19/05/2011

A dura vida de estudante profissional

Primeiro de tudo, há que se considerar mais de um tipo de estudante profissional, doravante EP. Identifico pelo menos dois: o primeiro é aquele que tem medo de enfrentar o mundo fora das grades do ambiente de estudo, seja lá qual for. Todos conhecemos pelo menos uma pessoa assim, ora indecisa, ora cheia de certezas, mas que, dentre vários vou ou fico, pulo ou não, acaba se deslocando sempre na horizontalidade. Ou seja, mal termina um curso, começa outro, ao invés de encarar um desafio novo, diferente. Assim se sucede pois o devir é sempre amedontrador, é sempre uma escuridão, e encará-la é assombroso demais quando não se tem uma barra de saia pra puxar ou uma sandália japonesa pra levar nos couros.

Não é desse tipo covarde que desejo falar, entretanto, mas daquele EP cujo trabalho é de fato estudar. Tarefas? Ler, escrever, anotar, fichar, congressar, articular, referenciar, ler mais uma vez e alimentar todo o ciclo vicioso de construção de ficções - só para citar Latour e Woolgar e seu maravilhoso A vida de Laboratório. Essa categoria é aquela recebe dinheiro, ou deveria receber, para somente estudar. E estudar, aqui, significa gastar não uma ou duas horas lendo um texto qualquer, fingindo alguma produçãozinha e algo mais, mas talvez estabelecer uma rotina suficiente para manter vivo aquele ciclo citado logo acima. Não é um trabalho melhor ou pior que os outros, de mais ou menos status, mas é diferente a ponto de não ser compreendido. Enquanto o mundo todo estuda para depois trabalhar, o EP trabalha já estudando.

É claro que a situação típica do EP dedicado - aquele que consegue deixar a bunda quadrada e realmente se torna um cu de ferro - pode vir a ser radicalmente não entendida por outros tantos. Como alguém trabalha em casa?, diria a D. Maria que faz faxina. Como alguém fica estudando às 3h da manhã?, perguntaria o S. Menino, porteiro que dá uma bisbilhotada nas luzes dos quartos entre um cochilo e outro. Ambas as atividades, por sinal, são privilegiadas: é bem possível passar o pano na sala ou abrir o portão enquanto se pensa em outra coisa. Corpo aqui, mente acolá.Trabalhar, assim, já parece ter virado sinônimo de alienação, enquanto estudar é algo como preparação. Mas notemos: alienação não apenas no velho sentido marxista, que esse ainda persiste, mas também num sentido meio lobotômico - aquele caso típico de entrar no automático, apertar parafusos e pressionar botões, sem já nem saber como e por que. De forma é possível entrar no automático lendo textos cabeçudos? Seria possível e mesmo desejável?

Fora essas questões, ainda resta um ponto a esclarecer antes de assinarmos a carteira, afinal: quantas horas por dia? O operário padrão chega às 8h e sai às 18h, ou qualquer coisa similar. É isso que faz o EP certinho? Oito horas de trabalho puxado, com intervalo de almoço no meio, é assim que deve proceder o EP? Não sei bem ao certo. Até pensei que fosse, pois por vezes acho que essa modernidade toda é o que está quebrando o mundo. Alguns padrões rígidos de disciplina até que não fazem tão mal assim, né? Ou fazem, sei lá. Esse texto mesmo não estaria saindo agora se eu estivesse seguindo o ciclo ideal do EP do mês. Ou talvez nem devesse sair, de fato, já que há uns 2 ou 3 artigos ansiosos por serem feitos. Eles existem, virtualmente. Então deixa que eu os atualize, já é hora. É preciso construir ficções.

03/05/2011

Lógica da desordem

Há uma lógica de desordem inacreditável em Salvador. Não que a desordem seja ruim e que a ordem seja boa. Não desejo anexar juízos de valor a estas palavras, pelo menos não conscientemente. Mas que há uma desordem, há, e parece que ninguém da casa sabe ou mesmo quer arrumar a bagunça. Vejamos, pois.

Primeiramente, os traçados das ruas. Seria preciso voltar pela história da cidade para entender mas, aparentemente, o departamento de trânsito local não sabe e nunca soube que a distância mais curta entre dois pontos é uma reta. Ok, há trocentos morros para todos os lados, e fazer meros 100 metros de avenida reta às vezes é impossível. Como cavar um túnel é mais caro que contornar o obstáculo, tome curva, então.

Não bastasse a inspiração nos grandes prêmios da Fórmula 1, a desordem também impera na numeração. Pra que ela existe, aliás? Se ali na frente é 260, depois é 322, mas logo volto para 274, então ela não funciona! E de repente aparece, no mesmo lado, um número ímpar, um 91 da vida, por exemplo. Nitidamente há em alguns logradouros uma dupla marcação, por vezes no melhor estilo "à direita de quem vai, à esquerda de quem vem". E procurar um endereço no nosso guru-mor de cada dia, o oráculo Google, é inútil: nem mesmo o olho de Deus sabe ao certo onde ficam determinados endereços, e a indicação passa ao largo de uns 500 metros, no mínimo.

Outra coisa impressionante é forma como as coisas estão localizadas na cabeça. Existe um senso de se localizar pelos lugares ou pela topografia. Isso é impressionante! Quando se pede água, a pessoa do outro lado da linha não pergunta qual a numeração do prédio; pergunta apenas qual a rua e o nome do edifício. E se você ainda assim quer ser brother e tenta fornecer a numeração, a criatura recusa. Parece uma ojeriza aos números. Mais estarrecedor é pedir informações na rua. As pessoas não dizem "você dobra na rua tal, depois entra à esquerda na avenida x". Ao invés disso, transformam-se instantaneamente em geógrafos, acessam um banco de dados interno, puxam todas as informações da estrutura física da cidade e, por fim, roteirizam: "é na rua do Morro do Cristo" ou "logo depois que descer o viaduto, você vira a direita e segue até o largo" ou mesmo "entra nas gordinhas". É até compreensível que seja assim, afinal se a numeração-racionalização não funciona, faz-se necessário encontrar outro meio de racionalizar o espaço.

Apesar de toda a dificuldade com as ruas daqui, confesso que eu mesmo já me peguei dando informações à la baiano: "onde fica o final da linha x?", perguntaram-me. Minha resposta não poderia ter sido mais sotero: "cê vai em frente e na terceira rua, a rua do posto, entra à esquerda". É estranho, mas deve ter sido uma solução encontrada pela população para poder se situar no arranjo louco da cidade. É até meio poético, uma vez que a valorização do tal senso comum e do saber local tem sido apreciada - um passar de mão pela cabeça quase pedagógico, bem dizer. Mesmo essa relação afetivo-topográfica sendo bonitinha, confessemos: seria bem mais fácil ter uma estrutura ordenada, como em NY: ruas e avenidas não com nomes, mas numeradas, cartesiana e ditatorialmente postas em perpendicularidade. Se bem que aqui é Salvador, né? Se adotassem tal marcação, nem a ordem dos números seria respeitada - como já não o é no caso dos imóveis...

- Onde fica a Rua 4? Não consigo achar.
- Ah, é porque ela fica entre as ruas 6 e 7. Entra ali nas gordinhas que cê chega nela.