26/09/2010

1002 - Aeroporto / Campo Grande

A rota do ônibus 1002 - Aeroporto / Campo Grande:
  1. Você já tem o desprazer de estar no aeroporto mais longínquo do mundo, segundo minhas próprias considerações, e ainda esperar acabar a interminável folga da dupla dinâmica motorista/cobrador.
  2. Sai do aeroporto e avista a construção do shopping mais megalomaníaco de Salvador, o Salvador Norte. Uma típica disputa de machos: "o meu é maior".
  3. Entra no bairro mais gozado da cidade, o Jardim das Margaridas, e dá mil voltas nas ruas com nomes estrambóticos: Rua das Violetas Roxas, Rua das Rosas Vermelhas, Rua das Tulipas Amarelas...
  4. Reza uma missa inteira e não sai de lá.
  5. Quando sai, volta a ver a construção do maior shopping do mundo. Do mundo não, aliás: da Bahia!
  6. Entra no ônibus um baleiro devidamente cadastrado e autorizado. Mas se não fosse, entraria do mesmo jeito.
  7. Alguém grita "baêa" para outrém no meio da rua.
  8. Aparece algum maluco, doido de pedra mesmo, literalmente, e começa a falar coisa com coisa, por vezes sozinho, ou com seu amigo imaginário.
  9. Se não é um maluco que sobe, é uma senhora religiosa que passa a viagem toda cantando mais alto que o ronco do motor. Doida também, enfim.
  10. Daí você conhece a famigerada praia de Itapuã - que só é bonita mesmo nas letras das músicas. "Passar uma tarde em Itapuã... Ser assaltado em Itapuã..."
  11. Continua pela orla durante mil anos, avista favelas, barracos, bairros suntuosos e casarões e fica morto de alegre por não haver nenhuma desigualdade social em Salvador.
  12. Entra outro baleiro, dessa vez com uma promoção imperdível: 2 por 20 centavos, 4 por 1 real.
  13. Basta este baleiro sair que entra outro algumas paradas à frente. Também com uma promoção imperdível, claro.
  14. Alguém sobe no ônibus mas não era aquele que deveria pegar. Geralmente esse alguém sou eu.
  15. Entra uma galera que mais parece ter nascido no Bronx - até porque se chamam de brown. Mas você sabe que são baianos porque falam uma língua incompreensível, algumas coisas como "niún-a". E gritam "baêa", claro.
  16. Passa pela Amaralina e nem imagina as balas perdidas que passam à sua direita, no Nordeste...
  17. Chega ao Rio Vermelho e conhece o maravilhoso engarrafamento do Red River. Há tempo suficiente para entrarem mais 10 baleiros, cada qual com um merchã e uma promoção inigualáveis.
  18. Finalmente começa a entrar na Federação. E você começa a ter sérias dúvidas se o busão vai ter força para subir aquelas ladeiras...
  19. Olha para a direita e aí entende por que Federação e Engenho Velho da Federação não são a mesma coisa.
  20. Finalmente é hora de descer. Ufa.
Agora o carro segue para Campo Santo, Campo Grande, volta pela Barra, Ondina, Rio Vermelho, Pituba... E mais outros 10 baleiros entrarão, mais 10 outras promoções surgirão, mais outros 10 loucos de pedra sozinhos falarão.

01/09/2010

Leitura obrigatória

O livro de [Fulano / Sicrana] é uma leitura obrigatória para quem [deseja isto / trabalha com aquilo].

De uma enrolação e enchimento de linguiça sem fim. De um não saber o quê escrever. De um não entender o texto em sua base e taxá-lo com uma estrelinha must read. Exatamente na contramão da coragem de dizer "não li, não vou ler".

Se há uma fórmula matemática para determinar qualidade de leitura e resenha, a junção das palavras leitura e obrigatória entra como uma variável negativa com peso 2 no cálculo final.

Fiquem com os best-sellers que eu fico com os malditos.

22/08/2010

Eu não sou daqui

Eu não sou daqui
Eu não tenho amor
Eu sou da Bahia
De São Salvador

Não gosto da pieguice caetânica dessa música. Mas ironicamente ela me veio à mente dia desses ao dizer pela enésima vez que eu não sou daqui. Neste caso, o primeiro verso da canção não serviu para situar localizações, origens citadinas, mas para indicar origens de estudo. Já serve então para dizer muito, inclusive para questionar origens e destinos.

Se não és daqui, para onde segues, aonde vais?

