Oi.
É só pra dizer que não esqueci deste canto.
Pra dizer que ando com a cabeça ocupada com outras coisas, e que logo me volto pra cá. Logo elas estarão se aquietando, e espero ter tempo e cabeça pra escrever.
Digo, também, que estou com novas experiências, estas, agora, visuais. Luminosas, sabe? Mas não quero abandonar meu sumidouro de impressões cotidianas. O grifo é meu e ninguém rouba!
Espero que, nas férias, com um tempinho a mais, eu me debruce mais uma vez sobre este espaço e possa reformulá-lo. Quero lhe dar roupagem nova. As cores e o estilo devem continuar os mesmos. Mas os cabelos...
Enfim, raros grifadores, não me esqueçam. Eu não os esqueci.
01/06/2005
01/05/2005
"Feliz desaniversário pra mim"
Olha, sou eu. Sou eu quem já não dá mais parabéns aos aniversariantes - ou pelo menos a muitos poucos. E por que isso? Não sei. Chegou um momento em que já não vejo sentido em comemorar A Grande Data. Não é no sentido que a Elanutt dá, de celebrar todos os dias ao invés de um só. O meu motivo - ou não-motivo - anda lado a lado com o niilismo, senão mesmo dentro dele.
Afinal, qual o sentido de parabenizar o aniversariante? É por estar vivo? Mas a vida não é mesmo tão frágil? Não se pode morrer um dia após o aniversário? Ou no próprio dia? É por mais um ano de vida? Mas as pessoas não vivem querendo não-envelhecer, apagar o sinal da andança do tempo? É porque é o dia delas?
Talvez essa marcação niilista não esteja só. Sua solidão pode estar aplacada pela presença de um certo egocentrismo. Mas não é uma fase egocêntrica-hedonista, apenas egocêntrica. Estou debruçado sobre meus problemas, minhas responsabilidades, minhas ocupações - pensamentos e observações também. Tempo e atenção pra mim - e pra algumas pessoas próximas e importantes - não há muito, infelizmente. Talvez nem o suficiente. Até reclamações tenho ouvido, mas parece que os olhos e os ouvidos andam um pouco enfadados... Não sei. Mas o grande quê do momento é o não-vislumbre pelos fogos de artifício. Daria até pra dizer que isso se chama depressão - desgosto pela vida, olhar acinzentado pro mundo, desânimo... E, vai ver, é mesmo. Mas não vou me entupir de drogas de tarja preta para estar a par da sociedade. Não vou me medicar para ser igual a todos. Prefiro, mesmo, estar acompanhado da minha melancolia e do meu amor ao nada - pelo menos por enquanto - a desejar felizes aniversários iguais todos os anos para pessoas com quem mal falo. "Feliz aniversário, parabéns, tudo de bom, que Deus lhe abençoe, muitas felicidades, mais um ano de vida cheio de realizações, blé-blé-blé, blé-blé-blé".
Me desculpem, mas não é nada pessoal com ninguém. É só um desânimo mesmo de ligar, mandar mensagem, deixar um scrap ou sei lá o quê...
Afinal, qual o sentido de parabenizar o aniversariante? É por estar vivo? Mas a vida não é mesmo tão frágil? Não se pode morrer um dia após o aniversário? Ou no próprio dia? É por mais um ano de vida? Mas as pessoas não vivem querendo não-envelhecer, apagar o sinal da andança do tempo? É porque é o dia delas?
Talvez essa marcação niilista não esteja só. Sua solidão pode estar aplacada pela presença de um certo egocentrismo. Mas não é uma fase egocêntrica-hedonista, apenas egocêntrica. Estou debruçado sobre meus problemas, minhas responsabilidades, minhas ocupações - pensamentos e observações também. Tempo e atenção pra mim - e pra algumas pessoas próximas e importantes - não há muito, infelizmente. Talvez nem o suficiente. Até reclamações tenho ouvido, mas parece que os olhos e os ouvidos andam um pouco enfadados... Não sei. Mas o grande quê do momento é o não-vislumbre pelos fogos de artifício. Daria até pra dizer que isso se chama depressão - desgosto pela vida, olhar acinzentado pro mundo, desânimo... E, vai ver, é mesmo. Mas não vou me entupir de drogas de tarja preta para estar a par da sociedade. Não vou me medicar para ser igual a todos. Prefiro, mesmo, estar acompanhado da minha melancolia e do meu amor ao nada - pelo menos por enquanto - a desejar felizes aniversários iguais todos os anos para pessoas com quem mal falo. "Feliz aniversário, parabéns, tudo de bom, que Deus lhe abençoe, muitas felicidades, mais um ano de vida cheio de realizações, blé-blé-blé, blé-blé-blé".
