26/11/2010

Lobo solitário

Não é à toa que tenho altas tendências antissociais. O pior do mundo é a humanidade, e nem mesmo é preciso chegar aos crimes e adjacentes: basta pensarmos nas amizades e relações cotidianas, em quão são difíceis de serem mantidas, gerenciadas, equilibradas. Basicamente, a existência do ser humano é plena de conflitos - por vezes até o eu consigo mesmo - e resolvê-los não é bem aquilo que buscamos: corremos apenas atrás da satisfação íntima e pessoal. Por esse lado, então, talvez o eremita seja o mais egoísta de todos, uma vez que não precisa ir de encontro a ninguém. Por outro lado, talvez não, já que se abstém do gozo de vencer aos demais, limitando-se à derrota-vitória da eterna solidão.

Pessoas... por que nós existimos?

26/09/2010

1002 - Aeroporto / Campo Grande

A rota do ônibus 1002 - Aeroporto / Campo Grande:
  1. Você já tem o desprazer de estar no aeroporto mais longínquo do mundo, segundo minhas próprias considerações, e ainda esperar acabar a interminável folga da dupla dinâmica motorista/cobrador.
  2. Sai do aeroporto e avista a construção do shopping mais megalomaníaco de Salvador, o Salvador Norte. Uma típica disputa de machos: "o meu é maior".
  3. Entra no bairro mais gozado da cidade, o Jardim das Margaridas, e dá mil voltas nas ruas com nomes estrambóticos: Rua das Violetas Roxas, Rua das Rosas Vermelhas, Rua das Tulipas Amarelas...
  4. Reza uma missa inteira e não sai de lá.
  5. Quando sai, volta a ver a construção do maior shopping do mundo. Do mundo não, aliás: da Bahia!
  6. Entra no ônibus um baleiro devidamente cadastrado e autorizado. Mas se não fosse, entraria do mesmo jeito.
  7. Alguém grita "baêa" para outrém no meio da rua.
  8. Aparece algum maluco, doido de pedra mesmo, literalmente, e começa a falar coisa com coisa, por vezes sozinho, ou com seu amigo imaginário.
  9. Se não é um maluco que sobe, é uma senhora religiosa que passa a viagem toda cantando mais alto que o ronco do motor. Doida também, enfim.
  10. Daí você conhece a famigerada praia de Itapuã - que só é bonita mesmo nas letras das músicas. "Passar uma tarde em Itapuã... Ser assaltado em Itapuã..."
  11. Continua pela orla durante mil anos, avista favelas, barracos, bairros suntuosos e casarões e fica morto de alegre por não haver nenhuma desigualdade social em Salvador.
  12. Entra outro baleiro, dessa vez com uma promoção imperdível: 2 por 20 centavos, 4 por 1 real.
  13. Basta este baleiro sair que entra outro algumas paradas à frente. Também com uma promoção imperdível, claro.
  14. Alguém sobe no ônibus mas não era aquele que deveria pegar. Geralmente esse alguém sou eu.
  15. Entra uma galera que mais parece ter nascido no Bronx - até porque se chamam de brown. Mas você sabe que são baianos porque falam uma língua incompreensível, algumas coisas como "niún-a". E gritam "baêa", claro.
  16. Passa pela Amaralina e nem imagina as balas perdidas que passam à sua direita, no Nordeste...
  17. Chega ao Rio Vermelho e conhece o maravilhoso engarrafamento do Red River. Há tempo suficiente para entrarem mais 10 baleiros, cada qual com um merchã e uma promoção inigualáveis.
  18. Finalmente começa a entrar na Federação. E você começa a ter sérias dúvidas se o busão vai ter força para subir aquelas ladeiras...
  19. Olha para a direita e aí entende por que Federação e Engenho Velho da Federação não são a mesma coisa.
  20. Finalmente é hora de descer. Ufa.
Agora o carro segue para Campo Santo, Campo Grande, volta pela Barra, Ondina, Rio Vermelho, Pituba... E mais outros 10 baleiros entrarão, mais 10 outras promoções surgirão, mais outros 10 loucos de pedra sozinhos falarão.

01/09/2010

Leitura obrigatória

O livro de [Fulano / Sicrana] é uma leitura obrigatória para quem [deseja isto / trabalha com aquilo].

De uma enrolação e enchimento de linguiça sem fim. De um não saber o quê escrever. De um não entender o texto em sua base e taxá-lo com uma estrelinha must read. Exatamente na contramão da coragem de dizer "não li, não vou ler".

Se há uma fórmula matemática para determinar qualidade de leitura e resenha, a junção das palavras leitura e obrigatória entra como uma variável negativa com peso 2 no cálculo final.

Fiquem com os best-sellers que eu fico com os malditos.

