30/01/2005

Tem umas coisas aí acontecendo. E quanto mais acontecem, mais vejo que o complicado depende de quem vê. Que, por mais complicado que pareça, nunca é tão complicado que não se possa desatar o nó. Ou desvendar o mistério. Ou ir além de suas supostas possibilidades.

Porque teve um dia que teve um garoto que teve medo de ir na casa dum amigo na rua de trás. E a mãe-dona desse menino ainda fazia dizer "é, num vá não, fique aqui mermo". E diz que se deve ouvir os pais, porque eles sabem o que é melhor pra você. Mas se o menino não tivesse desejado dar um basta à prisão que o cercava - e se não o tivesse feito mesmo -, aí ainda ele estaria abraçado à mãe, deitados ambos na rede estendida na área, a pensarem que pode chover, a assistirem à TV, a curtirem o marasmo da tarde fria ou quente, tanto faz, desejando, os dois, uma vida diferente, sem coragem sequer de sair do canto.

E o menino acabou descobrindo caminhos. Muitos. Gente também. Muita. Acabou sorrindo, chorando, sofrendo em alguns momentos, sendo alegre em outros. Topou, caiu, bateu a cabeça no chão e na parede. Quase a partiu ao meio até. Ficou gripado, encatarrado que só, muitas, muitas vezes. Suou, ficou vermelho, tirou notas altas, boas e baixas. Fez bobagens que não deveria ter feito, e não fez outras que deveria ter feito. Mas, enfim, viveu, aprendeu a viver, saiu da rede, da área, da casa, e vai sair de outros muitos cantos mais, e ir pra tantos outros, no que depender da sua vontade.

O garoto só pede que não o lembrem demasiado da sua infância, falando de brincadeiras ou adjacências, de "como era bom aquele tempo". Porque, para o garoto, tempo bom é o de hoje. Aquele lá não foi. E, por mais que ele não acredite na felicidade, tempo bom pra ser "feliz" - entre muitas aspas - é daqui adiante.

26/01/2005

é a velhice chegando

É difícil enxergar que a velhice vem chegando. Pior quando quem se torna velho não é você, mas quem está ao seu lado. Ou, melhor dizendo, quem esteve durante toda a vida embaixo de você, apoiando, servindo de base, independente de tudo. E mais difícil ainda é engolir esse tempo apressado e as marcas que ele vai deixando e aceitar tudo passivamente.

Esquecimento, confusão, trocas estranhas, incompreensão...

Paciência, calma, resignação. Porque... fazer o quê?

20/01/2005

Ingrata

Trago-a ao meu quarto, ponho-a na cama, ela se deita faceira, rola pra lá e pra cá, alegre e safada. Ela abre as pernas, deixa que eu lhe acaricie a barriga, faço cócegas, dou-lhe abraços, aperto com gosto, trago-a pra perto de mim. Deixo que me morda, às vezes tenta me roubar um beijo, às vezes consegue. Gosta de mim, e gosto de suas brincadeiras. Inquieta, gosta de passar a cabeça na cama, mal pára. E, quando pára, fica apoiada na borda, deitada de barriga pra baixo, cabeça caída, e de orelhas em pé. E basta passar alguém na direção da cozinha que ela pula, em busca de outros afagos, de outra atenção, ou em busca de comida, gulosa que é.
Ingrata.
Mas eu a adoro. Mesmo assim.

16/01/2005

Sem tempo para sofrer

O depressivo sofre porque perdeu algo, e está consciente dessa perda. Por isso passa pela depressão. Já o melancólico sofre mesmo sem ter perdido nada, fala a filósofa na TV.
Eis que a melancolia ataca de tempos em tempos, dizendo "eu sou uma tristeza sem motivo de ser. Mas cá estou, pra te atazanar, te perturbar, te deixar mal, cheio de mal-estar".
E eis que parece não haver outro jeito de se livrar dessa melancolia chata - ou melhor, camuflá-la - senão estourar o limite do tempo, deixar a agenda lotada, sem tempo pra respirar, sem tempo pra pensar, sem tempo pra sofrer, portanto. Porque tantas ocupações assim são as únicas coisas que - perdão pelo pleonasmo - ocupam a cabeça do melancólico - além da própria tristeza, claro. E, paradoxalmente, a falta de tempo gera um ciclo vicioso: pode não ter tempo pra sofrer, e o melancólico também não tem tempo pra procurar um remédio pro sofrimento. A não ser que as reviravoltas da vida revirem tudo - desculpa o pleonasmo mais uma vez - e façam novas coisas acontecerem.
No fundo, acho que a melancolia está ligada à insatisfação com a vida. O melancólico deve levar uma vida da qual não gosta e, insatisfeito, se faz melancólico.
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Há tantas coisas que sufocam, que há momentos em que não dá pra perceber o que que sufoca. O que te sufoca, hein?
Precisando daquele abraço.