Me desculpem, mas não é nada pessoal com ninguém. É só um desânimo mesmo de ligar, mandar mensagem, deixar um scrap ou sei lá o quê...
16/04/2005
o jardim da minha casa
Essa semana reparei como o jardim da minha casa está bonito. Não é um jardim de Guaramiranga ou Curitiba, mas... Ele andava sem graça, sem vida, com as flores secas já cansadas de sol. E veio a chuva para reanimá-lo.
O jardim da minha casa tem flores coloridas, amarelas, rosas, vermelhas. Tem grama em algumas partes. Tem sapo e bonecos de enfeite. Tem uma aranha de verdade que nunca sai do canto - deve ter fartura por ali. Tem pedriças e areia. Tem dois pés de jambo que já mal dão jambo. Tem plantas diversas espalhadas. Tinha um pinheiro e uma trepadeira, mas tiraram os dois. Tem varal. Tem torneira da Cagece e caixa de correio. E deve ter algum brinquedo enterrado que outrora devo ter perdido por lá.
Me deu vontade de ter uma máquina fotográfica para registrar a beleza do jardim. Ter até tenho, mas queria uma mais prática. Mas praticidade e euro são duas palavras que não combinam. Pelo menos não sem o raio da Western Union...
O jardim da minha casa tem flores coloridas, amarelas, rosas, vermelhas. Tem grama em algumas partes. Tem sapo e bonecos de enfeite. Tem uma aranha de verdade que nunca sai do canto - deve ter fartura por ali. Tem pedriças e areia. Tem dois pés de jambo que já mal dão jambo. Tem plantas diversas espalhadas. Tinha um pinheiro e uma trepadeira, mas tiraram os dois. Tem varal. Tem torneira da Cagece e caixa de correio. E deve ter algum brinquedo enterrado que outrora devo ter perdido por lá.
Me deu vontade de ter uma máquina fotográfica para registrar a beleza do jardim. Ter até tenho, mas queria uma mais prática. Mas praticidade e euro são duas palavras que não combinam. Pelo menos não sem o raio da Western Union...
25/03/2005
eu e o cinema
"Mas vou pra lá pra me divertir. Não consigo me divertir com essa linguagem diferenciada".
Não sei se ele é normal ou comum ou sei lá o quê, ou se sou eu que sou masoquista ou diferente demais. Pois lhe disse que gosto de ir lá para "sofrer". Gosto de sair de lá acabado, de sentir minhas idéias remexidas como por um liquidificador, me sentir um merda mesmo, vendo que a vida não passa de um lépido risco no nada. Gosto de ver minha antítese na tela, ou mesmo de me sentir corroborado até, mas gosto de me ver pensando naquilo que está sendo mostrado. É a única ocasião que sinto meu dinheiro bem empregado, em se tratando de cinema. Pois me parece que ver um filme, comer pipoca, beber refrigerante e se divertir por cerca de duas horas da forma mais leve possível não é outra coisa que se render demais à sedução da facilidade. O dinheiro vai embora, fácil, fácil. E entra fácil nos bolsos dos cretinos roliudianos.
E se eu disser que alguns dos meus prediletos são Tiros em Columbine, Mar Adentro, Irreversível, Dogville, Bicho de Sete Cabeças e Durval Discos, por exemplo? Será que dá pra entender a agonia que preciso sentir na sala escura? Será que dá pra entender que a mesma agonia que quero sentir nos livros (o que eu demoraria pra sentir em uma semana, no mínimo) quero, também, sentir em duas horas? Ora, ora. Ora, ora.
Não é querendo criticá-lo - espero até que não veja esse post, pois vai me entender mal - mas prefiro estar no mundo alternativo à me render à diversão fácil e superficial do cinema vendido por combos. Você compra pipoca+refri+diversão+beijos da gatinha ou do gatinho+mão-boba+risos e piadas previsíveis e, pronto!, a noite está perfeita. Mas ir ao Iguatemi, pra mim, não tem jeito. Saio de lá mal por ter me divertido. E ir ao Dragão é bom demais. Saio de lá muito bem por ter sofrido.
"Prefiro não mexer nas minhas idéias, deixá-las quietinhas", diz ele. É medo?
