17/08/2011

Sem lugar para introspecção

Por vezes leva um bom tempo até que você passe a entender a relação entre você mesmo e a cidade em que você vive. Vamos a algumas constatações: não há lugar para introspecção em Salvador. A palavra parece ter sido riscada do dicionário baiano. Mais uma vez, não que seja bom ou ruim a priori, mas é o que se vê por aqui. Notemos:
  • Pessoas falam alto no meio da rua, como se todos os demais transeuntes precisassem de fato saber do que se trata. Bem, frisemos que uma conversa até envolve mais de uma pessoa, mas as praças não precisam virar ágoras. Nesses casos, bom senso é um ponto misterioso demais, intocável até.
  • Como se não fosse suficiente saber o teor de um diálogo, às vezes nos é dada a oportunidade de saber tudo sobre o monólogo do cidadão. Sim, porque não raro é possível encontrar um indivíduo reclamando, elogiando, gritando sozinho, falando para todos e para ninguém ao mesmo tempo. E quanto mais ignorado, mais ele fala.
  • Nas zonas turísticas, você é abordado da maneira mais agressiva possível por ambulantes. Não há respeito pelo espaço alheio, e a invasão é tanta a ponto de chegarmos ao contato físico - se der bobeira, eles amarram uma fitinha do Bonfim made in São Paulo em você e aí já era. Brasileiros não têm lá muito essa frescura, ok, mas e os gringos?
  • Ressalte-se, quanto ao ponto anterior, que, quanto maior sua educação, maior o nível de invasão. Coisas como "não, obrigado" resultam numa intensificação da abordagem. Esnobar, dizer não com a cabeça sem nem abrir a boca, fazer cara de quem não está nem aí pra aquela porra de artesanato, tratar como cachorro de rua, enfim, no geral são atos que conseguem afastar vendedores. Um "vai te fuder" meio que lhe dá imunidade para todo o sempre.
  • Não bastasse ambulantes nos pontos turísticos, há ainda aqueles que entram no ônibus com o cinismo de quem precisa ganhar o sustento do dia: "desculpa incomodar a viagem de vocês, mas estou aqui trazendo...". Não desculpo não e vai calando a boca logo. Deixa eu curtir esse engarrafamento na minha, porra.
  • E, claro, não é possível deixar de lado aqueles que adoram socializar sua música. Sempre tem alguém no ônibus ouvindo uma swingueira nojenta de dois ou três acordes. Fone de ouvido, para essas criaturas, é algo meio alienígena. Deve dar câncer, só pode.
Está claro por que introspecção é algo que não existe no dialeto baianês?