Há uma lógica de desordem inacreditável em Salvador. Não que a desordem seja ruim e que a ordem seja boa. Não desejo anexar juízos de valor a estas palavras, pelo menos não conscientemente. Mas que há uma desordem, há, e parece que ninguém da casa sabe ou mesmo quer arrumar a bagunça. Vejamos, pois.
Primeiramente, os traçados das ruas. Seria preciso voltar pela história da cidade para entender mas, aparentemente, o departamento de trânsito local não sabe e nunca soube que a distância mais curta entre dois pontos é uma reta. Ok, há trocentos morros para todos os lados, e fazer meros 100 metros de avenida reta às vezes é impossível. Como cavar um túnel é mais caro que contornar o obstáculo, tome curva, então.
Não bastasse a inspiração nos grandes prêmios da Fórmula 1, a desordem também impera na numeração. Pra que ela existe, aliás? Se ali na frente é 260, depois é 322, mas logo volto para 274, então ela não funciona! E de repente aparece, no mesmo lado, um número ímpar, um 91 da vida, por exemplo. Nitidamente há em alguns logradouros uma dupla marcação, por vezes no melhor estilo "à direita de quem vai, à esquerda de quem vem". E procurar um endereço no nosso guru-mor de cada dia, o oráculo Google, é inútil: nem mesmo o olho de Deus sabe ao certo onde ficam determinados endereços, e a indicação passa ao largo de uns 500 metros, no mínimo.
Outra coisa impressionante é forma como as coisas estão localizadas na cabeça. Existe um senso de se localizar pelos lugares ou pela topografia. Isso é impressionante! Quando se pede água, a pessoa do outro lado da linha não pergunta qual a numeração do prédio; pergunta apenas qual a rua e o nome do edifício. E se você ainda assim quer ser brother e tenta fornecer a numeração, a criatura recusa. Parece uma ojeriza aos números. Mais estarrecedor é pedir informações na rua. As pessoas não dizem "você dobra na rua tal, depois entra à esquerda na avenida x". Ao invés disso, transformam-se instantaneamente em geógrafos, acessam um banco de dados interno, puxam todas as informações da estrutura física da cidade e, por fim, roteirizam: "é na rua do Morro do Cristo" ou "logo depois que descer o viaduto, você vira a direita e segue até o largo" ou mesmo "entra nas gordinhas". É até compreensível que seja assim, afinal se a numeração-racionalização não funciona, faz-se necessário encontrar outro meio de racionalizar o espaço.
Apesar de toda a dificuldade com as ruas daqui, confesso que eu mesmo já me peguei dando informações à la baiano: "onde fica o final da linha x?", perguntaram-me. Minha resposta não poderia ter sido mais sotero: "cê vai em frente e na terceira rua, a rua do posto, entra à esquerda". É estranho, mas deve ter sido uma solução encontrada pela população para poder se situar no arranjo louco da cidade. É até meio poético, uma vez que a valorização do tal senso comum e do saber local tem sido apreciada - um passar de mão pela cabeça quase pedagógico, bem dizer. Mesmo essa relação afetivo-topográfica sendo bonitinha, confessemos: seria bem mais fácil ter uma estrutura ordenada, como em NY: ruas e avenidas não com nomes, mas numeradas, cartesiana e ditatorialmente postas em perpendicularidade. Se bem que aqui é Salvador, né? Se adotassem tal marcação, nem a ordem dos números seria respeitada - como já não o é no caso dos imóveis...
- Onde fica a Rua 4? Não consigo achar.
- Ah, é porque ela fica entre as ruas 6 e 7. Entra ali nas gordinhas que cê chega nela.
Hihi...#p Onde fica a Unidas, moço?
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