Jamais fomos modernos porque jamais nos purificamos. Embora tenhamos aceito o projeto de separação entre o que é humano e o que não é - eis a purificação -, não carregamos a modernidade em nossas veias porque nunca realmente nos apartamos das coisas que são a-humanas. E sempre precisamos delas para que nos fizéssemos sempre mais e mais humanos. Ou híbridos. E a modernidade assim se criou e criou também as condições para sua própria morte.
É por aí que corre a defesa de Latour em seu famoso Ensaio de Antropologia Simétrica. Mas deixemos esse ponto um pouco de lado e pensemos sobre o uso gramatical de hífens(-) e barras(/), porque há algo de profundo que não nos é explicado nas aulas língua portuguesa.
A barra, essencialmente, separa. Assim como nos sitemas e nos sites, quando tem a serventia de demarcar limites entre diretórios e subdiretórios. Ou nas opções que precisamos fazer entre isso/aquilo. Uma coisa, quando o pensamento é separatório, dualista, só é uma coisa/outra coisa, comunista/capitalista, amor/sexo, diabo/deus. Barra é ou. Não há lugar para adição ou interseção.
Já o hífen é uma ponte, um elo entre duas instâncias. Mas não apenas une como também transforma o que é unido. Heidegger argumenta que a ponte une, mas John Urry vai além: um novo elemento muda tudo. Não se trata mais de lado A, lado B, duas zonas separadas e agora unidas ou margens distintas de um mesmo rio. A ponte, ao acoplar os lados, transforma-os imediatamente, e novas práticas vão se formado sobre e ao redor dela. Trata-se de um híbrido margem-ponte-margem, com um rio a fazer parte dele também.
Por esse caminho corre o hífen, com o poder somatório-multiplicador: não é mais uma coisa nem outra, mas ambas. Perfeito como nossa gramática soube compreender bem o poder desse tracinho: já não temos mais nem erva nem doce, nem guarda nem volumes, nem salva nem vidas, nem zaz nem traz. Também não são mais duas coisas, mas uma única forjada por, quem sabe, uma atração singular entre as coisas. Uma espécie de matrimônio perfeito, uma bênção mais poderosa que a da aliança. Não é que haja infinito: talvez possamos cindir os elos, talvez mesmo as coisas possam pedir divórcio. Mas, se estão juntos, é porque em algum momento estiveram distantes e se atraíram? Então eram virtualmente colados? Como dissociar objetos que, portanto, nunca estiveram apartados?
27/03/2011
22/03/2011
Axioma 1: em dados momentos, não estamos preparados para certos livros. Não adianta lê-los, a não ser puramente para gastar, ou investir, quase inutilmente nosso tempo. Se o texto não nos serve nem de base, a culpa é toda nossa, a quem falta a base de fato para sustentá-lo, justamente nós que não conseguimos deslocar e realocar pesados blocos de pensamento, e não da obra em si ou do autor, que tão bem conseguiu criá-la com uma leveza intocável e desconcertante.
Axioma 2: os objetos nos escolhem. Uma metáfora florida para dizer aquilo que nos é custoso: que temos escolhas a fazer. E durante tais escolhas, as visões são turvas, vêm aos poucos, e talvez sempre esperemos o momento mágico da epifania: é isso! Mas pode ser que seja isso mesmo, uma galhofa entre atenção seletiva e dissonância cognitiva, um querer-não-querer desgraçado, uma agonia e uma recorrência das coisas. Há uma vida e uma vontade própria nesses objetos - ou quase-objetos - que os faz sempre acenar, mandar gracejos, reaparecer, justamente quando inesperados.
Axioma 3: tudo está conectado (ou nada é por acaso). E então chega um dado momento em que voltamos àquele livro, ou é ele que retorna por vontade própria, e aí surge então uma nova oportunidade de recomeçar. Pode ser que, dessa vez, já estejamos prontos, já que julgamos termos passado por outros nós da rede, ou mesmo que eles, também por próprio querer, é que tenham passado por nós.