Não sei se ele é normal ou comum ou sei lá o quê, ou se sou eu que sou masoquista ou diferente demais. Pois lhe disse que gosto de ir lá para "sofrer". Gosto de sair de lá acabado, de sentir minhas idéias remexidas como por um liquidificador, me sentir um merda mesmo, vendo que a vida não passa de um lépido risco no nada. Gosto de ver minha antítese na tela, ou mesmo de me sentir corroborado até, mas gosto de me ver pensando naquilo que está sendo mostrado. É a única ocasião que sinto meu dinheiro bem empregado, em se tratando de cinema. Pois me parece que ver um filme, comer pipoca, beber refrigerante e se divertir por cerca de duas horas da forma mais leve possível não é outra coisa que se render demais à sedução da facilidade. O dinheiro vai embora, fácil, fácil. E entra fácil nos bolsos dos cretinos roliudianos.
E se eu disser que alguns dos meus prediletos são Tiros em Columbine, Mar Adentro, Irreversível, Dogville, Bicho de Sete Cabeças e Durval Discos, por exemplo? Será que dá pra entender a agonia que preciso sentir na sala escura? Será que dá pra entender que a mesma agonia que quero sentir nos livros (o que eu demoraria pra sentir em uma semana, no mínimo) quero, também, sentir em duas horas? Ora, ora. Ora, ora.
Não é querendo criticá-lo - espero até que não veja esse post, pois vai me entender mal - mas prefiro estar no mundo alternativo à me render à diversão fácil e superficial do cinema vendido por combos. Você compra pipoca+refri+diversão+beijos da gatinha ou do gatinho+mão-boba+risos e piadas previsíveis e, pronto!, a noite está perfeita. Mas ir ao Iguatemi, pra mim, não tem jeito. Saio de lá mal por ter me divertido. E ir ao Dragão é bom demais. Saio de lá muito bem por ter sofrido.
"Prefiro não mexer nas minhas idéias, deixá-las quietinhas", diz ele. É medo?
08/03/2005
Então é natal
Olha, as mulheres que me desculpem, mas não vou dar parabéns pelo Dia da Mulher coisa nenhuma.
As brincalhonas de plantão podem dizer que é inveja ou coisa assim. "Ah, vocês nem têm um dia só do homem". Não precisa. O homem domina o mundo, seja por força ou por estupidez. Ou seja pelos dois.
A mulher já é violentada pela sociedade - leia-se masculina e feminina - diariamente, desde que a mulher é mulher e o homem é homem. É da mulher a profissão mais antiga do mundo (mais antiga e mais estuprada). É a mulher que sofre pela família, mesmo quando esta nem era instituída. É a mulher que se dobra pra ser trocentas personagens no dia-a-dia. Nada mais merecido que um dia só pra ela, não? Pelo menos que não fosse um dia que a minimizasse. Aí sim.
O Dia da Mulher não é uma mera homenagem. Primeiro, passa pela cultura positivista. E odeio o Positivist Way of Life. Chega de ícones e símbolos. Chega de datas e nomes. Chega de fatos marcantes sem motivos e questionamentos por trás do palco. Chega dessa história ridícula, linear e progessivista.
Segundo, é uma data meramente comercial. Assim como o Dia das Crianças, dos Pais, das Mães, o Natal... Que? Alguém vai ter coragem que nossa singela sociedade ainda guarda os significados das datas comemorativas? Bem, talvez essas datas, com exceção do Natal ou da Páscoa, nem sequer tenham algum significado senão o lucro.
Não, não quero transformar as mulheres ao meu redor em coisas e em motivos para datinhas vermelhas no calendário. Já chega elas terem que se vender pra não morrer de fome. Já chega elas terem de agüentar "gostosa!", "delícia!", "tesão!" e mãos-bobas de estranho em show ou similares. Já chega elas ganharem menos no trabalho. Já chega agüentarem maridos bêbados. Ah, pô, vá a merda esses dias "especiais".
De que adianta eu demonstrar homenagem às mulheres durante um só dia do ano se nos 364 restantes eu solto piadinhas infames pra todas que passam por mim? Haja hipocrisia...
Pronto, acabou saindo minha "homenagem" às mulheres no dia delas. Parabéns, então... E emancipem-se. Sempre.
As brincalhonas de plantão podem dizer que é inveja ou coisa assim. "Ah, vocês nem têm um dia só do homem". Não precisa. O homem domina o mundo, seja por força ou por estupidez. Ou seja pelos dois.
