Às vezes acho que tenho algo de masoquista. Pois, não sei por que, parece até que procuro por aquilo e por aqueles que me fazem mal. Mas isso já é ser negativista e colocar a culpa sobre meus ombros. Se "eu fosse mais eu", externalizaria qualquer falta e diria que o negativo é que me procura - assumiria, de quebra, que sou um pólo positivo, e que o que não presta está fora de mim.
É irônico que assim seja, até porque é precisamente essa assunção que tantos utilizam, quando são, quando fazem, quando estão. E sobre esse verbo, que parece ser menos ação que o ser e mais localização que o situar, lanço meu olhar por uns instante. Pois que, fazendo um elo entre o primeiro e o segundo parágrafos, posso dizer: vez por outro me atraio por aquilo que me faz mal, e me faz mal ler qualquer coisa publicitária que afirme, com orgulho, "estar no coração da Aldeota". Pois foi o que vi há pouco, pulando de link em link, até encontrar a maldita frase já catapultada ao posto de bordão da propaganda cabeça-chata.
Mas o que afinal é estar no coração da Aldeota?
A frase, claro, diz algo além do endereço. Diz algo sobre condição socioeconômica, e também política, e cultural, e simbólica e também qualquer coisa que se queira pensar. Aliás, em tempo, todo mundo quer estar na Aldeota, ou queria, já que o velho bairro parece andar meio na ladeira da decadência. Mas se todos estão na Aldeota, e mais ainda em seu coração, que coração central é esse que abarca o corpo inteiro? É de mãe esse músculo involuntário?
Ora, estar no coração da Aldeota é como morar no melhor da Messejana: tem sempre algo de bom, é perto de tudo, tem todos os serviços e o que é de ruim resta periférico. Lá, não aqui. E se o periférico depende de um centro, e esse centro sequer existe, porque todos clamam por ele, então que periferia circulante é essa? E que centro flutuante é esse? Não, nem se trata de assumir as mudanças dos centros econômicos ao longo das décadas. Tal nomadismo é facilmente observável. Trata-se de pensar - e assumir! - as guerrinhas particulares entre bairros, de ter por fato o medíocre discurso bélico do dia-a-dia que lança mantas de favela ali e louros de Alpha Ville aqui. Porque estar no coração da Aldeota é isso, e muito mais. É ser católico apostólico românico, é usar iPhone e ostentar o símbolo do pecado, é estar livre de todo mal, amém, e pregar, no carro, adesivo do Recado, comer na Romana e ignorar a Leão do Sul, pagar 6 meses de academia adiantados e frequentar só por 2, se esbaldar de Heineken e considerar o Ceará já inserido no circuito internacional do consumo.
E então, aldeia Aldeota, o que é de fato estar em seu coração? Se é que há algum no seio dessas suas famílias filhas da oligarquia... Aposto que, se pudesse responder, você sequer teria palavras exatas. Aposto que nenhuma descrição daria conta para falar dessa finesse ridícula que consome a visão já hipermétrope dos seus moradores e vizinhos publicitários, inventores e reinventores dos bordões exclusivistas mais repetidos da cidade. Indica de uma vez onde é que fica esse coração pra que algum Peri lhe dê umas boas flechadas. Talvez assim, só assim, é que se rasgue toda essa falácia cosmopolitana que te cobre e a faça desmoronar. A falácia, não você, porque se você vier a cair, que Papicu, Fátima ou Seis Bocas virá assumir o seu lugar?
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