Axioma 2: os objetos nos escolhem. Uma metáfora florida para dizer aquilo que nos é custoso: que temos escolhas a fazer. E durante tais escolhas, as visões são turvas, vêm aos poucos, e talvez sempre esperemos o momento mágico da epifania: é isso! Mas pode ser que seja isso mesmo, uma galhofa entre atenção seletiva e dissonância cognitiva, um querer-não-querer desgraçado, uma agonia e uma recorrência das coisas. Há uma vida e uma vontade própria nesses objetos - ou quase-objetos - que os faz sempre acenar, mandar gracejos, reaparecer, justamente quando inesperados.
Axioma 3: tudo está conectado (ou nada é por acaso). E então chega um dado momento em que voltamos àquele livro, ou é ele que retorna por vontade própria, e aí surge então uma nova oportunidade de recomeçar. Pode ser que, dessa vez, já estejamos prontos, já que julgamos termos passado por outros nós da rede, ou mesmo que eles, também por próprio querer, é que tenham passado por nós.
26/11/2010
Lobo solitário
Não é à toa que tenho altas tendências antissociais. O pior do mundo é a humanidade, e nem mesmo é preciso chegar aos crimes e adjacentes: basta pensarmos nas amizades e relações cotidianas, em quão são difíceis de serem mantidas, gerenciadas, equilibradas. Basicamente, a existência do ser humano é plena de conflitos - por vezes até o eu consigo mesmo - e resolvê-los não é bem aquilo que buscamos: corremos apenas atrás da satisfação íntima e pessoal. Por esse lado, então, talvez o eremita seja o mais egoísta de todos, uma vez que não precisa ir de encontro a ninguém. Por outro lado, talvez não, já que se abstém do gozo de vencer aos demais, limitando-se à derrota-vitória da eterna solidão.
Pessoas... por que nós existimos?
Pessoas... por que nós existimos?
26/09/2010
1002 - Aeroporto / Campo Grande
A rota do ônibus 1002 - Aeroporto / Campo Grande:
- Você já tem o desprazer de estar no aeroporto mais longínquo do mundo, segundo minhas próprias considerações, e ainda esperar acabar a interminável folga da dupla dinâmica motorista/cobrador.
- Sai do aeroporto e avista a construção do shopping mais megalomaníaco de Salvador, o Salvador Norte. Uma típica disputa de machos: "o meu é maior".
- Entra no bairro mais gozado da cidade, o Jardim das Margaridas, e dá mil voltas nas ruas com nomes estrambóticos: Rua das Violetas Roxas, Rua das Rosas Vermelhas, Rua das Tulipas Amarelas...
- Reza uma missa inteira e não sai de lá.
- Quando sai, volta a ver a construção do maior shopping do mundo. Do mundo não, aliás: da Bahia!
- Entra no ônibus um baleiro devidamente cadastrado e autorizado. Mas se não fosse, entraria do mesmo jeito.
- Alguém grita "baêa" para outrém no meio da rua.
- Aparece algum maluco, doido de pedra mesmo, literalmente, e começa a falar coisa com coisa, por vezes sozinho, ou com seu amigo imaginário.
- Se não é um maluco que sobe, é uma senhora religiosa que passa a viagem toda cantando mais alto que o ronco do motor. Doida também, enfim.
- Daí você conhece a famigerada praia de Itapuã - que só é bonita mesmo nas letras das músicas. "Passar uma tarde em Itapuã... Ser assaltado em Itapuã..."
- Continua pela orla durante mil anos, avista favelas, barracos, bairros suntuosos e casarões e fica morto de alegre por não haver nenhuma desigualdade social em Salvador.
- Entra outro baleiro, dessa vez com uma promoção imperdível: 2 por 20 centavos, 4 por 1 real.
- Basta este baleiro sair que entra outro algumas paradas à frente. Também com uma promoção imperdível, claro.
- Alguém sobe no ônibus mas não era aquele que deveria pegar. Geralmente esse alguém sou eu.
- Entra uma galera que mais parece ter nascido no Bronx - até porque se chamam de brown. Mas você sabe que são baianos porque falam uma língua incompreensível, algumas coisas como "niún-a". E gritam "baêa", claro.
