14/04/2012

Vinte a cada apartamento e vinte apartamentos por andar

No show do 4 Cabeça, um dos músicos ia falar algo sobre Copacabana, o bairro carioca que, óbvio, serviu de inspiração para a música homônima do grupo. Ainda no comecinho da sua explanação, um colega seu solta a piadinha:
- Começou mal, hein?

Em outro momento bem anterior, Pedro Bial, o filósofo que cobriu a Queda do Muro de Berlim, dizia no seu BBB, num tom mais ou menos disfarçadamente - mas nem tanto - de desqualificação:
- O problema de Copacabana é que ali tem muito de tudo.

Para quem é de fora, é impossível conceber que Copacabana seja um bairro rechaçado e estigmatizado pelos próprios cariocas. Quem vive longe do suposto glamour de suas calçadas com ondinhas blanche et noir simplesmente não pode perceber os pontapés que recebem corredores culturalmente riquíssimos como Nossa Senhora de Copacabana e Barata Ribeiro. Mesmo que as novelas globais mostrem o Leblon ou o Jardim Botânico como os lugares áureos do Rio, reside ainda um enorme peso de luxo sobre Copa. Ter conhecidos morando lá é motivo de admiração, espanto, inveja, exclamações. Uau!, é o que aparece nas testas de pessoas várias.

Copacabana é um bairro misto. De fato, pensando bem, deve haver poucos como esse. É possível encontrar tudo por lá. Como diz a música, tem camelô, prostituta, turista, mendigo, coco na areia e cocô no mar. É um espaço amplamente usado por gringos, seus dólares e euros, mas também vivamente por moradores locais. Há restaurantes e barzinhos caros, prontos para o consumo sem freios de chopps e de entretenimento commodity. Mas há também uns e outros lugares próprios para quem é dali, mora ali, conhece aquilo ali. Há lojas de ferragens, de produtos para o lar, shoppings, supermercados, bancos, botecos fuleiros, serviços de água e gás, McDonalds e Bob's, sorvetes de iogurte, metrô, madames e cadelas em exposição. Há um mundo inteiro pulsando em Copacabana. Para conhecê-lo, basta adentrar em suas artérias. Num movimento canastrão e até covarde, porém, uns e outros buscam retirar qualquer traço de boa classificação dali. Algo como "Copacabana não é lugar de classe".

Não entendo exatamente o que se busca pelo (de)morar ou mesmo pelo entreter-se. O que é qualidade de vida? Morar no alto de uma colina (porque morro é coisa de pobre) separado do nível do mar? Ter de usar carro particular para ir ao ou voltar do trabalho? Não ter figuras bizarras porém curiosas na portaria do seu edifício? Ou é simplesmente ter o poder para migrar ao modo de gafanhotos, sempre em busca da próxima melhor plantação para extrair os substratos simbólicos essenciais e deixar o resto todo arrasado para os demais?

Copacabana, no fim de semana...

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