27/03/2011

O hífen e a hibridação

Jamais fomos modernos porque jamais nos purificamos. Embora tenhamos aceito o projeto de separação entre o que é humano e o que não é - eis a purificação -, não carregamos a modernidade em nossas veias porque nunca realmente nos apartamos das coisas que são a-humanas. E sempre precisamos delas para que nos fizéssemos sempre mais e mais humanos. Ou híbridos. E a modernidade assim se criou e criou também as condições para sua própria morte.

É por aí que corre a defesa de Latour em seu famoso Ensaio de Antropologia Simétrica. Mas deixemos esse ponto um pouco de lado e pensemos sobre o uso gramatical de hífens(-) e barras(/), porque há algo de profundo que não nos é explicado nas aulas língua portuguesa.

A barra, essencialmente, separa. Assim como nos sitemas e nos sites, quando tem a serventia de demarcar limites entre diretórios e subdiretórios. Ou nas opções que precisamos fazer entre isso/aquilo. Uma coisa, quando o pensamento é separatório, dualista, só é uma coisa/outra coisa, comunista/capitalista, amor/sexo, diabo/deus. Barra é ou. Não há lugar para adição ou interseção.

Já o hífen é uma ponte, um elo entre duas instâncias. Mas não apenas une como também transforma o que é unido. Heidegger argumenta que a ponte une, mas John Urry vai além: um novo elemento muda tudo. Não se trata mais de lado A, lado B, duas zonas separadas e agora unidas ou margens distintas de um mesmo rio. A ponte, ao acoplar os lados, transforma-os imediatamente, e novas práticas vão se formado sobre e ao redor dela. Trata-se de um híbrido margem-ponte-margem, com um rio a fazer parte dele também.

Por esse caminho corre o hífen, com o poder somatório-multiplicador: não é mais uma coisa nem outra, mas ambas. Perfeito como nossa gramática soube compreender bem o poder desse tracinho: já não temos mais nem erva nem doce, nem guarda nem volumes, nem salva nem vidas, nem zaz nem traz. Também não são mais duas coisas, mas uma única forjada por, quem sabe, uma atração singular entre as coisas. Uma espécie de matrimônio perfeito, uma bênção mais poderosa que a da aliança. Não é que haja infinito: talvez possamos cindir os elos, talvez mesmo as coisas possam pedir divórcio. Mas, se estão juntos, é porque em algum momento estiveram distantes e se atraíram? Então eram virtualmente colados? Como dissociar objetos que, portanto, nunca estiveram apartados?

22/03/2011

Axioma 1: em dados momentos, não estamos preparados para certos livros. Não adianta lê-los, a não ser puramente para gastar, ou investir, quase inutilmente nosso tempo. Se o texto não nos serve nem de base, a culpa é toda nossa, a quem falta a base de fato para sustentá-lo, justamente nós que não conseguimos deslocar e realocar pesados blocos de pensamento, e não da obra em si ou do autor, que tão bem conseguiu criá-la com uma leveza intocável e desconcertante.

Axioma 2: os objetos nos escolhem. Uma metáfora florida para dizer aquilo que nos é custoso: que temos escolhas a fazer. E durante tais escolhas, as visões são turvas, vêm aos poucos, e talvez sempre esperemos o momento mágico da epifania: é isso! Mas pode ser que seja isso mesmo, uma galhofa entre atenção seletiva e dissonância cognitiva, um querer-não-querer desgraçado, uma agonia e uma recorrência das coisas. Há uma vida e uma vontade própria nesses objetos - ou quase-objetos - que os faz sempre acenar, mandar gracejos, reaparecer, justamente quando inesperados.

Axioma 3: tudo está conectado (ou nada é por acaso). E então chega um dado momento em que voltamos àquele livro, ou é ele que retorna por vontade própria, e aí surge então uma nova oportunidade de recomeçar. Pode ser que, dessa vez, já estejamos prontos, já que julgamos termos passado por outros nós da rede, ou mesmo que eles, também por próprio querer, é que tenham passado por nós.