Em vários pontos discordo muito dela. Mas recentemente, ao discorrer suas opiniões sobre o excesso e o que dele resulta, veio à tona a frase com a qual concordo, ainda que por um viés levemente distinto: é preciso respeitar o artista. Em seu tempo, quanto à sua obra, em relação ao seu significado...
Não é novidade que a indústria cultural espreme e suga tudo do artista. E é preciso que o lucro venha no tempo mais rápido possível. O que é irônico, porque quanto maior a aceleração, maior a tendência de que a velocidade seja menor no fim da reta. Quer dizer, há um ponto ideal, na verdade, descrito no auge do gráfico de formato parabólico ou hiperbólico, sei lá, e o mesmo deve proceder com o suco que se extrai da fruta e com o dinheiro que se multiplica com a música tocada exaustivamente nas rádios. Se ultrapassamos o ritmo inicial, ou se não o atingimos em tempo hábil, então o fôlego final é pequeno.
O fato é que não é só por respeito e parcimônia, mas também e especialmente por teimosia, que não consigo gostar do último figurão ou da última banda a fazer sucesso. Não importa o quão toque bem, não importa o quão cante bem, não importa o quão sejam bons seus livros, recuso-me a consumir abobalhadamente e sem moderação aquilo que está em voga. Não é só para bancar o diferente, mas é que também preciso de tempo para degustar aquilo que mal tem sido mastigado pela maioria - ou talvez eu é que seja lerdo para enxergar a genialidade em alguns meros minutos. No fim das contas, vejo aí uma luta constante, como se todos estivessem em corrida desesperada para conseguir provar o último sabor, o mais recente recheio, a nova cobertura - o que nos remete, uma vez mais, ao ponto ideal do que tange à aceleração, às trocas de marcha e a velocidade maior a ser atingida. Dessa corrida, contudo, não participo. Percebo hoje que toda obra precisa de um tempo para ser ponderada.
Texto de sugestão: O que é o contemporâneo? (Giorgio Agamben)
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