A mulher já é violentada pela sociedade - leia-se masculina e feminina - diariamente, desde que a mulher é mulher e o homem é homem. É da mulher a profissão mais antiga do mundo (mais antiga e mais estuprada). É a mulher que sofre pela família, mesmo quando esta nem era instituída. É a mulher que se dobra pra ser trocentas personagens no dia-a-dia. Nada mais merecido que um dia só pra ela, não? Pelo menos que não fosse um dia que a minimizasse. Aí sim.
O Dia da Mulher não é uma mera homenagem. Primeiro, passa pela cultura positivista. E odeio o Positivist Way of Life. Chega de ícones e símbolos. Chega de datas e nomes. Chega de fatos marcantes sem motivos e questionamentos por trás do palco. Chega dessa história ridícula, linear e progessivista.
Segundo, é uma data meramente comercial. Assim como o Dia das Crianças, dos Pais, das Mães, o Natal... Que? Alguém vai ter coragem que nossa singela sociedade ainda guarda os significados das datas comemorativas? Bem, talvez essas datas, com exceção do Natal ou da Páscoa, nem sequer tenham algum significado senão o lucro.
Não, não quero transformar as mulheres ao meu redor em coisas e em motivos para datinhas vermelhas no calendário. Já chega elas terem que se vender pra não morrer de fome. Já chega elas terem de agüentar "gostosa!", "delícia!", "tesão!" e mãos-bobas de estranho em show ou similares. Já chega elas ganharem menos no trabalho. Já chega agüentarem maridos bêbados. Ah, pô, vá a merda esses dias "especiais".
De que adianta eu demonstrar homenagem às mulheres durante um só dia do ano se nos 364 restantes eu solto piadinhas infames pra todas que passam por mim? Haja hipocrisia...
Pronto, acabou saindo minha "homenagem" às mulheres no dia delas. Parabéns, então... E emancipem-se. Sempre.
06/03/2005
Trouble
As músicas marcam, né?
Teve uma época, mais ou menos um ano atrás, que eu tava lá, batendo ponto todo sábado, numa boate qualquer ali de um canto qualquer, com umas pessoas bem legaizinhas que eu havia conhecido há pouco. Quase sagrado estar lá.
Nessa boate tocava - e ainda tocam - as músicas do momento.
Dentre as músicas do momento estava uma chamada Trouble.
Dentre as pessoinhas legais, tinha uma que adorava a banda que tocava Trouble.
E essa pessoa, estranha, doidinha e meio de lua foi me cativando paulatinamente.
Desde um certo instante, nunca mais havíamos ido a essa boate. Nem juntos, nem separados.
E justo no dia em que eu volto a essa boate, na ida toca Trouble na rádio.
E só consigo me lembrar dessa pessoa, que deveria estar lá comigo, mas estava não. Estava era distante.
E tava faltando ela por lá.
Até falei isso pra ela, mas parece que ela não me acreditou muito.
Fazer o quê?
Será que ela acredita agora?
Teve uma época, mais ou menos um ano atrás, que eu tava lá, batendo ponto todo sábado, numa boate qualquer ali de um canto qualquer, com umas pessoas bem legaizinhas que eu havia conhecido há pouco. Quase sagrado estar lá.
Nessa boate tocava - e ainda tocam - as músicas do momento.
Dentre as músicas do momento estava uma chamada Trouble.
Dentre as pessoinhas legais, tinha uma que adorava a banda que tocava Trouble.
E essa pessoa, estranha, doidinha e meio de lua foi me cativando paulatinamente.
Desde um certo instante, nunca mais havíamos ido a essa boate. Nem juntos, nem separados.
E justo no dia em que eu volto a essa boate, na ida toca Trouble na rádio.
E só consigo me lembrar dessa pessoa, que deveria estar lá comigo, mas estava não. Estava era distante.
E tava faltando ela por lá.
Até falei isso pra ela, mas parece que ela não me acreditou muito.
Fazer o quê?
Será que ela acredita agora?
03/03/2005
"É precisamente porque estes [os iconoclastas] apresentavam esta omnipotência dos simulacros, esta faculdade que têm de apagar Deus da consciência dos homens e esta verdade que deixam entrever, destruidora, aniquiladora, de que no fundo Deus nunca existiu, que nunca existiu nada senão o simulacro e mesmo que o próprio Deus nunca foi senão o seu próprio simulacro - daí vinha sua raiva em destruir as imagens." (Jean Baudrillard, Simulacros e Simulação).
Uau! Será que entendi o que ele quis dizer?
Uau! Será que entendi o que ele quis dizer?
