo Rodrigo. "Rodrigo! Rodrigo!" Grita olhando pra cima, dando a entender que ele achava que o Rodrigo se encontrava no andar de cima. "Não, já vim lá de cima, me mandaram procurá-lo aqui embaixo", digo. "Ah, então ele não chegou", me responde o senhor, que começa a reclamar suavemente do Rodrigo, como os típicos pais que se perguntam onde que erraram. "Ele ainda não chegou. Já era pra ter chegado. Geralmente, ele chega às oito, às vezes chega às quatro, mas já era pra ter chegado (e já era quase dez da manhã). Ele deve ganhar fácil, porque se ganhasse difícil, já tinha chegado." "Pois tá, venho outro hora. Brigado.", respondo, conformado em esperar que o Nakakunda ache uma carcaça de macho, digo, preta, ou então em ir atrás de outro canto pra consertar meu celular. E vou embora, achando engraçado o tom de preocupação e desgosto que o senhor, provavelmente pai do Rodrigo, o farrista, me apresentou.
Ô, Rodrigo! Acho que você perdeu um cliente... Menos dinheiro pra você gastar nas suas farras... hihihi... Mas tudo bem. Você ganha fácil, né? hihihi...
Nenhum comentário:
Postar um comentário