07/08/2010

O macho cearense

 Existe uma lógica impeditiva quanto à polidez, ao modo de tratamento interpessoal. Há os brutos, ríspidos, mal-criados,para quem desejar bom dia, ainda que da boca pra fora, é coisa a se suspeitar: suspeita-se que seu interlocutor seja fresquinho, mauricinho, granfino ou até viado – escrito com I mesmo por toda carga representativa que essa grafia traz consigo. Falta gentileza, sobra brutalidade.

Vai pra onde? É assim que me trata o porteiro a fim de exercer poder, na entrada de um prédio comercial não tão chique na Desembargador Moreira. Fica no seio da Aldeota, palco da nobreza fortalezense, um palco talvez já nem tão nobre assim, já meio decadente, prestes a perder a cabeça na guilhotina. Não cabem no vocabulário desse porteiro um boa tarde ou com licença antes da indagação cortante. Muito menos depois. E como réplica à minha resposta - “vou à Dra. Fulana” - outras palavras secas dizendo o número da sala e o andar.

Porra, eu não perguntei nada. É muita vontade de poder, né?

Em conversa com amigos, definimos que esse é o “macho cearense”. Não sei se é uma espécie, gênero, família, classe, mas ao menos é uma categoria que engloba variações. O macho cearense se encontra em diversas situações, e independe completamente de instrução: vai do porteiro dito cujo ao empresário bem sucedido, do mal letrado ao doutô. Esse tipo de macho – a exemplo do macho alfa – não dá lugar a delicadezas, a sutilezas, a baitolagens, enfim, no seu dizer: a testosterona impede. Bom tratamento, se podemos falar assim, só para gostosas com jeitão de piriguete – seja a mundiça que anda na 55, seja a dondoca que anda de Audi. E ignorá-los – como tentei fazer com o porteiro-ditador – é um perigo: quanto mais se veem transparentes, mas buscam se tornar parrudos e chamar atenção.

Começo a desejar um desejar um mundo plenamente cor-de-rosa – ou arco-íris – se houver na opção sexual alguma correlação com o modo de tratar os outros. E quem é macho e/ou cearense e se sente ofendido com a tipologia acima, a saída não é tacar pedras e patadas: defendam a classe espalhando gentileza por aí afora. Quem sabe o mundo não dá um retorno na forma de crucifixo?

28/07/2010

O caminho da escrita

Escrever pressupõe ler. Ou a escrita sucede a leitura. E levo isso tão ao pé da letra que cada parágrafo escrito é fruto de um tortuoso parto - este, um recorrente caminho de ir e vir. Vou, mas volto sempre, às vezes mais que o necessário, às vezes desenfreado, vetor negativo, e cada coisa escrita é relida tantas vezes que toca a perda de sentido - como aquela palavra tão repetida e repetida e repetida a ponto de quase esmaecer em sua significação.

Para cada coisa escrita, dezenas de leituras, camadas de palavras amontoadas, versões rasuradas, frases dignas de citação não finalizadas. Tem alguém que releia tanto quanto eu?

31/05/2010

Tecnologia invisível

A tecnologia some no nosso dia-a-dia. Só nos damos conta de sua importância quando ela nos falta. É mais ou menos isso que tenho lido ultimamente, e é muito disso que tenho vivido. Durante uns 2 meses, nunca um espelho de verdade fez tanta falta. Nessa situação, barba e cabelo são incógnitas. A própria identidade o é para quem não tem como se ver - e que essa compreensão possa ser extendida para além da visão de fato.

25/05/2010

Too too too much information

Baixo mais músicas do que posso ouvir, quero mais livros do que posso ler, baixo mais filmes do que posso assistir, assino mais feeds do que posso acompanhar.

Ainda bem que nem de séries eu gosto.

24/05/2010

Comendo com os olhos

 Sem falsas modéstias, posso garantir que a foto está mais suculenta que o real.

20/05/2010

Sobre os lugares

Apesar de a comunicação cada vez mais atravessar os espaços por meio das tecnologias da comunicação e informação, o lugar se mantém como uma importante variável em toda comunicação, e reciprocamente todo lugar é constituído por tipos particulares de comunicação.(Paul C. Adams, Geographies of media and Communication)

Nunca pensei tanto sobre lugar e espaço - na pele, inclusive.

18/05/2010

Artifactuality

In artifactuality, Derrida reminds us that no matter how singular, irreducible, and stubborn the reality is, it always comes to us by way of television’s fictional fashioning. “Live” is not na absolute “live”, but only a live effect, an allegation of “live”.
Esteja dito.