26/02/2005
Um elogio
E num é que nessa semana que passou eu fui elogiado por alguns despretensiosos desenhos? Eu, justo eu, que acho que desenho tão mal... E nem deve saber a pessoa que me elogiou que um dia eu desenhei, e até que desenhei mais ou menos bem. Mas que, pelas vicissitudes da vida, e sabe-se lá por que motivos mais, parei de desenhar, enfadado, cansado, enjoado e desestimulado que fiquei.
O elogio dessa pessoa foi importante. Me fez sentir um pouco de vida a mais. Me fez lembrar dos velhos tempos, nos quais eu penava pra fazer um desenho legal. Dos tempos em que a mesa verde ainda estava armada, não era ocupada por nada e era usada de fato. Ah, força pra recomeçar, ainda que fraca, mas talvez já seja o suficiente. Só por causa de um elogiozinho à toa...
Brigado. =)
O elogio dessa pessoa foi importante. Me fez sentir um pouco de vida a mais. Me fez lembrar dos velhos tempos, nos quais eu penava pra fazer um desenho legal. Dos tempos em que a mesa verde ainda estava armada, não era ocupada por nada e era usada de fato. Ah, força pra recomeçar, ainda que fraca, mas talvez já seja o suficiente. Só por causa de um elogiozinho à toa...
Brigado. =)
19/02/2005
O Rodrigo ganha fácil
O nome do empreendimento é Thales Cell. Mas quem trabalha lá é o Rodrigo. E o Rodrigo parece ser farrista, como vocês verão logo a seguir.
Eu sempre passava por aquela grande casa, situada numa avenida bastante movimentada. Há alguns anos, ouvi dizer que era a quinta ou terceira - não lembro bem - maior avenida do Brasil em extensão. Não me admiro se for verdade, e se ainda continuar a ser, porque já tive a oportunidade de percorrê-la de cabo a rabo e pude ver o quão imensa é.
Voltando à casa, eu a via todos os dias, porque se situa bem em frente à minha parada de ônibus, nessa tal avenida gigante, no meu lamento diário de ir à faculdade todos os dias, fatídica rotina que já dura mais de 3 anos e que, de tão enfadonha, vai se demorando cada vez mais, sem previsões muito exatas de quando vai acabar. Me parece mesmo que ela não quer findar, não...
Mas ali estava - e ainda está - a casa, de grande porte, como já disse, altiva, duplex, típica casa de classe média alta. Diria que pelos tempos, e por outros fatos que vocês verão logo mais, que aquele lar havia sido erguido pela força de um homem, apenas, desses que viveram nos tempos em que o seu emprego era suficiente por si só para se viver bem, e a mulher apenas decorava a casa, dando o toque de lar-doce-lar ao até então insosso canto onde iniciaram a nova morada. Diria mais. Diria que o homem da casa fora, nos tempos pretéritos, um militar de média patente, ou mesmo dono de algum negócio nem muito grande, nem muito pequeno, mas que teve que trabalhar muito para viver bem. Pelo menos foi essa impressão que tive ao vê-lo e ao conversar com ele. Mas entendam por que tive de falar com ele.
Meu celular deu problema. As teclas talk e end deixaram de funcionar depois de uma queda, e, na tentativa ajeitá-lo eu mesmo, abri-o, e quebrei a tampa. Aí danou-se. E já era hora mesmo. Uso-o desde 2001 (e ele é pelo menos de 2000), e até então o único problema que ele tivera foi a frouxidão da bateria - e esse é um problema comum demais pra ser levado à sério nos modelos Nokia 6120i, esses antigões, esbeltos, duros e até mesmo um tanto pesados, se comparados aos modelos atuais. Dizem que só servem pra quebrar casquinha de caranguejo (mas também servem pra quebrar a cabeça de quem diz isso), mas quem o possui sabe o quão é resistente esse modelo. Dizem ser dos melhores, até. E eu não o trocaria por um outro qualquer, e não tenho essa intenção tão cedo, porquanto durar seu funcionamento e sua utilidade: telefonar e receber chamadas, receber e enviar mensagens e servir de memorex e despertador. Pronto, pra mim tá perfeito, mesmo que a agenda telefônica dele já esteja lotada, mesmo que, de vez em quando, eu tenha que apagar um número não utilizado para pôr outro mais útil em seu lugar, mesmo que a bateria frouxa viva pregando peças em mim, como desligar em momentos inoportunos ou descarregar no meio de uma conversa.
