Às 4:15 da manhã, impaciente, nervoso, espirrando e tenso precisa de algo para aplacar tamanho nervosismo. E, como se sabe, pessoas nesse estado alterado estão propensas a atacar os suprimentos e mastigá-los sem dó.
Senta-se à mesa, pega o requeijão, pega as bolachas e põe-se a comê-las, as bolachas com o requeijão. Bolachas duras, croooc, croooc, ótimas para ele que, quando se encontra desse modo, tudo o que quer é morder algo que force suas mandíbulas e o faça sentir dor nas articulações. Masoquista, talvez.
No silêncio da madrugada, pensa, sonha, deseja que não apareça ninguém para estragar seu momento particular, íntimo como uns instantes de masturbação. É tímido, não deseja nenhum familiar apreciando sua boca a atacar as bolachas. É um momento privado, entre ele, as bolachas e o requeijão. Que o silêncio, a escuridão e a inércia continuem. Que fiquem todos em seus quartos, dormindo, dormindo.
Mas é preciso pôr mais intrusas. As bolachas não estão legais. Elas têm recheio doce, o que não permite sentir o gosto do requeijão. É preciso contraste. O salgado e o doce brigando. E convida para a orgia as torradas. Que estão velhas, é verdade, mas vêm a calhar não como idosas, mas como experientes cortesãs.
E assim ele fica, a provar de uma e de outra, alternadamente, sempre com o requeijão à mão, atacando ora a bolacha, ora a torrada, degustando-as, até que o nervosismo se esfrie e fique tudo calmo outra vez.
Toma uns goles de refrigerante de uva - como se fosse vinho - e pronto, hora de dormir.
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