25/03/2005

eu e o cinema

"Mas vou pra lá pra me divertir. Não consigo me divertir com essa linguagem diferenciada".
Não sei se ele é normal ou comum ou sei lá o quê, ou se sou eu que sou masoquista ou diferente demais. Pois lhe disse que gosto de ir lá para "sofrer". Gosto de sair de lá acabado, de sentir minhas idéias remexidas como por um liquidificador, me sentir um merda mesmo, vendo que a vida não passa de um lépido risco no nada. Gosto de ver minha antítese na tela, ou mesmo de me sentir corroborado até, mas gosto de me ver pensando naquilo que está sendo mostrado. É a única ocasião que sinto meu dinheiro bem empregado, em se tratando de cinema. Pois me parece que ver um filme, comer pipoca, beber refrigerante e se divertir por cerca de duas horas da forma mais leve possível não é outra coisa que se render demais à sedução da facilidade. O dinheiro vai embora, fácil, fácil. E entra fácil nos bolsos dos cretinos roliudianos.
E se eu disser que alguns dos meus prediletos são Tiros em Columbine, Mar Adentro, Irreversível, Dogville, Bicho de Sete Cabeças e Durval Discos, por exemplo? Será que dá pra entender a agonia que preciso sentir na sala escura? Será que dá pra entender que a mesma agonia que quero sentir nos livros (o que eu demoraria pra sentir em uma semana, no mínimo) quero, também, sentir em duas horas? Ora, ora. Ora, ora.
Não é querendo criticá-lo - espero até que não veja esse post, pois vai me entender mal - mas prefiro estar no mundo alternativo à me render à diversão fácil e superficial do cinema vendido por combos. Você compra pipoca+refri+diversão+beijos da gatinha ou do gatinho+mão-boba+risos e piadas previsíveis e, pronto!, a noite está perfeita. Mas ir ao Iguatemi, pra mim, não tem jeito. Saio de lá mal por ter me divertido. E ir ao Dragão é bom demais. Saio de lá muito bem por ter sofrido.
"Prefiro não mexer nas minhas idéias, deixá-las quietinhas", diz ele. É medo?

08/03/2005

Então é natal

Olha, as mulheres que me desculpem, mas não vou dar parabéns pelo Dia da Mulher coisa nenhuma.
As brincalhonas de plantão podem dizer que é inveja ou coisa assim. "Ah, vocês nem têm um dia só do homem". Não precisa. O homem domina o mundo, seja por força ou por estupidez. Ou seja pelos dois.
A mulher já é violentada pela sociedade - leia-se masculina e feminina - diariamente, desde que a mulher é mulher e o homem é homem. É da mulher a profissão mais antiga do mundo (mais antiga e mais estuprada). É a mulher que sofre pela família, mesmo quando esta nem era instituída. É a mulher que se dobra pra ser trocentas personagens no dia-a-dia. Nada mais merecido que um dia só pra ela, não? Pelo menos que não fosse um dia que a minimizasse. Aí sim.
O Dia da Mulher não é uma mera homenagem. Primeiro, passa pela cultura positivista. E odeio o Positivist Way of Life. Chega de ícones e símbolos. Chega de datas e nomes. Chega de fatos marcantes sem motivos e questionamentos por trás do palco. Chega dessa história ridícula, linear e progessivista.
Segundo, é uma data meramente comercial. Assim como o Dia das Crianças, dos Pais, das Mães, o Natal... Que? Alguém vai ter coragem que nossa singela sociedade ainda guarda os significados das datas comemorativas? Bem, talvez essas datas, com exceção do Natal ou da Páscoa, nem sequer tenham algum significado senão o lucro.
Não, não quero transformar as mulheres ao meu redor em coisas e em motivos para datinhas vermelhas no calendário. Já chega elas terem que se vender pra não morrer de fome. Já chega elas terem de agüentar "gostosa!", "delícia!", "tesão!" e mãos-bobas de estranho em show ou similares. Já chega elas ganharem menos no trabalho. Já chega agüentarem maridos bêbados. Ah, pô, vá a merda esses dias "especiais".
De que adianta eu demonstrar homenagem às mulheres durante um só dia do ano se nos 364 restantes eu solto piadinhas infames pra todas que passam por mim? Haja hipocrisia...
Pronto, acabou saindo minha "homenagem" às mulheres no dia delas. Parabéns, então... E emancipem-se. Sempre.

06/03/2005

Trouble

As músicas marcam, né?
Teve uma época, mais ou menos um ano atrás, que eu tava lá, batendo ponto todo sábado, numa boate qualquer ali de um canto qualquer, com umas pessoas bem legaizinhas que eu havia conhecido há pouco. Quase sagrado estar lá.
Nessa boate tocava - e ainda tocam - as músicas do momento.
Dentre as músicas do momento estava uma chamada Trouble.
Dentre as pessoinhas legais, tinha uma que adorava a banda que tocava Trouble.
E essa pessoa, estranha, doidinha e meio de lua foi me cativando paulatinamente.
Desde um certo instante, nunca mais havíamos ido a essa boate. Nem juntos, nem separados.
E justo no dia em que eu volto a essa boate, na ida toca Trouble na rádio.
E só consigo me lembrar dessa pessoa, que deveria estar lá comigo, mas estava não. Estava era distante.
E tava faltando ela por lá.
Até falei isso pra ela, mas parece que ela não me acreditou muito.
Fazer o quê?
Será que ela acredita agora?

03/03/2005

"É precisamente porque estes [os iconoclastas] apresentavam esta omnipotência dos simulacros, esta faculdade que têm de apagar Deus da consciência dos homens e esta verdade que deixam entrever, destruidora, aniquiladora, de que no fundo Deus nunca existiu, que nunca existiu nada senão o simulacro e mesmo que o próprio Deus nunca foi senão o seu próprio simulacro - daí vinha sua raiva em destruir as imagens." (Jean Baudrillard, Simulacros e Simulação).
Uau! Será que entendi o que ele quis dizer?