22/08/2010

Eu não sou daqui

Eu não sou daqui
Eu não tenho amor
Eu sou da Bahia
De São Salvador

Não gosto da pieguice caetânica dessa música. Mas ironicamente ela me veio à mente dia desses ao dizer pela enésima vez que eu não sou daqui. Neste caso, o primeiro verso da canção não serviu para situar localizações, origens citadinas, mas para indicar origens de estudo. Já serve então para dizer muito, inclusive para questionar origens e destinos.

Se não és daqui, para onde segues, aonde vais?

07/08/2010

O macho cearense

 Existe uma lógica impeditiva quanto à polidez, ao modo de tratamento interpessoal. Há os brutos, ríspidos, mal-criados,para quem desejar bom dia, ainda que da boca pra fora, é coisa a se suspeitar: suspeita-se que seu interlocutor seja fresquinho, mauricinho, granfino ou até viado – escrito com I mesmo por toda carga representativa que essa grafia traz consigo. Falta gentileza, sobra brutalidade.

Vai pra onde? É assim que me trata o porteiro a fim de exercer poder, na entrada de um prédio comercial não tão chique na Desembargador Moreira. Fica no seio da Aldeota, palco da nobreza fortalezense, um palco talvez já nem tão nobre assim, já meio decadente, prestes a perder a cabeça na guilhotina. Não cabem no vocabulário desse porteiro um boa tarde ou com licença antes da indagação cortante. Muito menos depois. E como réplica à minha resposta - “vou à Dra. Fulana” - outras palavras secas dizendo o número da sala e o andar.

Porra, eu não perguntei nada. É muita vontade de poder, né?

Em conversa com amigos, definimos que esse é o “macho cearense”. Não sei se é uma espécie, gênero, família, classe, mas ao menos é uma categoria que engloba variações. O macho cearense se encontra em diversas situações, e independe completamente de instrução: vai do porteiro dito cujo ao empresário bem sucedido, do mal letrado ao doutô. Esse tipo de macho – a exemplo do macho alfa – não dá lugar a delicadezas, a sutilezas, a baitolagens, enfim, no seu dizer: a testosterona impede. Bom tratamento, se podemos falar assim, só para gostosas com jeitão de piriguete – seja a mundiça que anda na 55, seja a dondoca que anda de Audi. E ignorá-los – como tentei fazer com o porteiro-ditador – é um perigo: quanto mais se veem transparentes, mas buscam se tornar parrudos e chamar atenção.

Começo a desejar um desejar um mundo plenamente cor-de-rosa – ou arco-íris – se houver na opção sexual alguma correlação com o modo de tratar os outros. E quem é macho e/ou cearense e se sente ofendido com a tipologia acima, a saída não é tacar pedras e patadas: defendam a classe espalhando gentileza por aí afora. Quem sabe o mundo não dá um retorno na forma de crucifixo?

28/07/2010

O caminho da escrita

Escrever pressupõe ler. Ou a escrita sucede a leitura. E levo isso tão ao pé da letra que cada parágrafo escrito é fruto de um tortuoso parto - este, um recorrente caminho de ir e vir. Vou, mas volto sempre, às vezes mais que o necessário, às vezes desenfreado, vetor negativo, e cada coisa escrita é relida tantas vezes que toca a perda de sentido - como aquela palavra tão repetida e repetida e repetida a ponto de quase esmaecer em sua significação.

Para cada coisa escrita, dezenas de leituras, camadas de palavras amontoadas, versões rasuradas, frases dignas de citação não finalizadas. Tem alguém que releia tanto quanto eu?

31/05/2010

Tecnologia invisível

A tecnologia some no nosso dia-a-dia. Só nos damos conta de sua importância quando ela nos falta. É mais ou menos isso que tenho lido ultimamente, e é muito disso que tenho vivido. Durante uns 2 meses, nunca um espelho de verdade fez tanta falta. Nessa situação, barba e cabelo são incógnitas. A própria identidade o é para quem não tem como se ver - e que essa compreensão possa ser extendida para além da visão de fato.

25/05/2010

Too too too much information

Baixo mais músicas do que posso ouvir, quero mais livros do que posso ler, baixo mais filmes do que posso assistir, assino mais feeds do que posso acompanhar.

Ainda bem que nem de séries eu gosto.

24/05/2010

Comendo com os olhos

 Sem falsas modéstias, posso garantir que a foto está mais suculenta que o real.

20/05/2010

Sobre os lugares

Apesar de a comunicação cada vez mais atravessar os espaços por meio das tecnologias da comunicação e informação, o lugar se mantém como uma importante variável em toda comunicação, e reciprocamente todo lugar é constituído por tipos particulares de comunicação.(Paul C. Adams, Geographies of media and Communication)

Nunca pensei tanto sobre lugar e espaço - na pele, inclusive.

18/05/2010

Artifactuality

In artifactuality, Derrida reminds us that no matter how singular, irreducible, and stubborn the reality is, it always comes to us by way of television’s fictional fashioning. “Live” is not na absolute “live”, but only a live effect, an allegation of “live”.
Esteja dito.