Sim, mas o celular estava com defeito. Sem as teclas talk e end, eu nem podia fazer nem receber chamadas, e a única maneira de me comunicar por meio dele era com as mensagens. Não sou do tipo que vive recebendo ligações no celular, mas fico pouco tempo em casa, e, portanto, o conceito dele sobe no quesito utilidade. Então não dava pra continuar com o aparelho desse jeito, e lá vou eu procurar algum canto pra consertá-lo. E o Thales Cell foi o segundo lugar visitado. O primeiro só tinha duas cores de carcaça: rosa e verde-limão. Não dava, né? Mas procurei ir no Thales por questões de preço, também. Não que o primeiro lugar, o Nakakunda (sim, este é o nome da lojinha, e já que falei do Thales, tenho que falar do Nakakunda) estivesse caro, mas podia ser que o Thales fosse mais barato, além de ser pertinho da minha casa.
Mas o Thales já tem um inconveniente logo na entrada: é que ele fica no segundo andar na tal casa que lhes falei lá no início, e, pra subir, é preciso passar pelo jardim. Fácil de superar, principalmente porque, logo antes de entrar, encontro uma mulher tomando o mesmo caminho que eu, e eis que lhe pergunto se "o negócio do celular é ali em cima", ao que ela me responde afirmativamente, e me procura o suposto Thales dono do empreendimento que, também supostamente, leva seu nome.
Aí um susto: tem um salão de beleza lá em cima. O Thales Cell, com uma propaganda-estardalhaço no muro da casa, na verdade é uma bancada na varanda, apenas isso, e dentro da casa funciona um grande salão - que não tem propaganda nenhuma em muro nenhum. Além do susto, houve o inconveniente de estar no meio de um monte de mulheres, no ambiente delas, e só você de homem lá. Só entende esse embaraço o homem que já entrou num salão de beleza repleto de figuras femininas analisando-o dos pés a cabeça, e da cabeça aos pés em retorno, não exatamente com uma conotação sexual nesse olhar, mas com uma atenção analítica vexatória.
"Olha, procura o Rodrigo lá embaixo", pede a mulher que eu havia encontrado, e lá desço, então, atrás de um tal Rodrigo. Vai ver que Thales é o filho do Rodrigo, sei lá. Bato palmas, e aparece, vindo da sala, um senhor já de certa idade, de bermuda, sem camisa, barriga grande, mas não exatamente gordo, e uma bela barba branca, não completamente cheia, mas bonita, mesmo assim. Provavelmente o chefe da casa, aquele que eu supunha, alguns parágrafos atrás, tê-la levantado.
"Por favor, o Rodrigo está?", pergunto. E ele diz "Não sei se ele já chegou, acho que ainda não chegou, deixa eu ver", e grita pelo Rodrigo. "Rodrigo! Rodrigo!" Grita olhando pra cima, dando a entender que ele achava que o Rodrigo se encontrava no andar de cima. "Não, já vim lá de cima, me mandaram procurá-lo aqui embaixo", digo. "Ah, então ele não chegou", me responde o senhor, que começa a reclamar suavemente do Rodrigo, como os típicos pais que se perguntam onde que erraram. "Ele ainda não chegou. Já era pra ter chegado. Geralmente, ele chega às oito, às vezes chega às quatro, mas já era pra ter chegado (e já era quase dez da manhã). Ele deve ganhar fácil, porque se ganhasse difícil, já tinha chegado." "Pois tá, venho outro hora. Brigado.", respondo, conformado em esperar que o Nakakunda ache uma carcaça de macho, digo, preta, ou então em ir atrás de outro canto pra consertar meu celular. E vou embora, achando engraçado o tom de preocupação e desgosto que o senhor, provavelmente pai do Rodrigo, o farrista, me apresentou.
Ô, Rodrigo! Acho que você perdeu um cliente... Menos dinheiro pra você gastar nas suas farras... hihihi... Mas tudo bem. Você ganha fácil, né? hihihi...
Eu sempre passava por aquela grande casa, situada numa avenida bastante movimentada. Há alguns anos, ouvi dizer que era a quinta ou terceira - não lembro bem - maior avenida do Brasil em extensão. Não me admiro se for verdade, e se ainda continuar a ser, porque já tive a oportunidade de percorrê-la de cabo a rabo e pude ver o quão imensa é.
Voltando à casa, eu a via todos os dias, porque se situa bem em frente à minha parada de ônibus, nessa tal avenida gigante, no meu lamento diário de ir à faculdade todos os dias, fatídica rotina que já dura mais de 3 anos e que, de tão enfadonha, vai se demorando cada vez mais, sem previsões muito exatas de quando vai acabar. Me parece mesmo que ela não quer findar, não...