- Passa pela Amaralina e nem imagina as balas perdidas que passam à sua direita, no Nordeste...
- Chega ao Rio Vermelho e conhece o maravilhoso engarrafamento do Red River. Há tempo suficiente para entrarem mais 10 baleiros, cada qual com um merchã e uma promoção inigualáveis.
- Finalmente começa a entrar na Federação. E você começa a ter sérias dúvidas se o busão vai ter força para subir aquelas ladeiras...
- Olha para a direita e aí entende por que Federação e Engenho Velho da Federação não são a mesma coisa.
- Finalmente é hora de descer. Ufa.
01/09/2010
Leitura obrigatória
O livro de [Fulano / Sicrana] é uma leitura obrigatória para quem [deseja isto / trabalha com aquilo].
De uma enrolação e enchimento de linguiça sem fim. De um não saber o quê escrever. De um não entender o texto em sua base e taxá-lo com uma estrelinha must read. Exatamente na contramão da coragem de dizer "não li, não vou ler".
Se há uma fórmula matemática para determinar qualidade de leitura e resenha, a junção das palavras leitura e obrigatória entra como uma variável negativa com peso 2 no cálculo final.
Fiquem com os best-sellers que eu fico com os malditos.
22/08/2010
Eu não sou daqui
Eu não sou daqui
Eu não tenho amor
Eu sou da Bahia
De São Salvador
Não gosto da pieguice caetânica dessa música. Mas ironicamente ela me veio à mente dia desses ao dizer pela enésima vez que eu não sou daqui. Neste caso, o primeiro verso da canção não serviu para situar localizações, origens citadinas, mas para indicar origens de estudo. Já serve então para dizer muito, inclusive para questionar origens e destinos.
Se não és daqui, para onde segues, aonde vais?
Eu não tenho amor
Eu sou da Bahia
De São Salvador
Não gosto da pieguice caetânica dessa música. Mas ironicamente ela me veio à mente dia desses ao dizer pela enésima vez que eu não sou daqui. Neste caso, o primeiro verso da canção não serviu para situar localizações, origens citadinas, mas para indicar origens de estudo. Já serve então para dizer muito, inclusive para questionar origens e destinos.
Se não és daqui, para onde segues, aonde vais?
07/08/2010
O macho cearense
Existe uma lógica impeditiva quanto à polidez, ao modo de tratamento interpessoal. Há os brutos, ríspidos, mal-criados,para quem desejar bom dia, ainda que da boca pra fora, é coisa a se suspeitar: suspeita-se que seu interlocutor seja fresquinho, mauricinho, granfino ou até viado – escrito com I mesmo por toda carga representativa que essa grafia traz consigo. Falta gentileza, sobra brutalidade.
Vai pra onde? É assim que me trata o porteiro a fim de exercer poder, na entrada de um prédio comercial não tão chique na Desembargador Moreira. Fica no seio da Aldeota, palco da nobreza fortalezense, um palco talvez já nem tão nobre assim, já meio decadente, prestes a perder a cabeça na guilhotina. Não cabem no vocabulário desse porteiro um boa tarde ou com licença antes da indagação cortante. Muito menos depois. E como réplica à minha resposta - “vou à Dra. Fulana” - outras palavras secas dizendo o número da sala e o andar.
Porra, eu não perguntei nada. É muita vontade de poder, né?
Em conversa com amigos, definimos que esse é o “macho cearense”. Não sei se é uma espécie, gênero, família, classe, mas ao menos é uma categoria que engloba variações. O macho cearense se encontra em diversas situações, e independe completamente de instrução: vai do porteiro dito cujo ao empresário bem sucedido, do mal letrado ao doutô. Esse tipo de macho – a exemplo do macho alfa – não dá lugar a delicadezas, a sutilezas, a baitolagens, enfim, no seu dizer: a testosterona impede. Bom tratamento, se podemos falar assim, só para gostosas com jeitão de piriguete – seja a mundiça que anda na 55, seja a dondoca que anda de Audi. E ignorá-los – como tentei fazer com o porteiro-ditador – é um perigo: quanto mais se veem transparentes, mas buscam se tornar parrudos e chamar atenção.
