29/06/2011

Tempo bom é o de hoje

Não entendo a filia excessiva que uns e outros têm pelo passado. Fato é que sempre lançamos mão de retóricas para exaltar aquilo de bom que se passou. Oh, como era doce minha infância. Ou bons tempos, aqueles. Fazer uso de um saudosismo tem lá seu valor. Mas tamanho apreço, por vezes, parece se dar precisamente porque a saudade nunca se atualiza em seu próprio perecer. Em outras palavras, o tempo nunca retorna, nem nós mesmos retornamos aos lugares e tempos de outrora. Dada a impossibilidade de reviver o momento, eis a construção de seu valor.

Ora, feito fãs patéticos, bate o desejo de re-situar. O jeito, então, é mobilizar a nós mesmos, porque nem o tempo, nem as coisas, nem as construções vão se mover a nosso bel-prazer, só para nossa satisfação, só para nosso simulacro, nosso faz-de-conta-aberração. Eis que está muito claro: é tudo diferente, absolutamente tudo. Já não se disse que um mesmo homem não entra duas vezes no mesmo rio? Pois esqueçamos essa história de reviver. A história acabou, diria outrém.

Ainda assim, não nego, o passado tem seu valor. Não apenas por ser base fundamental para o presente, mas também por ter sido bom o suficiente para ser plenamente desejado. Que o seja lembrado, então, mas que também se atualize, e por esse caminho, entende-se que há de haver diferenças. Que as valorizemos, também.

O que mais impressiona, em especial nos revivals, nas confraternizações e afins, é a presença de uma dupla confusão ou ilusão. Primeiro: de que o tempo relaciona-se com uma dada homogeneidade. Fala-se de um grupo perfeito, composto por pessoas perfeitas, com uma harmonia perfeita. Porra, não havia nem há perfeição! Os defeitos do passado podem até ter sido consertado mas, senão, só devem mesmo piorar. Segundo: de que nossos elos só são lembrados por conta de qualidades. Todavia, há ligações ruins, péssimas, tenebrosas. Iludimo-nos, achando que reviver as velhas situações não terá qualquer reminiscência do que se passou de mal. Mas terá!

Fora tudo isso, bem, tudo muda, todos mudam. Os indivíduos de outrora, assim como seus lugares e o próprio tempo, já não são mais os mesmos. O porra-louca virou pastor. A santinha engravidou. O CDF virou pagodeiro/axezeiro/forrozeiro. O vagabundo passou no ITA. O metaleiro encontrou Jesus. A hipponga virou paty. A paty virou biscate. O marxista virou empresário. Alguns seguiram seus caminhos, enquanto outros ficaram estagnados. Uns se deram bem, outros só se ferraram. Alguns acertaram, outros só erraram. Uns enriqueceram, outros só encontraram dívidas. Alguns apostaram em rotas diversas, enquanto outros iam, mas vacilavam. Uns souberam criar novas ligações, enquanto outros só pensam nas velhas homogeneidades já falidas. E, dentre atalhos e desvios, alguns entenderam, outros não: aquele tempo era bom, mas tempo bom, de fato, é o de agora. Vivamos, então, que adorar o tempo morto é como estar tão morto e parado no tempo quanto o próprio tempo em si.

18/06/2011

TV local

Assistir a alguns programas televisivos locais só serve para dar certeza de que há um controle patético a partir de certas oligarquias. É filho de fulano como apresentador, sobrinho de beltrano como diretor e as mesmas ideias circulando dentro da tv, fora dela, no ar, nas conversas de café e de mesa de bar. Fora a velha e mofada, porém recauchutada, ideologia do forró, a apoteótica estética do play operando massivamente o dinheiro da classe média e o utópico sonho do brega de um dia atingir o patamar do chique. Ou de puxar tal patamar para o próprio lugar, porque ir é sempre mais difícil que ficar.

Não que assistir à MTV, NatGeo, Fox ou HBO sejam sinônimos de alto gosto - também têm seu quê de ridículo. Ora, sob certa ótica, não faz o menor sentido em separar o que é local do que é global. As duas dimensões não existem, se formos observar a velocidade e o movimento dos fluxos comunicacionais invisíveis mas sensíveis. Trata-se, com efeito, tanto das fibras óticas por debaixo do mar quanto das ondas de satélite a cruzarem nosso caminho, ou ainda as redes wi-fi e 3G que nos servem de combustível de exibição celular, e  mesmo até aquelas fofoquinhas incontroláveis que nos dão certo conforto à nossa volonté de savoir rotineira. Ora, porra, há um claro diálogo entre o que é tipicamente regional e o que é claramente gringo, e isso é sempre bem interessante. O que é rizível e digno de enjôo é a regurgitação daí concluída, o produto final das tentativas de juntar, mesclar, conduzir, operacionalizar as tendências, as éticas e as estéticas desse jogo de audiências. E tal resultado não vai de encontro dos poderes oligárquicos que controlam nossas ondas de rádio. Pelo contrário, só faz corroborar, pois quem segue com fidelidade os bordões ecoados em cada canal só merece mesmo ser taxado de admirável gado novo.

Dito isso, fica uma pergunta: do que estou reclamando? A grama do vizinho é sempre mais verde, fato, e se estou com a tv ligada, é por escolha própria. Poderia ir ali e assinar Sky ou Net, mas no fundo apenas me abriria ao mesmo patetismo, só que de escala ampliada. O que é pior, não sei. É hora de desligar, entretanto, porque mudar de canal, é só pra mudar de raia desse fosso-cloaca.