Mas ali estava - e ainda está - a casa, de grande porte, como já disse, altiva, duplex, típica casa de classe média alta. Diria que pelos tempos, e por outros fatos que vocês verão logo mais, que aquele lar havia sido erguido pela força de um homem, apenas, desses que viveram nos tempos em que o seu emprego era suficiente por si só para se viver bem, e a mulher apenas decorava a casa, dando o toque de lar-doce-lar ao até então insosso canto onde iniciaram a nova morada. Diria mais. Diria que o homem da casa fora, nos tempos pretéritos, um militar de média patente, ou mesmo dono de algum negócio nem muito grande, nem muito pequeno, mas que teve que trabalhar muito para viver bem. Pelo menos foi essa impressão que tive ao vê-lo e ao conversar com ele. Mas entendam por que tive de falar com ele.
Meu celular deu problema. As teclas talk e end deixaram de funcionar depois de uma queda, e, na tentativa ajeitá-lo eu mesmo, abri-o, e quebrei a tampa. Aí danou-se. E já era hora mesmo. Uso-o desde 2001 (e ele é pelo menos de 2000), e até então o único problema que ele tivera foi a frouxidão da bateria - e esse é um problema comum demais pra ser levado à sério nos modelos Nokia 6120i, esses antigões, esbeltos, duros e até mesmo um tanto pesados, se comparados aos modelos atuais. Dizem que só servem pra quebrar casquinha de caranguejo (mas também servem pra quebrar a cabeça de quem diz isso), mas quem o possui sabe o quão é resistente esse modelo. Dizem ser dos melhores, até. E eu não o trocaria por um outro qualquer, e não tenho essa intenção tão cedo, porquanto durar seu funcionamento e sua utilidade: telefonar e receber chamadas, receber e enviar mensagens e servir de memorex e despertador. Pronto, pra mim tá perfeito, mesmo que a agenda telefônica dele já esteja lotada, mesmo que, de vez em quando, eu tenha que apagar um número não utilizado para pôr outro mais útil em seu lugar, mesmo que a bateria frouxa viva pregando peças em mim, como desligar em momentos inoportunos ou descarregar no meio de uma conversa.
Sim, mas o celular estava com defeito. Sem as teclas talk e end, eu nem podia fazer nem receber chamadas, e a única maneira de me comunicar por meio dele era com as mensagens. Não sou do tipo que vive recebendo ligações no celular, mas fico pouco tempo em casa, e, portanto, o conceito dele sobe no quesito utilidade. Então não dava pra continuar com o aparelho desse jeito, e lá vou eu procurar algum canto pra consertá-lo. E o Thales Cell foi o segundo lugar visitado. O primeiro só tinha duas cores de carcaça: rosa e verde-limão. Não dava, né? Mas procurei ir no Thales por questões de preço, também. Não que o primeiro lugar, o Nakakunda (sim, este é o nome da lojinha, e já que falei do Thales, tenho que falar do Nakakunda) estivesse caro, mas podia ser que o Thales fosse mais barato, além de ser pertinho da minha casa.
Mas o Thales já tem um inconveniente logo na entrada: é que ele fica no segundo andar na tal casa que lhes falei lá no início, e, pra subir, é preciso passar pelo jardim. Fácil de superar, principalmente porque, logo antes de entrar, encontro uma mulher tomando o mesmo caminho que eu, e eis que lhe pergunto se "o negócio do celular é ali em cima", ao que ela me responde afirmativamente, e me procura o suposto Thales dono do empreendimento que, também supostamente, leva seu nome.
Aí um susto: tem um salão de beleza lá em cima. O Thales Cell, com uma propaganda-estardalhaço no muro da casa, na verdade é uma bancada na varanda, apenas isso, e dentro da casa funciona um grande salão - que não tem propaganda nenhuma em muro nenhum. Além do susto, houve o inconveniente de estar no meio de um monte de mulheres, no ambiente delas, e só você de homem lá. Só entende esse embaraço o homem que já entrou num salão de beleza repleto de figuras femininas analisando-o dos pés a cabeça, e da cabeça aos pés em retorno, não exatamente com uma conotação sexual nesse olhar, mas com uma atenção analítica vexatória.
"Olha, procura o Rodrigo lá embaixo", pede a mulher que eu havia encontrado, e lá desço, então, atrás de um tal Rodrigo. Vai ver que Thales é o filho do Rodrigo, sei lá. Bato palmas, e aparece, vindo da sala, um senhor já de certa idade, de bermuda, sem camisa, barriga grande, mas não exatamente gordo, e uma bela barba branca, não completamente cheia, mas bonita, mesmo assim. Provavelmente o chefe da casa, aquele que eu supunha, alguns parágrafos atrás, tê-la levantado.
