18/04/2012

A cidade que se fecha ao nosso redor

Alguém algum dia me soltou a indireta: "essa galera que vem de outras cidades se fecha muito na dela". Era uma referência disfarçada à alteridade, ao estrangeirismo, ao vir de fora, mas sem xenofobia, apenas com alguma desconfiança e bastante umbiguismo, como se quem chega, chegasse apenas para consumir e ir embora. Esse alguém esqueceu, contudo, que de colonialismos já estamos fartos. Se não quer ser explorado, que lute, não se renda. E que se lembre de que boa parte do mundo contemporâneo é resultado de imperialismos diversos - sua cultura incluso.

Pessoas assim se esquecem, na verdade, acima de tudo, que vivemos um tempo de conexões. Não é para viver sem fronteiras que reza o slogan? Por que não vivê-la? De mais a mais, quem deseja se manter isolado geográfica e temporalmente, que derrube as pontes e construa muralhas ao seu redor. Se a solução é separar, esquartejar, matar a mobilidade e a fluidez, então que façamos isso - mas aviso, num tom esperançoso e já certeiro do que virá, que nunca conseguiremos tal feito. Nossa história é uma história de movimento, não de sedentarismo. Querem voltar a ser feudos? Bem, talvez nunca tenhamos deixado de sê-lo. Mas mesmo as fortalezas precisam de portões que as conecte com o mundo lá fora.

Morar em Salvador sempre me impeliu fortemente a não sair de casa. Não que seja uma cidade culturalmente pobre, muito pelo contrário. Mas vários fatores me mantêm preso em minha residência - além da minha sincera predileção de curtir o lar. Há muito que ver, entretanto, e não gostaria de perder tanto tempo. Muito o que experimentar, muito a conhecer, muito a caminhar. Mas a cidade não me convida em quase nada e ainda me afasta dela mesma - são polos diferentes porém complementares: a falta de convite antecede o pontapé que rechaça. Isso, de fato, é a cidade ou são as pessoas, o que em certa medida tanto faz, porque a primeira é constituída por essas últimas, além de formatar os modos de vivência que não só testemunhamos mas pelos quais passamos. E a negação se dá pelos mais diversos motivos: por sempre ser tratado como turista (branco e virtualmente paulista e endinheirado, vale ressaltar), pelo altíssimo custo de vida, pelos terríveis índices de violência, pela extrema dificuldade de andar pelas ruas, pelas distâncias desanimadoras, pelo trânsito infernal e por um ethos impenetrável e incompreensível, dentre outros motivos, claro. Definitivamente, por mais bela, diversa e repleta de história que possa ser, Salvador não é uma cidade convidativa a se viver, mas somente a se conhecer. Talvez por isso mesmo, e ironicamente, é facilmente vendida como prato feito para os turistas - e nem tinha como não ser.

Pensei, pensei bastante no que me foi indiretamente dito. E cada vez mais me certifico: não tenho capacidade para me entranhar em certas estruturas, em certos locais, em certas culturas. Mea culpa, sou capaz de reconhecer. E tal se aplica facilmente a Salvador. Mas reconhecer as próprias falhas, penso que ser unanimidade, é um exercício fácil a quem é pouco orgulhoso. E cada vez também fico mais certo que a alteridade é riquíssima, mas ela mesma é perenemente repelida por um ufanismo hiperlocalizado bobo e sem motivo de ser (o que muito se vê por aqui) - orgulho tal que se configura quase como um engodo cultural e que parece cegar instantaneamente, no momento de nascimento, os cidadãos locais para os problemas que o cercam. O discurso reinante que dá forma (ou é formado, não sei) por esse bairrismo desmedido diz mais ou menos o seguinte: "nós temos problemas, sim, mas a Bahia é linda, e se não gosta, se pique daqui, vá, vá".

Dito de outra forma, me pergunto quase com certeza da resposta: somos nós que nos fechamos às cidades ou elas que nos impelem a um fechamento particularizado - sendo o mesmo válido para o oposto, para uma abertura? Sinceramente, talvez seja uma pergunta que não mereça resposta alguma. Uma retórica só para se pensar. Isso, claro, se o orgulho besta de estar cultural e geograficamente situado permitir.

Um comentário:

  1. É a tal da baianidade, meu rei... Olha, posso estar totalmente sugestionada pela convivência particular que tenho com você, mas concordo que sinto a cidade se fechar. Salvador é antropologicamente ultra-mega-hiper interessante, mas dá para fazer um estudo por poucos meses e cair fora sem tanta dor na partida, porque é uma cidade que não nos abraça já que está aguerridamente abraçada a ela mesma.

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