19/12/2011

Trangressão político-gastronômica

Era um gringo desses bem a cara dos USA. Poderia se chamar John, McCoy, Edward, e poderia ser um engenheiro ou advogado aposentado e cansado das mesmices de seu país. Mas quem ele era, afinal, não é tão crucial. O que importa mesmo é que se empanturrava de McDonalds, fritas e Coke. Ali punha para dentro aquilo que encontraria em qualquer lugar do mundo. A experiência local estava perdida, parecia que pouco lhe dizia. Mas talvez estivesse descansando do acarajé, do caruru, do vatapá e das outras iguarias oriundas do dendê. Ainda assim, mesmo globalizado, estava nitidamente deslumbrado com as maravilhas da Bahia.

John, McCoy ou Edward, nosso gringo, lambuzava seu sanduíche de plástico com katchup e mostarda e comia tudo com uma voracidade animal. Em cima da melequeira que se formava, jogava a única coisa que dava gosto àquele rango: pimenta do reino moída, dessas que a gente compra no mercadinho da esquina em saquinhos baratos. E ali, o gringo de cabelos brancos e cara suada, enfrentando o calor de Salvador na praça de alimentação de um shopping qualquer, deturpando a não-culinária do sanduíche-padrão mais famoso do mundo, era a coisa mais fora do eixo que eu vi naquela tarde que antecedia a data mais consumista do nosso calendário cristão.

A cena do dia pagou tudo. Aquele gringo americanizado usando tempero não americano numa comida transnacional (mas tipicamente americana) foi a transgressão não transgressora. Acho que aquele homem não tem ideia do que fazia: não se trata de simplesmente politizar a arte de comer, numa atitude pseudoesquerdista, mas aquela mistura colocava em xeque querelas antigas entre local e global, norte e sul, dominados e dominantes, apocalípticos e integrados.

Diria que ele é um quase apocalíptico, sem nem se perceber como tal. Ingênuo, glutão e ensimesmado, apenas fazia o que queria para ter o sabor perseguido. O sanduíche era seu, a pimenta era sua, mas a dimensão política de sua mistura ultrapassou a experiência do paladar e da prática social. Quantos, afinal, fariam algo similar ao que ele fez? E quantos suportariam a ardência?

Que John, McCoy ou Edward transgrida ainda mais outros padrões, em especial os gastronômicos. Que leve tantos saquinhos de pimenta e outras delícias locais para sua terra. Que estrague os padrões de outras redes, e que cruze outras redes, que ponha tudo em movimento e em conexão. Que seja transgressor ainda que nem se saiba como tal.

2 comentários:

  1. Humm... experimentando as crônicas. Gostei. Pimenta na carne, no picles e no pão. Pimenta no texto. Imaginei a cena. Um vivo fragmento séptico em meio a tão vislumbrada assepsia de um shopping center.

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  2. E tome álcool gel para corroborar essa assepsia nojentinha...

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