07/01/2005

Toda a crueza do mundo numa fatia de pizza mais barata que tiver

Ami, qual a pizza mair barata aí, hein?
Chega a família, esposa, marido e filho pequeno. Se sentam, a mulher começa a falar, infeliz que é, isso é uma irresponsabilidade, isso sim, vem um carro doido e bate atrás, parece reclamar de como o marido estacionou o carro, e o marido tá bom, tá bom. E depois sai pra mudar o carro de lugar.
Ela: loira, cara de velhaca, pelos 40 anos, acabada, cansada da vida difícil que leva, ou deve levar. Manchas no rosto, ombros caídos, o seios também devem estar, com alguma certa barriga, mas nada de gorda. Ele: enorme de gordo, típica barriga de cerveja e de ronco depois do almoço, respiração cansada de tanta gordura no corpo, míope de dar pena, suado, fala trôpega e embolada, coisa nitidamente para poder ser aceito pelos amigos machistas e ditos porcos, machos sujos que falam alto e coloquial, cospem no chão e chamam de gostosa cada baranga que lhes passa na frente. Desses tipos que vão ao estádio aos domingos, bebem litros de cerveja, comem de boca aberta, dão umazinha por semana com a esposa - e outrazinhas com qualquer vadia - e ainda batem na mulher. A criança: não sei. Comum demais para ser percebida com atenção.
Fiquei penalizado de ver a mulher com aquele homem. Pois seu olhar mostrava a tristeza que era conviver com ele. Deveria ser um funcionariozinho de merda de qualquer empresa ou de alguma repartição pública - é, repartição pública é mais provável -, sem ambições de qualquer natureza. E ela deveria sofrer todas as noites por sempre se lembrar da mãe dizendo não case com esse homem, você só vai sofrer. Hoje está aí, com um boi que não deve dar no couro, e que ainda deve chifrá-la, e ela, antiquada, esposa à moda antiga, fiel ao marido, não procura outro homem, porque aquele a quem seu pai entregou na igreja, no fatídico dia do seu casamento, fora - e há de sempre ser - o único homem da sua vida.
Também tive pena dele, que deve ter a auto-estima lá embaixo, não pelo seu corpo ou pela sua fala ou pelos seus óculos, mas pela vida que leva, porque tem de mostrar pros amigos um nível de vida baixo - aquele que seu salário permite -, e ainda tem de aturar o fato de seus amigos conhecerem a mulher com quem se casou, uma mulher chata, feia, que só reclama, reclama pra caralho, reclama de tudo, insatisfeita que está com a vida que leva, com um marido daquele e com um filho pra criar. Tive pena dele porque não pode comprar nem uma pizza mais elaborada além da mista, quanto mais um carro melhor, e precisa continuar com o velho carro que o acompanha há anos - um Chevette ainda conservado. Mas pra pegar coisa melhor - e digo mulheres melhores - ele precisaria de um emprego melhor e de uma coisa melhor - digo carro melhor - o que também precisa de antemão de um emprego melhor.
Do filho também tenho pena. Simplesmente por ter nascido numa família e ser filho de uma mãe neurótica e seca e de um pai similar a um porco. Ami, bote aí pro meu filho, fala ao garçom, pedindo a este que coloque um pedaço de pizza pro seu pequeno, mas com a propriedade e afirmação de um corno. Bote aí também pra mia muié também, far favô. Está em pé, como se estivesse num posto bebendo com os amigos e ouvindo o forró alto do carro, e ainda porta um copinho de plástico na mão, e de vez em quando o leva à boca. Penso no que tem ali, talvez cerveja, mas há apenas gelo. Está com calor, sua feito um porco - porco que já é - e o gelo aplaca um pouco a quentura. E o senhor, boto pro senhor?, pergunta o baratinado garçom, sem saber se serve ou não o chefe daquela família, sem saber se o homem vai comer ou não. Não, pó deixá, eu bó depois, fala o chefão, sem vontade de comer, ou fingindo que está sem vontade. E sempre a fala embolada. E me deu nojo vê-lo tomar a água do copo, colocando a língua meio pra fora, encostando nos lábios, como se fosse dar uma tossida vinda lá do âmago.
Quer mais?, pergunta a mãe ao filho, e o menino não responde, ou se responde fala baixo, mas mais parece um mudo, quieto que é. E quem responde é o pai, qué, ele qué, qué sim, bote aí, pó botar, ele qué. E a mulher continua a reclamar da vida, reclama de tudo, dos preços, do calor, dos engarrafamentos, só não tem coragem de reclamar da barriga do marido que a esmaga nas raras vezes que fodem, não tem coragem de reclamar do carinho que o marido não dá, não reclama da insensibilidade do homem, que pensa que tudo que lhe basta é ter sustento e conforto no lar-doce-lar, não reclama que ele sai pra beber com os amigos e a deixa tomando conta do menino nas noites de sexta e de sábado, e enquanto aquele bosta tá lá, se divertindo, estou aqui eu, só no meu home-sweet-home, essa buceta de vida de merda.
Ami, pó botá aí pra viage? E o garçom leva a pizza que sobrou, muitas fatias, coloca num saquinho, embaladas num papel, e a mulher volta a reclamar logo que o garçom se afasta, eu não daria dez reais por essa pizza não, não daria nem a pau, fica falando feito abestada que é, sem nem olhar pro marido, com uma convicção enorme de que se comprasse aquela bosta que acabou de comer e ainda deu ao filho estaria fazendo um péssimo negócio. Daria nada, nem a pau, fala ao tempo que se levanta, daria não, ó, nem a pau.
E vão embora, os três, bó, bó, fala ele, já andando, desajeitado. Ela já se calou, mas ainda deve reclamar durante todo o trajeto até a casa, não do preço da pizza, mas de tudo no mundo, quando queria reclamar era da vida que leva, e ele calado, cansado porque a barriga não o deixa respirar direito, cansado também da vida que leva, e o menino, este, que deveria falar, visto que é novo como é, este mal abre o bico, tímido talvez, mudo quem sabe, e sabe-se lá as coisas que afetam a vida daquela família, clássica família de classe média baixa, infeliz, com sonhos, vontades, desejos, sem esperança e sem dinheiro, tão pouco dinheiro que só dar pra comprar uma mista que vem na promoção com refrigerante por dez ou onze reais.

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