Por mais incrível e irônico que pareça, estas linhas não versam sobre o passado, mas sim sobre seu antagonista-mor: o que ainda está por vir, tão certo de vir que até nome já tem e que, ainda assim, apesar das certezas, é tão incerto quanto aquilo que ainda não veio. Ou seja, tão incerto quanto o é em si.
Pensar em arrependimento denota olhar para trás. De uma maneira ou outra, mesmo que pensemos momentaneamente no futuro, arrepender-se é sempre um movimento de volta. Ah se tivesse sido de outra forma... E estas linhas, que já se tornaram parágrafos, parecem tão paradoxais quanto insustentáveis. Mas é só aparência, porque se se sabe bem do futuro, é porque já se viveu o passado demais para já saber do devir.
Pois vejamos: chega o momento, o dia D ou a hora H. Esse é o momento-ápice, aquele que, se representado graficamente, é o cume de uma dança de linhas num plano cartesiano. Consideremos esse instante como o momento exato de arrependimento. É quando olhamos para trás e pensamos que poderia ter sido diferente. É quando temos vontade de desfazer toda a linha do tempo e reconstruir o enredo da maneira que for possível. Mas nesse nosso movimento paradoxal, é bem possível olhar para o futuro, justamente aquele que vem depois do ponto culminante, mas apenas antes de chegarmos neste - e, portanto, bem antes também de alcançarmos o que está por vir depois. Pois é assim que me sinto, sabendo que ora me arrependerei, que olharei para trás e que, ainda assim, outrora me desarrependerei - mas não se entenda como um arrependimento do arrependimento, mas uma simples volta, um retorno ao estado de origem, como seu eu pudesse, ou viesse a poder, flanar na linha do tempo.
Cabe a pergunta: por que fazer a dita ação que me levará ao arrependimento certeiro? Pode-se dizer "para testar", mas essa escolha seria auto-blasé demais. Ou também "porque, de outra forma, apenas me arrependeria mais ainda". No fundo, a dinâmica parece se dar exclusivamente a partir de uma ordem matemática: a menor perda é o que nos leva ao caminho a ser escolhido. Há, claro, aqueles que se baseiam nas emotividades ou ainda nas espiritualidades. É válido, mas não é o caso. Dessa vez - ou como sempre - tomo por base o cálculo frio e a quase certeza do desarrependimento, ainda que tal frieza me permita ver perfeitamente o futuro arrependimento tão certo quanto o próprio espaço-e-tempo, o próprio futuro, que lhe dará lugar.
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