17/05/2010

Letargia

Os últimos dias têm sido difíceis, e a dificuldade é só uma: falta de coragem. Pode ser que a famosa preguiça baiana esteja já me atacando, quem sabe... Ou é apenas o tempo por ora frio que me convida para uma soneca. Nos intervalos de uma rotina intensa, mente e corpo pedem descanso, pão, circo, diversão e água. Sei dessa necessidade, mas também das outras tantas, principalmente da obrigação de dar conta de certos textos enfadonhos, às vezes chatos, às vezes difíceis, às vezes os dois.

E às vezes bons, divertidos, instigantes, é claro, mas nem sempre, ou só às vezes.

14/05/2010

Desemprego zero

As loiras gostosonas dos comerciais de cerveja já não mais aparecem nos VTs. Mas que ninguém se preocupe, que emprego não lhes falta. Agora elas são atrativo - ou recheio, vai saber - de revista de tecnologia.

Que ninguém se assuste se a próxima capa da Playboy for um netbook ou um smartphone, por exemplo.

09/05/2010

Lá e de volta outra vez

Toda ida pressupõe uma volta, mesmo que esta não ocorra. E quem volta já não é mais o mesmo. O fato de colocar o pé fora de casa já é uma mudança, e tudo o mais talvez decorra daí, pois cada passo sucede a outro e precede o seguinte. É óbvio, mas precisa ser dito.

Ir é também uma forma de mudar a visão. É uma luz que se lança aos olhos, o que pode clarear a vista ou cegar completamente. De ambas as formas, ao que parece, o que incomoda não é a volta, mas ver que quase tudo aquilo que você deixou pra trás ainda continua mais ou menos inalterado.

A noção de tempo é difere largamente para quem vai e para quem fica.

As ruas que deveriam estar prontas? Não estão. Um metrô lendário? Continua lenda. Apresentadores de TV falando as mesmas bobagens? Continuam falando as mesmas bobagens.

Ter passado um tempo em Salvador só me mostrou como eu gostava de Fortaleza, mas é preciso notar que eu espero mais de minha cidade. Mais de muitas coisas: mais desenvolvimento, mais humanidade, mais diversidade, mais mudanças, mais gentileza... Não dá pra ficar parado. Não dá pra ver a cidade parada também.

07/05/2010

Correr macio

Depois de 3 meses, uma estranheza imensa. Voltar a dirigir um carro é como ter uma extensão no corpo: uma prótese ou um novo pedaço a ter vida e a precisar ser guiado - e não isso que todo veículo pede, de fato?


 De imediato, não se reconhecem seus limites, seus modos, sua aspereza ou sua maciez. Mas é questão de tempo, de conquista. Não vou chegar aos trezentos por hora, mas volto a zunir como um novo sedan.

30/04/2010

Vida no nomadismo

Existe alguma coisa de vívido no nomadismo. Sai daqui, chega acolá. Mudar de lugar cansa, e talvez seja o cansaço o melhor índice de vida. E há algo de mórbido no sedentarismo, como se o conforto e a quietude matassem, como se fosse necessário mudar de tempos em tempos para se continuar vivo.

27/04/2010

Sobre o ir ao Rio e voltar



Imitando a Revista da Gol, mas sem nenhuma vontade de ser entrevistado também:
QUEM Paulo Victor O QUE FAZ Estudo DE ONDE Salvador PARA ONDE Rio de Janeiro POR QUÊ Visitar uma pessoa querida


E dentre tantas páginas a serem escritas e milhas a se percorrer, um desejo de um reencontro urgente.

Se toda ida pressupõe um retorno, ir ao Rio pressupõe voltar para Salvador - e isso é tão óbvio quanto ter a passagem de volta já comprada. E estar fora também pressupõe ausências. E por mais estranho que pareça, Salvador fez falta. Constituiu-se vazio, sim.

Bem poderia dizer que já gosto daqui, mas não sei se já é tempo para tanto. A falta que senti se traduz em termos de familiaridade: sensação de já estar por dentro da cidade, sendo fagocitado, construindo-a e por ela sendo construído também. O Rio de Janeiro é esmagador, assim como Salvador também o é. Mas basta que se acostume um pouco com os calos provocados por cada cidade, e logo até deles se sentem saudades. Assim como estranhei a ausência de ladeiras fanfarronas a nos tirar o fôlego de cada subida...

15/04/2010

Silêncio é de poucos e para poucos. Precisa-se de silêncio, estima-se o silêncio. Cala-se para ouvir, cala-se para refletir.

23/02/2010

Grifo meu em Salvador

Em Salvador, 38º. Calor similar ao da Terra do Sol. Que daqui se faça - ou volte a ser - um ponto de observação. Grifo Meu em Salvador.

02/02/2010

Mudando de roupa

A velha-nova roupa dá lugar a um tom padronizado. Quando voltaremos à nossa programação normal? Boa-noite.