07/01/2005

Toda a crueza do mundo numa fatia de pizza mais barata que tiver

Ami, qual a pizza mair barata aí, hein?
Chega a família, esposa, marido e filho pequeno. Se sentam, a mulher começa a falar, infeliz que é, isso é uma irresponsabilidade, isso sim, vem um carro doido e bate atrás, parece reclamar de como o marido estacionou o carro, e o marido tá bom, tá bom. E depois sai pra mudar o carro de lugar.
Ela: loira, cara de velhaca, pelos 40 anos, acabada, cansada da vida difícil que leva, ou deve levar. Manchas no rosto, ombros caídos, o seios também devem estar, com alguma certa barriga, mas nada de gorda. Ele: enorme de gordo, típica barriga de cerveja e de ronco depois do almoço, respiração cansada de tanta gordura no corpo, míope de dar pena, suado, fala trôpega e embolada, coisa nitidamente para poder ser aceito pelos amigos machistas e ditos porcos, machos sujos que falam alto e coloquial, cospem no chão e chamam de gostosa cada baranga que lhes passa na frente. Desses tipos que vão ao estádio aos domingos, bebem litros de cerveja, comem de boca aberta, dão umazinha por semana com a esposa - e outrazinhas com qualquer vadia - e ainda batem na mulher. A criança: não sei. Comum demais para ser percebida com atenção.
Fiquei penalizado de ver a mulher com aquele homem. Pois seu olhar mostrava a tristeza que era conviver com ele. Deveria ser um funcionariozinho de merda de qualquer empresa ou de alguma repartição pública - é, repartição pública é mais provável -, sem ambições de qualquer natureza. E ela deveria sofrer todas as noites por sempre se lembrar da mãe dizendo não case com esse homem, você só vai sofrer. Hoje está aí, com um boi que não deve dar no couro, e que ainda deve chifrá-la, e ela, antiquada, esposa à moda antiga, fiel ao marido, não procura outro homem, porque aquele a quem seu pai entregou na igreja, no fatídico dia do seu casamento, fora - e há de sempre ser - o único homem da sua vida.
Também tive pena dele, que deve ter a auto-estima lá embaixo, não pelo seu corpo ou pela sua fala ou pelos seus óculos, mas pela vida que leva, porque tem de mostrar pros amigos um nível de vida baixo - aquele que seu salário permite -, e ainda tem de aturar o fato de seus amigos conhecerem a mulher com quem se casou, uma mulher chata, feia, que só reclama, reclama pra caralho, reclama de tudo, insatisfeita que está com a vida que leva, com um marido daquele e com um filho pra criar. Tive pena dele porque não pode comprar nem uma pizza mais elaborada além da mista, quanto mais um carro melhor, e precisa continuar com o velho carro que o acompanha há anos - um Chevette ainda conservado. Mas pra pegar coisa melhor - e digo mulheres melhores - ele precisaria de um emprego melhor e de uma coisa melhor - digo carro melhor - o que também precisa de antemão de um emprego melhor.
Do filho também tenho pena. Simplesmente por ter nascido numa família e ser filho de uma mãe neurótica e seca e de um pai similar a um porco. Ami, bote aí pro meu filho, fala ao garçom, pedindo a este que coloque um pedaço de pizza pro seu pequeno, mas com a propriedade e afirmação de um corno. Bote aí também pra mia muié também, far favô. Está em pé, como se estivesse num posto bebendo com os amigos e ouvindo o forró alto do carro, e ainda porta um copinho de plástico na mão, e de vez em quando o leva à boca. Penso no que tem ali, talvez cerveja, mas há apenas gelo. Está com calor, sua feito um porco - porco que já é - e o gelo aplaca um pouco a quentura. E o senhor, boto pro senhor?, pergunta o baratinado garçom, sem saber se serve ou não o chefe daquela família, sem saber se o homem vai comer ou não. Não, pó deixá, eu bó depois, fala o chefão, sem vontade de comer, ou fingindo que está sem vontade. E sempre a fala embolada. E me deu nojo vê-lo tomar a água do copo, colocando a língua meio pra fora, encostando nos lábios, como se fosse dar uma tossida vinda lá do âmago.
Quer mais?, pergunta a mãe ao filho, e o menino não responde, ou se responde fala baixo, mas mais parece um mudo, quieto que é. E quem responde é o pai, qué, ele qué, qué sim, bote aí, pó botar, ele qué. E a mulher continua a reclamar da vida, reclama de tudo, dos preços, do calor, dos engarrafamentos, só não tem coragem de reclamar da barriga do marido que a esmaga nas raras vezes que fodem, não tem coragem de reclamar do carinho que o marido não dá, não reclama da insensibilidade do homem, que pensa que tudo que lhe basta é ter sustento e conforto no lar-doce-lar, não reclama que ele sai pra beber com os amigos e a deixa tomando conta do menino nas noites de sexta e de sábado, e enquanto aquele bosta tá lá, se divertindo, estou aqui eu, só no meu home-sweet-home, essa buceta de vida de merda.
Ami, pó botá aí pra viage? E o garçom leva a pizza que sobrou, muitas fatias, coloca num saquinho, embaladas num papel, e a mulher volta a reclamar logo que o garçom se afasta, eu não daria dez reais por essa pizza não, não daria nem a pau, fica falando feito abestada que é, sem nem olhar pro marido, com uma convicção enorme de que se comprasse aquela bosta que acabou de comer e ainda deu ao filho estaria fazendo um péssimo negócio. Daria nada, nem a pau, fala ao tempo que se levanta, daria não, ó, nem a pau.
E vão embora, os três, bó, bó, fala ele, já andando, desajeitado. Ela já se calou, mas ainda deve reclamar durante todo o trajeto até a casa, não do preço da pizza, mas de tudo no mundo, quando queria reclamar era da vida que leva, e ele calado, cansado porque a barriga não o deixa respirar direito, cansado também da vida que leva, e o menino, este, que deveria falar, visto que é novo como é, este mal abre o bico, tímido talvez, mudo quem sabe, e sabe-se lá as coisas que afetam a vida daquela família, clássica família de classe média baixa, infeliz, com sonhos, vontades, desejos, sem esperança e sem dinheiro, tão pouco dinheiro que só dar pra comprar uma mista que vem na promoção com refrigerante por dez ou onze reais.

