Primeiro de tudo, há que se considerar mais de um tipo de estudante profissional, doravante EP. Identifico pelo menos dois: o primeiro é aquele que tem medo de enfrentar o mundo fora das grades do ambiente de estudo, seja lá qual for. Todos conhecemos pelo menos uma pessoa assim, ora indecisa, ora cheia de certezas, mas que, dentre vários vou ou fico, pulo ou não, acaba se deslocando sempre na horizontalidade. Ou seja, mal termina um curso, começa outro, ao invés de encarar um desafio novo, diferente. Assim se sucede pois o devir é sempre amedontrador, é sempre uma escuridão, e encará-la é assombroso demais quando não se tem uma barra de saia pra puxar ou uma sandália japonesa pra levar nos couros.
Não é desse tipo covarde que desejo falar, entretanto, mas daquele EP cujo trabalho é de fato estudar. Tarefas? Ler, escrever, anotar, fichar, congressar, articular, referenciar, ler mais uma vez e alimentar todo o ciclo vicioso de construção de ficções - só para citar Latour e Woolgar e seu maravilhoso A vida de Laboratório. Essa categoria é aquela recebe dinheiro, ou deveria receber, para somente estudar. E estudar, aqui, significa gastar não uma ou duas horas lendo um texto qualquer, fingindo alguma produçãozinha e algo mais, mas talvez estabelecer uma rotina suficiente para manter vivo aquele ciclo citado logo acima. Não é um trabalho melhor ou pior que os outros, de mais ou menos status, mas é diferente a ponto de não ser compreendido. Enquanto o mundo todo estuda para depois trabalhar, o EP trabalha já estudando.
É claro que a situação típica do EP dedicado - aquele que consegue deixar a bunda quadrada e realmente se torna um cu de ferro - pode vir a ser radicalmente não entendida por outros tantos. Como alguém trabalha em casa?, diria a D. Maria que faz faxina. Como alguém fica estudando às 3h da manhã?, perguntaria o S. Menino, porteiro que dá uma bisbilhotada nas luzes dos quartos entre um cochilo e outro. Ambas as atividades, por sinal, são privilegiadas: é bem possível passar o pano na sala ou abrir o portão enquanto se pensa em outra coisa. Corpo aqui, mente acolá.Trabalhar, assim, já parece ter virado sinônimo de alienação, enquanto estudar é algo como preparação. Mas notemos: alienação não apenas no velho sentido marxista, que esse ainda persiste, mas também num sentido meio lobotômico - aquele caso típico de entrar no automático, apertar parafusos e pressionar botões, sem já nem saber como e por que. De forma é possível entrar no automático lendo textos cabeçudos? Seria possível e mesmo desejável?
Fora essas questões, ainda resta um ponto a esclarecer antes de assinarmos a carteira, afinal: quantas horas por dia? O operário padrão chega às 8h e sai às 18h, ou qualquer coisa similar. É isso que faz o EP certinho? Oito horas de trabalho puxado, com intervalo de almoço no meio, é assim que deve proceder o EP? Não sei bem ao certo. Até pensei que fosse, pois por vezes acho que essa modernidade toda é o que está quebrando o mundo. Alguns padrões rígidos de disciplina até que não fazem tão mal assim, né? Ou fazem, sei lá. Esse texto mesmo não estaria saindo agora se eu estivesse seguindo o ciclo ideal do EP do mês. Ou talvez nem devesse sair, de fato, já que há uns 2 ou 3 artigos ansiosos por serem feitos. Eles existem, virtualmente. Então deixa que eu os atualize, já é hora. É preciso construir ficções.
O EP é um incompreendido que, futuramente, pode se arrepender por ter sido monocrônico (termo do Eco para designar aquele que só consegue fazer uma coisa por vez). Apóio os EPs, mas não os certinhos. Uma bagunça de horários com outras formas de trabalho, ou mesmo lazer e happy hour, é vital para manter o juízo.
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