03/06/2011

No coração da aldeota

Às vezes acho que tenho algo de masoquista. Pois, não sei por que, parece até que procuro por aquilo e por aqueles que me fazem mal. Mas isso já é ser negativista e colocar a culpa sobre meus ombros. Se "eu fosse mais eu", externalizaria qualquer falta e diria que o negativo é que me procura - assumiria, de quebra, que sou um pólo positivo, e que o que não presta está fora de mim.

É irônico que assim seja, até porque é precisamente essa assunção que tantos utilizam, quando são, quando fazem, quando estão. E sobre esse verbo, que parece ser menos ação que o ser e mais localização que o situar, lanço meu olhar por uns instante. Pois que, fazendo um elo entre o primeiro e o segundo parágrafos, posso dizer: vez por outro me atraio por aquilo que me faz mal, e me faz mal ler qualquer coisa publicitária que afirme, com orgulho, "estar no coração da Aldeota". Pois foi o que vi há pouco, pulando de link em link, até encontrar a maldita frase já catapultada ao posto de bordão da propaganda cabeça-chata.

Mas o que afinal é estar no coração da Aldeota?

A frase, claro, diz algo além do endereço. Diz algo sobre condição socioeconômica, e também política, e cultural, e simbólica e também qualquer coisa que se queira pensar. Aliás, em tempo, todo mundo quer estar na Aldeota, ou queria, já que o velho bairro parece andar meio na ladeira da decadência. Mas se todos estão na Aldeota, e mais ainda em seu coração, que coração central é esse que abarca o corpo inteiro? É de mãe esse músculo involuntário?

Ora, estar no coração da Aldeota é como morar no melhor da Messejana: tem sempre algo de bom, é perto de tudo, tem todos os serviços e o que é de ruim resta periférico. Lá, não aqui. E se o periférico depende de um centro, e esse centro sequer existe, porque todos clamam por ele, então que periferia circulante é essa? E que centro flutuante é esse? Não, nem se trata de assumir as mudanças dos centros econômicos ao longo das décadas. Tal nomadismo é facilmente observável. Trata-se de pensar - e assumir! - as guerrinhas particulares entre bairros, de ter por fato o medíocre discurso bélico do dia-a-dia que lança mantas de favela ali e louros de Alpha Ville aqui. Porque estar no coração da Aldeota é isso, e muito mais. É ser católico apostólico românico, é usar iPhone e ostentar o símbolo do pecado, é estar livre de todo mal, amém, e pregar, no carro, adesivo do Recado, comer na Romana e ignorar a Leão do Sul, pagar 6 meses de academia adiantados e frequentar só por 2, se esbaldar de Heineken e considerar o Ceará já inserido no circuito internacional do consumo.

E então, aldeia Aldeota, o que é de fato estar em seu coração? Se é que há algum no seio dessas suas famílias filhas da oligarquia... Aposto que, se pudesse responder, você sequer teria palavras exatas. Aposto que nenhuma descrição daria conta para falar dessa finesse ridícula que consome a visão já hipermétrope dos seus moradores e vizinhos publicitários, inventores e reinventores dos bordões exclusivistas mais repetidos da cidade. Indica de uma vez onde é que fica esse coração pra que algum Peri lhe dê umas boas flechadas. Talvez assim, só assim, é que se rasgue toda essa falácia cosmopolitana que te cobre e a faça desmoronar. A falácia, não você, porque se você vier a cair, que Papicu, Fátima ou Seis Bocas virá assumir o seu lugar?

01/06/2011

Certo que nunca vivi tão apinhado de textos ao meu redor. Artigos soltos, livros, xérox, impressões diversas. Apinhado ando não só de textos, mas também de ideias, dúvidas, projetos, vontades e anseios, como se cada página não lida fosse um problema a se resolver e, igualmente, como se cada página lida trouxesse novos problemas, novas perguntas e novas inquietações.



Jogando o olhar rapidamente, é possível notar de tudo: livros para um estudo específico, livros variados, livros para, digamos, fins diletantes, livros na estante, livros no criado mudo, livros servindo até de base para uma coisa ou outra; xérox de livros sobre um tema específico aqui, impressões sobre outro tema ali e mais outras folhas soltas acolá. Metódico que sou, fico sempre a procurar um modo de organizar, categorizar, calar, enfim, o monstro do caos que teima em surgir por gênese espontânea. Esteja dito, há um criacionismo no universo do quarto: tanto menos se colocam as coisas em seus lugares - ainda que estes sejam inventados autoritariamente - mais elas teimam em andar e explorar os espaços possíveis. É assim que se perdem as canetas Bic, os carregadores de celular e todas aquelas coisas que somem justamente quando mais são necessárias.


Não bastasse essa galhofa, os textos gostam de ir além no que tange à bagunça a preencher nosso vazio interior de todos os dias: não apenas são fanfarrões em si mesmos, dizendo coisas e desmentindo nosso entendimento, como gozam de certa liberdade em ir e vir, em sair de sua ordem ou localização, seja lá qual for, de Z a A, amontoados em pilhas ou alinhados lado a lado. Talvez eles saibam como devem estar dispostos, afinal, já que se supõe serem mais sábios que nós, os burros a lê-los. Eu devia estar sempre aqui, não ali, é como se dissessem. Uma afinidade meio à Deleuze e Guattari.


E, assim, posso dizer: toda organização é efêmera. Deixe que cheguem mais itens, novos amigos para os textos brincarem (e eles sempre virão!), e logo a bagunça volta a imperar, feito recreio de criança. No fim das contas, iremos lá, ajeitar, podar, censurar, enfileirar pedagogicamente o universo de ideias que as letrinhas tanto querem embaralhar.