04/01/2005

Às 4 da manhã

Às 4:15 da manhã, impaciente, nervoso, espirrando e tenso precisa de algo para aplacar tamanho nervosismo. E, como se sabe, pessoas nesse estado alterado estão propensas a atacar os suprimentos e mastigá-los sem dó.
Senta-se à mesa, pega o requeijão, pega as bolachas e põe-se a comê-las, as bolachas com o requeijão. Bolachas duras, croooc, croooc, ótimas para ele que, quando se encontra desse modo, tudo o que quer é morder algo que force suas mandíbulas e o faça sentir dor nas articulações. Masoquista, talvez.
No silêncio da madrugada, pensa, sonha, deseja que não apareça ninguém para estragar seu momento particular, íntimo como uns instantes de masturbação. É tímido, não deseja nenhum familiar apreciando sua boca a atacar as bolachas. É um momento privado, entre ele, as bolachas e o requeijão. Que o silêncio, a escuridão e a inércia continuem. Que fiquem todos em seus quartos, dormindo, dormindo.
Mas é preciso pôr mais intrusas. As bolachas não estão legais. Elas têm recheio doce, o que não permite sentir o gosto do requeijão. É preciso contraste. O salgado e o doce brigando. E convida para a orgia as torradas. Que estão velhas, é verdade, mas vêm a calhar não como idosas, mas como experientes cortesãs.
E assim ele fica, a provar de uma e de outra, alternadamente, sempre com o requeijão à mão, atacando ora a bolacha, ora a torrada, degustando-as, até que o nervosismo se esfrie e fique tudo calmo outra vez.
Toma uns goles de refrigerante de uva - como se fosse vinho - e pronto, hora de dormir.

03/01/2005

Arrumando o quarto

Primeiro dia útil do ano, e realmente foi útil. Tirei a tarde para limpar meu quarto - e, de quebra, tirar muitas coisas que já deveriam ter saído daqui.
Saldos: 4 sacos de lixo pequeno e 1 grande; mais espaço no meu cubículo e, portanto, mais área livre pra circulação; alguns espirros; uma nova aparência; e um pouco mais de organização.

01/01/2005

* Primeira música de 2005: Stairway to Heaven. É clichê, mas eu adoro.
* O Reveillon não foi bom. Sem emoção, com dor de barriga e sonolência por causa de uma droga que tomei.
* Mas tudo bem, eu não tava a fim de agito mesmo. Só fiquei chateado por ter chateado uma pessoa querida.
* Mas ela compreende. Espero.
* Nada de promessas para o novo ano. Apenas algumas vontades imediatas.
* Por que tanta comemoração por causa de uma passagem de um dia pro outro?
* Sábado com cara de domigo. De novo.
* Segunda música de 2005: Hey you. Não é clichê, e eu adoro.