01/09/2011

O insubstituível ou a essência das coisas

Já falei em outro momento aqui mesmo como os objetos fazem falta, cada qual à sua maneira. Na ocasião, falava de como a ausência de um simples espelho imprimia uma interrogação sobre mim, a ponto de não saber exatamente a quantas andava meu rosto. Àquela época, sem espelho e com preguiça de sair para comprar, a solução acabava morando de aluguel entre uma coisa e outra: a tela do computador, da tv ou do celular, uma janela de carro mais escura e até uma panela bem polida podiam me dar aquilo do que eu estava desprovido: mais que um reflexo, mas também uma reflexão sobre minha identidade.

E a todo momento sinto falta de certas coisas e das coisas certas. A constatação é duplamente estranha, não só pela ideia de certo mas pela utilização específica de uma coisa e não de outra. Comecemos por essa parte, então: há coisas que são substituíveis, enquanto outras têm uma qualidade ímpar. Posso trocar uma caneta por outra, um computador por outro, um copo por outro. Há pouco quebrei mais um prato (eles vivem se desvencilhando das minhas mãos, ora), mas isso não faz a menor falta justamente pelo valor de unicidade que eles não têm. São substituíveis, portanto. Troco de prato, e se quebrarem todos, compro novos.

A coisa começa a se complicar quando vivemos atrelados a um mundo de simulações. Não tenho uma calculadora por perto, não da forma como aprendi que ela é, mas ao mesmo tempo tenho 4. Duas delas em celulares, duas em sistemas operacionais. São calculadoras porque calculam, fazem contas, computam algo. Não têm a mesma materialidade das calculadoras tradicionais (de plástico ou similares), mas funcionam, fazem o que devem fazer. Ainda assim, entretanto, causam estranheza, talvez pela dificuldade de digitar os números no teclado do notebook ou na tela touch do celular. Há algo de dificultoso em ambas as formas, e nem estou bem certo de que essa é uma querela de gerações.

Pelo mesmo caminho vão editores de texto ou blocos de nota. Ora, se a cultura da interface se caracteriza, dentre outras coisas, justamente por ser uma metáfora da vida fora da tela, nada mais sensato que se utilizar de elementos imitativos daquilo a que estamos acostumados. O bloco de notas, assim, pela sua praticidade e versatilidade parece perfeito: tomam-se notas, escrevem-se pequenos textos, programa-se até. Mas, definitivamente, não tem a mesma riqueza que uma folha de papel em branco. Alguém já disse, muito sabiamente, que não fazia esculturas; elas sempre estiveram ali, no mármore, e o que o indivíduo fazia era tão somente retirar o excesso de material até que a forma oculta se revelasse. E é mais ou menos assim com a folha em branco: nada está lá, mas tudo está - virtualmente, mas está. Cabe ao grafite ou à caneta desvelar, camada a camada, o texto, o desenho, os rabiscos que se podem encontrar.

É também estranho falar sobre um uso correto das coisas, como se fosse claro que os objetos são criados para que tenham um fim específico e nenhum outro mais. No fundo, a questão é terrível mesmo, meio que sem solução: há uma essência nos objetos ou eles só se constituem como tal a partir de seu uso? Já falei há pouco que o bloco de notas do Windows, por exemplo, serve para tomar notas, mas é possível usá-lo para criar ou editar softwares inteiros só com ele. E isso os faz ambientes de desenvolvimento? O próprio computador no qual escrevo esse texto por vezes chega a impressionantes 80 e poucos graus centígrados. E isso o faz ser uma frigideira?

No fundo, tudo isso veio de uma constatação desorientadora: da mesma forma como o espelho me fez falta, um caderno de notas (e não bloco) também o faz. Tenho 3 blocos de nota grandes e um 1 pequeno. Embora tenham a mesma função - servir papéis para o rabisco de notas - nenhum consegue ter a mesma aura que um caderninho possui. (E talvez seja esse um dos motivos pelos quais pessoas cool gostem tanto de Moleskines). Mas não só a aura: também a praticidade, a facilidade de uso, a forma concisa, fechada, blocada. Arrancam-se folhas do bloco com uma facilidade que nos faz pensar: em breve, deixará de ser um bloco para se tornar um conjunto disperso de folhas soltas. Porque esse ponto parece bem sensato: não se pode falar de uma essência sem uma forma nem de uma forma sem conteúdo - como, afinal, seria um bloco de notas se as folhas de papel não estivessem juntas?


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