Começo a desejar um desejar um mundo plenamente cor-de-rosa – ou arco-íris – se houver na opção sexual alguma correlação com o modo de tratar os outros. E quem é macho e/ou cearense e se sente ofendido com a tipologia acima, a saída não é tacar pedras e patadas: defendam a classe espalhando gentileza por aí afora. Quem sabe o mundo não dá um retorno na forma de crucifixo?
Vai pra onde? É assim que me trata o porteiro a fim de exercer poder, na entrada de um prédio comercial não tão chique na Desembargador Moreira. Fica no seio da Aldeota, palco da nobreza fortalezense, um palco talvez já nem tão nobre assim, já meio decadente, prestes a perder a cabeça na guilhotina. Não cabem no vocabulário desse porteiro um boa tarde ou com licença antes da indagação cortante. Muito menos depois. E como réplica à minha resposta - “vou à Dra. Fulana” - outras palavras secas dizendo o número da sala e o andar.
Porra, eu não perguntei nada. É muita vontade de poder, né?
Em conversa com amigos, definimos que esse é o “macho cearense”. Não sei se é uma espécie, gênero, família, classe, mas ao menos é uma categoria que engloba variações. O macho cearense se encontra em diversas situações, e independe completamente de instrução: vai do porteiro dito cujo ao empresário bem sucedido, do mal letrado ao doutô. Esse tipo de macho – a exemplo do macho alfa – não dá lugar a delicadezas, a sutilezas, a baitolagens, enfim, no seu dizer: a testosterona impede. Bom tratamento, se podemos falar assim, só para gostosas com jeitão de piriguete – seja a mundiça que anda na 55, seja a dondoca que anda de Audi. E ignorá-los – como tentei fazer com o porteiro-ditador – é um perigo: quanto mais se veem transparentes, mas buscam se tornar parrudos e chamar atenção.
Começo a desejar um desejar um mundo plenamente cor-de-rosa – ou arco-íris – se houver na opção sexual alguma correlação com o modo de tratar os outros. E quem é macho e/ou cearense e se sente ofendido com a tipologia acima, a saída não é tacar pedras e patadas: defendam a classe espalhando gentileza por aí afora. Quem sabe o mundo não dá um retorno na forma de crucifixo?
28/07/2010
O caminho da escrita
Escrever pressupõe ler. Ou a escrita sucede a leitura. E levo isso tão ao pé da letra que cada parágrafo escrito é fruto de um tortuoso parto - este, um recorrente caminho de ir e vir. Vou, mas volto sempre, às vezes mais que o necessário, às vezes desenfreado, vetor negativo, e cada coisa escrita é relida tantas vezes que toca a perda de sentido - como aquela palavra tão repetida e repetida e repetida a ponto de quase esmaecer em sua significação.
Para cada coisa escrita, dezenas de leituras, camadas de palavras amontoadas, versões rasuradas, frases dignas de citação não finalizadas. Tem alguém que releia tanto quanto eu?
Para cada coisa escrita, dezenas de leituras, camadas de palavras amontoadas, versões rasuradas, frases dignas de citação não finalizadas. Tem alguém que releia tanto quanto eu?
31/05/2010
Tecnologia invisível
A tecnologia some no nosso dia-a-dia. Só nos damos conta de sua importância quando ela nos falta. É mais ou menos isso que tenho lido ultimamente, e é muito disso que tenho vivido. Durante uns 2 meses, nunca um espelho de verdade fez tanta falta. Nessa situação, barba e cabelo são incógnitas. A própria identidade o é para quem não tem como se ver - e que essa compreensão possa ser extendida para além da visão de fato.
25/05/2010
Too too too much information
Baixo mais músicas do que posso ouvir, quero mais livros do que posso ler, baixo mais filmes do que posso assistir, assino mais feeds do que posso acompanhar.
Ainda bem que nem de séries eu gosto.
Ainda bem que nem de séries eu gosto.
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