Existe uma lógica impeditiva quanto à polidez, ao modo de tratamento interpessoal. Há os brutos, ríspidos, mal-criados,para quem desejar bom dia, ainda que da boca pra fora, é coisa a se suspeitar: suspeita-se que seu interlocutor seja fresquinho, mauricinho, granfino ou até viado – escrito com I mesmo por toda carga representativa que essa grafia traz consigo. Falta gentileza, sobra brutalidade.
Vai pra onde? É assim que me trata o porteiro a fim de exercer poder, na entrada de um prédio comercial não tão chique na Desembargador Moreira. Fica no seio da Aldeota, palco da nobreza fortalezense, um palco talvez já nem tão nobre assim, já meio decadente, prestes a perder a cabeça na guilhotina. Não cabem no vocabulário desse porteiro um boa tarde ou com licença antes da indagação cortante. Muito menos depois. E como réplica à minha resposta - “vou à Dra. Fulana” - outras palavras secas dizendo o número da sala e o andar.
Porra, eu não perguntei nada. É muita vontade de poder, né?
Em conversa com amigos, definimos que esse é o “macho cearense”. Não sei se é uma espécie, gênero, família, classe, mas ao menos é uma categoria que engloba variações. O macho cearense se encontra em diversas situações, e independe completamente de instrução: vai do porteiro dito cujo ao empresário bem sucedido, do mal letrado ao doutô. Esse tipo de macho – a exemplo do macho alfa – não dá lugar a delicadezas, a sutilezas, a baitolagens, enfim, no seu dizer: a testosterona impede. Bom tratamento, se podemos falar assim, só para gostosas com jeitão de piriguete – seja a mundiça que anda na 55, seja a dondoca que anda de Audi. E ignorá-los – como tentei fazer com o porteiro-ditador – é um perigo: quanto mais se veem transparentes, mas buscam se tornar parrudos e chamar atenção.
Começo a desejar um desejar um mundo plenamente cor-de-rosa – ou arco-íris – se houver na opção sexual alguma correlação com o modo de tratar os outros. E quem é macho e/ou cearense e se sente ofendido com a tipologia acima, a saída não é tacar pedras e patadas: defendam a classe espalhando gentileza por aí afora. Quem sabe o mundo não dá um retorno na forma de crucifixo?
Só posso corroborar a frase "gentileza gera gentileza". Lugares inspiram isso, outros não. Em Fortal, nem me esforço mt. rs.
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