"Por favor, o Rodrigo está?", pergunto. E ele diz "Não sei se ele já chegou, acho que ainda não chegou, deixa eu ver", e grita pelo Rodrigo. "Rodrigo! Rodrigo!" Grita olhando pra cima, dando a entender que ele achava que o Rodrigo se encontrava no andar de cima. "Não, já vim lá de cima, me mandaram procurá-lo aqui embaixo", digo. "Ah, então ele não chegou", me responde o senhor, que começa a reclamar suavemente do Rodrigo, como os típicos pais que se perguntam onde que erraram. "Ele ainda não chegou. Já era pra ter chegado. Geralmente, ele chega às oito, às vezes chega às quatro, mas já era pra ter chegado (e já era quase dez da manhã). Ele deve ganhar fácil, porque se ganhasse difícil, já tinha chegado." "Pois tá, venho outro hora. Brigado.", respondo, conformado em esperar que o Nakakunda ache uma carcaça de macho, digo, preta, ou então em ir atrás de outro canto pra consertar meu celular. E vou embora, achando engraçado o tom de preocupação e desgosto que o senhor, provavelmente pai do Rodrigo, o farrista, me apresentou.
Ô, Rodrigo! Acho que você perdeu um cliente... Menos dinheiro pra você gastar nas suas farras... hihihi... Mas tudo bem. Você ganha fácil, né? hihihi...
18/02/2005
A semana
Semana repleta de surpresas. Dentre elas:
- Ganhei um beijo na mão que me deixou atordoado. Não gosto de beijos na mão - me sinto posto num trono de rei. Mas esse até que não foi ruim, apesar de ter me deixado desconcertado.
- Também ganhei de uma professora um beijo no rosto que me deixou muito surpreso (pois é, eu também recebo beijos de docentes, sabe...). De beijo no rosto, sim, eu gosto, e esse foi bom, acompanhado de um abraço caloroso - apesar de o aniversário ser da professora, não meu.
- É difícil demais manter os compromissos em dia. Principalmente se alguns deles não dependem só de você.
- Encontrei várias vezes uma pessoa, e ela parecia estar com algum problema a ser resolvido comigo. Numa dessas vezes, me deu a impressão de estar com algo engasgado na garganta e que precisava falar. Não falou. Mas deveria.
- Essa mesma pessoa também me agradeceu muito uma coisa que fiz por ela (e não para ela). Não precisava tanto, não.
- Sonhei que abraçava muito um amigo meu, como se ele fosse embora ou eu precisasse muito do ombro dele. Foi estranho, fiquei baratinado.
- Meu antivírus resolveu se revoltar e não ser mais gratuito. Tô lascado. E já peguei dois vírus.
- Foi difícil, mas ainda estou vivo. Primeira semana como professor de carteira assinada e tudo (mas a carteira ainda não tá assinada, claro). O estresse foi alto, e me preocupo se ainda será daqui pra frente.
- Ganhei um beijo na mão que me deixou atordoado. Não gosto de beijos na mão - me sinto posto num trono de rei. Mas esse até que não foi ruim, apesar de ter me deixado desconcertado.
- Também ganhei de uma professora um beijo no rosto que me deixou muito surpreso (pois é, eu também recebo beijos de docentes, sabe...). De beijo no rosto, sim, eu gosto, e esse foi bom, acompanhado de um abraço caloroso - apesar de o aniversário ser da professora, não meu.
- É difícil demais manter os compromissos em dia. Principalmente se alguns deles não dependem só de você.
- Encontrei várias vezes uma pessoa, e ela parecia estar com algum problema a ser resolvido comigo. Numa dessas vezes, me deu a impressão de estar com algo engasgado na garganta e que precisava falar. Não falou. Mas deveria.
- Essa mesma pessoa também me agradeceu muito uma coisa que fiz por ela (e não para ela). Não precisava tanto, não.
- Sonhei que abraçava muito um amigo meu, como se ele fosse embora ou eu precisasse muito do ombro dele. Foi estranho, fiquei baratinado.
- Meu antivírus resolveu se revoltar e não ser mais gratuito. Tô lascado. E já peguei dois vírus.
- Foi difícil, mas ainda estou vivo. Primeira semana como professor de carteira assinada e tudo (mas a carteira ainda não tá assinada, claro). O estresse foi alto, e me preocupo se ainda será daqui pra frente.
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