16/09/2011

Retirante, o verdadeiro cosmopolita

Às vezes olho pra trás e compreendo que meu lugar nunca fui ali. Se sempre me senti um "cidadão do mundo", se sempre achei frívola qualquer tentativa de estabelecer fronteiras meramente virtuais, é porque também nunca vi esse ou aquele território como digno de fixação - seja física ou simbólica - o que nos leva a um olhar de mistura, conurbação, indefinições e borragens em geral.

Lançar um olhar para Fortaleza hoje me faz pensar em como ela está se tornando um pouco de arrogante - a exemplo de certas Venezas brasileiras. Há no ar um corrente discurso católico de "somos todos irmãos", mas bate-se no peito com orgulho para se dizer quem é, e usa-se nessa porrada uma força tão grande quanto aquela aplicada para fincar estacas no chão nos processos mais improvisados de demarcação de terra. Parece até que o espírito do sertanejo não saiu do transgressor corpo urbano - o que talvez até seja bom, pois nos lembra um pouco do que somos, de onde viemos.

Acontece que, apesar da boa intenção da fraternidade, não passamos mesmo de um bando de nazistas a procura de seu Hitler, e a formação dos grupinhos, tribos ou panelinhas urbanas é bem sintomática dessa busca. O termo "coletivo" parece designar essa massa fascinante (mas fascinada jamais, porque sua cultura impede!): não é uma empresa, em formas tradicionais, tampouco é socialista - não venha me dizer que um consumidor de Heineken ou Chili Beans estampa com seriedade o símbolo da foice e do martelo; além disso, seus membros são realizadores e não autores, porque esse termo nos remete ao típico (e defasado) modelo de produção e exploração de conteúdo do século XX - e esses gênios, esses vanguardistas da arte contemporânea são qualquer coisa de pós. E nesse passo blasé - uma coisa meio "estou sempre à frente mas não ligo" ou "ai mamãe, como sou cult" - vão constituindo, enquanto coletivos não tão coletivistas, aqueles clustters ao redor dos quais reza e baba a massa de fãs, essa sim ignorante e fascinada.

O mais impiedoso, entretranto, não é bem o totalitarismo nem tão existente (ou existente, mas disfarçado) nesses círculos, mas sim sua própria caracterização de círculo: grosseiramente, ninguém entra e ninguém sai. Fazer parte de um coletivo é tão estonteante quanto diametralmente oposto o é não fazer parte. Ou se insere nos grupinhos da moda ou se lamenta sem previsões de fim. Porque talvez seja justamente isto que me faz ver que o Ceará não era exatamente o meu lugar: ter entendido que as geografias invisíveis daquela terra eram bem mais fortes que as distâncias físicas impostas pela pequena imensidão do mundo. Ora, quem não nasceu pra Farras na Casa Alheia ou Clube do Vaqueiro, nunca vai chegar a ser um nome de peso autopatrocinado dentre a classe média embasbacada de Fortaleza.

Prefiro, pois, carregar a sina que acompanha há tempos os cearenses: ser um pequeno, humilde e eterno retirante em busca de seu lugar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário