14/12/2011

Foto de costas

Gosto de fotos de costas porque:
. por vezes revelam a visão do fotografado, e não do fotógrafo.
. saem da zona do comum, do ordinário, do rotineiro.
. capturam um momento de surpresa e, não raro, parecem despir o assunto de suas possíveis máscaras.
. não possuem aquela coisa abobalhada do forçado sorriso para a câmera.
. possuem uma aura de subjetividade, intimismo e solitude muito própria.
. algumas costas são belas e, não obstante, sempre ficam renegadas ao descaso.

01/12/2011

Suco de abacaxi

Nem só de afetos se denuncia um casal. Pois que aquele era um casal bem discreto. Ele na dele, ela na dela. Mas os indícios sempre ficam no ar, e às vezes uma pista escapa sem querer - mesmo sem mãos dadas, mesmo sem carícias. E eu, desligado a fofocas, deixo pra lá, e nem pego nada no ar.

Mas foi um suco que me encaminhou um pouco mais rumo à certeza - porque a dúvida já havia sido plantada. Um suco de abacaxi de 500ml compartilhado, 2 canudos, e o copo entre os dois. Quem compartilharia um suco senão um casal?

- Aquele menina, é namorada dele?, perguntei a alguém.
- É sim, me responderam.
- Arrá, pensei.

23/11/2011

No que se transformam as pessoas?

No que as pessoas se tornam? Essa pergunta tem me acompanhado os últimos tempos por simplesmente me assustar diante das transformações pelas quais pessoas conhecidas a longo prazo têm passado. Acho assustador. Porque, no fundo, a vontade é que uns e outros fiquem sempre do mesmo jeito - especialmente quando fomos e desejamos retornar, e esse desejo é acompanhado de encontrar tudo, ou quase tudo, do jeito que foi deixado. Nem melhor, nem pior.

O pior é saber que as pessoas são dinâmicas, principalmente os amigos, que, em constante ebulição, mudam de emprego, de estudos, de ramos de atuação, de companheiros, gostos musicais e ambiente sociais. Mudam de opinião também, mudam de telefone, de endereço, de estado civil, de cidade e estado, às vezes até de país. Mudam a própria temporalidade, a inteligência também, mudam o jeito de ser e de se vestir, de posar para fotos, de se enquadrar e de se deixar enquadrar. Muda tudo, às vezes até o que nutria as relações - que nada é infinito, tudo precisa ser cultivado.

No que se transformam as pessoas? Complicado mesmo não é não saber essa resposta. Complicado é não saber se olhar e se perguntar: e eu, no que me transformo?

07/11/2011

Um anúncio bom

Dois anos atrás, me meti numa seleção de mestrado. Era novembro, e Salvador fazia um calor infernal. Acho que nunca havia sentido uma quentura daquela. O Ceará é um forno, é verdade, e eu até conhecia o tempo dos infernos de Sobral e Teresina. Mas sentir-se cozido ao invés de assado ou frito é outra coisa. Pois era assim que me sentia naquele úmido e calorento mês de novembro de 2009.

A sensação era de panela de pressão. Dupla, triplamente pressão. A situação era toda estressante, a tensão estava nas minhas costas sob a forma de mochila. Tudo sufocava: o medo do fracasso, o nervosismo e o calor, principalmente.

...

Dois anos se passaram e esse novembro de 2011 já não está tão quente assim. Algumas nuvens vão tampando o céu e a temperatura varia com cautela. Mas no geral, nada de calor. Tem chovido bastante, com algumas pausas aqui e acolá. Como, aliás, se a cidade toda precisasse ser lavada.

...

Amanhã é outra entrevista, agora para doutorado. É um passo grande, mas bem sei que posso dá-lo. A situação já é outra. Não só o clima mudou, como também o modo de enxergar as coisas, a confiança, as perspectivas. É engraçado encarar a transformação, o crescimento, os erros e acertos dados ao longo desses anos tão intensos.

O que eu espero de amanhã? Sinceramente, não é sorte ou coisa assim. Só espero que o tempo fique tal como está hoje, e não como há dois anos. Que não seja aquela panela de pressão fazendo bolhas brotarem da pele. Que não tenha aquele sol quente queimando os braços. Que não molhe a camisa inteira, nem faça pingos caírem da testa. Só quero o tempo como um anúncio bom.

02/11/2011

No feriado, nem café salva

Há de se compreender que feriados não são apenas institucionalizações, mas um complexo estado de espírito. Nessas situações, corpo e mente não funcionam do modo para os quais os programamos antecipadamente. "Vou fazer isso", "vou concluir aquilo", por exemplo, não passam de divagações nesses contextos. Há de se convir que guardamos uma intimista relação com aquilo que nos cerca. Não somos seres desambientados, pois: sugamos o movimento e a sensação exteriores, somos influenciáveis, moldáveis, conduzíveis, e toda nossa obstinação, toda nossa capacidade de racionalizar se perde diante da ausência de movimento lá fora.

É claro que o contrário também pode servir: ao invés de usar o feriado como um descanso, aproveitá-lo como oportunidade de adiantar nosso trabalho (e adiantar aqui serve até para todas aquelas coisas que já estão atrasadas). Mas hoje exatamente não é bem o dia pra isso. Nesse 02 de novembro, finados, me sinto mais letárgico que vívido. Ainda assim, assumo também, algumas fornadas vão sair. Ou pelo menos precisam sair.

29/10/2011

Preparação estética

Em outro momento, dizia que nem sempre estamos preparados para algumas obras - naquele caso, livros. E o mesmo para discos? Veja que agora pergunto, não afirmo nem trato como axioma.

Apesar da incerteza, tudo indica que sim. Álbuns musicais são coisas complexas. Cresci lendo bons livros - mais por obrigação do colégio que por gosto ou influência familiar, confesso - mas não tive uma boa educação sonora. É complicado, ao menos para mim, desacelerar e ouvir discos inteiros, do começo ao fim. Fico impressionado com quem faz isso, e até sinto certa inveja de quem tem essa capacidade. Não é pra mim.

Mas a questão aqui não é tanto a ter a paciência suficiente de deixar o álbum rolar, mas de estar preparado para ele, para os artistas e para as mensagens - o que é dito, como é dito, com que intenção.

Me pego há dois dias ouvindo um disco de 12 anos atrás. O ouvi muito naquela época e, de repente, me dá na telha de ouvir agora de novo. É engraçada a obsessão repentina, porque não o faço por admiração ou gosto pela banda - não consigo, por exemplo, reconhecer grandes qualidades nela, embora não pense que essa seja uma condição para a fruição estética da obra.

O que me faz ouvir a tal obra? É uma pergunta sem respostas, tanto quanto não sei de fato se é preciso estar preparado para certos discos. Poderia, assim, dizer que precisava estar preparado àquela época - o que bem pode ser verdade. Mas essa talvez seja uma consideração muito falha. E se ainda hoje não me sinto preparado para ela?

29/09/2011

Cama de gato

Deveria ter vergonha de alguns posicionamentos meus. Não do posicionamento, mas da maneira como lido com eles. E, bem, até tenho um pouco, na verdade, mas pelo visto não tanto assim a ponto de escondê-los. Arreganhemo-los, então.

Lá se encontrava minha pessoa, um perfeito médio burguês, pseudomarxista, meio de esquerda, meio intelectual, jantando e assistindo ao Jornal Nacional. William e Fátima, um dos casais-perfeição da rede do plim-plim, davam notícias importantíssimas sobre a possível moratória dos EUA, os acordos dentre republicanos e democratas, a posição desconfortável de Obama, os jogos de uns e de outros e, por fim, o que realmente havia sido acertado - o que nem vem ao caso agora, mesmo porque fiz questão de esquecer também.

Eu poderia ser cínico o suficiente para dizer "e eu com isso". Mas sei que os pauzinhos que mexem lá acabam reverberando por aqui. E eu bem deveria estar preocupado com isso, da mesma forma como deveria ter ficado penoso e tudo mais em relação aos problemas nucleares em Fukushima, dos quais se falou um pouco depois, ou até revoltado sobre a situação na Líbia, ou ainda chocado com os atentados na Noruega. Contrariando as expectativas quanto à minha performance, apenas continuo tomando minha sopa com uma cara de "próxima notícia, por favor". O impacto das boas novas porém não tão boas é tamanho que já está tudo anestesiado - o corpo, a mente, o coração. O pior de tudo, entretanto, não é meu descaso para o ocorre com o planeta, mas pensar no meu papel de ser-no-mundo enquanto nele estou.

Se ao menos morasse em Marte ou algo assim, ainda se justificaria essa apatia. Mas não moro. Ninguém mora.

Ora, que pouco depois do tal jornal, iria lá me dedicar àquilo que é centro das minhas atenções há muito. E, sem já me importar tanto assim para a qualidade e nas decorrências do meu presente trabalho, fico pensando se ele é assim tão importante a ponto de ser realizado. Pois que recebo dinheiro do governo para produzir algo relevante sobre outra coisa relevante, e no momento da notícia, nada parece mais relevante que o risco de calote americano. A impressão que dá é que um rombo nas finanças do Tio Sam é tão perigoso quanto um buraco negro criado instantaneamente em meio ao Grand Canyon. Mesmo porque o jornalismo, o bom jornalismo, só se ocupa de assuntos importantes, cruciais. Até as fofocas são relevantes. É tudo efêmero, de moratórias à bunda da irmã da princesa, mas é tudo relevante. E eu aqui, me ocupando com algo que meia dúzia de indivíduos entende de mal a pior - eu incluso. Pelo menos não é efêmero.

Mas é bem verdade que nem tudo está plenamente congelado. Ao ver notícias sobre o descaso do Cid Gomes para com os professores da rede municipal ou sobre a calamidade iminente acerca da usina de Belo Monte, devo dizer: ainda há choque, mas só torço para que o mundo dê fim a si mesmo, ou pelo menos consiga exterminar o homem. A gente não tem mais remédio. Ou melhor, poderíamos ser o próprio fármaco, mas somos excessivos demais para darmos conta de nossa própria proteção. Somos venenosos. Por certo há um quê de blasé nessa história toda, um foda-se arrogante mesmo. Talvez um dia haja tempo e/ou energia suficientes para que eu me volte àquilo que é relevante. Por enquanto, não há como negar: abrir a janela e olhar para o mundo é apenas uma forma de retornar a si mesmo. Algo como "vou fechar a cortina e voltar a dormir". Tá tudo errado e só quero acordar quando consertarem a bagunça toda.

E, claro, perceba-se o descaso em não querer consertar também. Mas, no fundo, quero.

16/09/2011

Retirante, o verdadeiro cosmopolita

Às vezes olho pra trás e compreendo que meu lugar nunca fui ali. Se sempre me senti um "cidadão do mundo", se sempre achei frívola qualquer tentativa de estabelecer fronteiras meramente virtuais, é porque também nunca vi esse ou aquele território como digno de fixação - seja física ou simbólica - o que nos leva a um olhar de mistura, conurbação, indefinições e borragens em geral.

Lançar um olhar para Fortaleza hoje me faz pensar em como ela está se tornando um pouco de arrogante - a exemplo de certas Venezas brasileiras. Há no ar um corrente discurso católico de "somos todos irmãos", mas bate-se no peito com orgulho para se dizer quem é, e usa-se nessa porrada uma força tão grande quanto aquela aplicada para fincar estacas no chão nos processos mais improvisados de demarcação de terra. Parece até que o espírito do sertanejo não saiu do transgressor corpo urbano - o que talvez até seja bom, pois nos lembra um pouco do que somos, de onde viemos.

Acontece que, apesar da boa intenção da fraternidade, não passamos mesmo de um bando de nazistas a procura de seu Hitler, e a formação dos grupinhos, tribos ou panelinhas urbanas é bem sintomática dessa busca. O termo "coletivo" parece designar essa massa fascinante (mas fascinada jamais, porque sua cultura impede!): não é uma empresa, em formas tradicionais, tampouco é socialista - não venha me dizer que um consumidor de Heineken ou Chili Beans estampa com seriedade o símbolo da foice e do martelo; além disso, seus membros são realizadores e não autores, porque esse termo nos remete ao típico (e defasado) modelo de produção e exploração de conteúdo do século XX - e esses gênios, esses vanguardistas da arte contemporânea são qualquer coisa de pós. E nesse passo blasé - uma coisa meio "estou sempre à frente mas não ligo" ou "ai mamãe, como sou cult" - vão constituindo, enquanto coletivos não tão coletivistas, aqueles clustters ao redor dos quais reza e baba a massa de fãs, essa sim ignorante e fascinada.

O mais impiedoso, entretranto, não é bem o totalitarismo nem tão existente (ou existente, mas disfarçado) nesses círculos, mas sim sua própria caracterização de círculo: grosseiramente, ninguém entra e ninguém sai. Fazer parte de um coletivo é tão estonteante quanto diametralmente oposto o é não fazer parte. Ou se insere nos grupinhos da moda ou se lamenta sem previsões de fim. Porque talvez seja justamente isto que me faz ver que o Ceará não era exatamente o meu lugar: ter entendido que as geografias invisíveis daquela terra eram bem mais fortes que as distâncias físicas impostas pela pequena imensidão do mundo. Ora, quem não nasceu pra Farras na Casa Alheia ou Clube do Vaqueiro, nunca vai chegar a ser um nome de peso autopatrocinado dentre a classe média embasbacada de Fortaleza.

Prefiro, pois, carregar a sina que acompanha há tempos os cearenses: ser um pequeno, humilde e eterno retirante em busca de seu lugar.

01/09/2011

O insubstituível ou a essência das coisas

Já falei em outro momento aqui mesmo como os objetos fazem falta, cada qual à sua maneira. Na ocasião, falava de como a ausência de um simples espelho imprimia uma interrogação sobre mim, a ponto de não saber exatamente a quantas andava meu rosto. Àquela época, sem espelho e com preguiça de sair para comprar, a solução acabava morando de aluguel entre uma coisa e outra: a tela do computador, da tv ou do celular, uma janela de carro mais escura e até uma panela bem polida podiam me dar aquilo do que eu estava desprovido: mais que um reflexo, mas também uma reflexão sobre minha identidade.

E a todo momento sinto falta de certas coisas e das coisas certas. A constatação é duplamente estranha, não só pela ideia de certo mas pela utilização específica de uma coisa e não de outra. Comecemos por essa parte, então: há coisas que são substituíveis, enquanto outras têm uma qualidade ímpar. Posso trocar uma caneta por outra, um computador por outro, um copo por outro. Há pouco quebrei mais um prato (eles vivem se desvencilhando das minhas mãos, ora), mas isso não faz a menor falta justamente pelo valor de unicidade que eles não têm. São substituíveis, portanto. Troco de prato, e se quebrarem todos, compro novos.

A coisa começa a se complicar quando vivemos atrelados a um mundo de simulações. Não tenho uma calculadora por perto, não da forma como aprendi que ela é, mas ao mesmo tempo tenho 4. Duas delas em celulares, duas em sistemas operacionais. São calculadoras porque calculam, fazem contas, computam algo. Não têm a mesma materialidade das calculadoras tradicionais (de plástico ou similares), mas funcionam, fazem o que devem fazer. Ainda assim, entretanto, causam estranheza, talvez pela dificuldade de digitar os números no teclado do notebook ou na tela touch do celular. Há algo de dificultoso em ambas as formas, e nem estou bem certo de que essa é uma querela de gerações.

Pelo mesmo caminho vão editores de texto ou blocos de nota. Ora, se a cultura da interface se caracteriza, dentre outras coisas, justamente por ser uma metáfora da vida fora da tela, nada mais sensato que se utilizar de elementos imitativos daquilo a que estamos acostumados. O bloco de notas, assim, pela sua praticidade e versatilidade parece perfeito: tomam-se notas, escrevem-se pequenos textos, programa-se até. Mas, definitivamente, não tem a mesma riqueza que uma folha de papel em branco. Alguém já disse, muito sabiamente, que não fazia esculturas; elas sempre estiveram ali, no mármore, e o que o indivíduo fazia era tão somente retirar o excesso de material até que a forma oculta se revelasse. E é mais ou menos assim com a folha em branco: nada está lá, mas tudo está - virtualmente, mas está. Cabe ao grafite ou à caneta desvelar, camada a camada, o texto, o desenho, os rabiscos que se podem encontrar.

É também estranho falar sobre um uso correto das coisas, como se fosse claro que os objetos são criados para que tenham um fim específico e nenhum outro mais. No fundo, a questão é terrível mesmo, meio que sem solução: há uma essência nos objetos ou eles só se constituem como tal a partir de seu uso? Já falei há pouco que o bloco de notas do Windows, por exemplo, serve para tomar notas, mas é possível usá-lo para criar ou editar softwares inteiros só com ele. E isso os faz ambientes de desenvolvimento? O próprio computador no qual escrevo esse texto por vezes chega a impressionantes 80 e poucos graus centígrados. E isso o faz ser uma frigideira?

No fundo, tudo isso veio de uma constatação desorientadora: da mesma forma como o espelho me fez falta, um caderno de notas (e não bloco) também o faz. Tenho 3 blocos de nota grandes e um 1 pequeno. Embora tenham a mesma função - servir papéis para o rabisco de notas - nenhum consegue ter a mesma aura que um caderninho possui. (E talvez seja esse um dos motivos pelos quais pessoas cool gostem tanto de Moleskines). Mas não só a aura: também a praticidade, a facilidade de uso, a forma concisa, fechada, blocada. Arrancam-se folhas do bloco com uma facilidade que nos faz pensar: em breve, deixará de ser um bloco para se tornar um conjunto disperso de folhas soltas. Porque esse ponto parece bem sensato: não se pode falar de uma essência sem uma forma nem de uma forma sem conteúdo - como, afinal, seria um bloco de notas se as folhas de papel não estivessem juntas?


17/08/2011

Sem lugar para introspecção

Por vezes leva um bom tempo até que você passe a entender a relação entre você mesmo e a cidade em que você vive. Vamos a algumas constatações: não há lugar para introspecção em Salvador. A palavra parece ter sido riscada do dicionário baiano. Mais uma vez, não que seja bom ou ruim a priori, mas é o que se vê por aqui. Notemos:
  • Pessoas falam alto no meio da rua, como se todos os demais transeuntes precisassem de fato saber do que se trata. Bem, frisemos que uma conversa até envolve mais de uma pessoa, mas as praças não precisam virar ágoras. Nesses casos, bom senso é um ponto misterioso demais, intocável até.
  • Como se não fosse suficiente saber o teor de um diálogo, às vezes nos é dada a oportunidade de saber tudo sobre o monólogo do cidadão. Sim, porque não raro é possível encontrar um indivíduo reclamando, elogiando, gritando sozinho, falando para todos e para ninguém ao mesmo tempo. E quanto mais ignorado, mais ele fala.
  • Nas zonas turísticas, você é abordado da maneira mais agressiva possível por ambulantes. Não há respeito pelo espaço alheio, e a invasão é tanta a ponto de chegarmos ao contato físico - se der bobeira, eles amarram uma fitinha do Bonfim made in São Paulo em você e aí já era. Brasileiros não têm lá muito essa frescura, ok, mas e os gringos?
  • Ressalte-se, quanto ao ponto anterior, que, quanto maior sua educação, maior o nível de invasão. Coisas como "não, obrigado" resultam numa intensificação da abordagem. Esnobar, dizer não com a cabeça sem nem abrir a boca, fazer cara de quem não está nem aí pra aquela porra de artesanato, tratar como cachorro de rua, enfim, no geral são atos que conseguem afastar vendedores. Um "vai te fuder" meio que lhe dá imunidade para todo o sempre.
  • Não bastasse ambulantes nos pontos turísticos, há ainda aqueles que entram no ônibus com o cinismo de quem precisa ganhar o sustento do dia: "desculpa incomodar a viagem de vocês, mas estou aqui trazendo...". Não desculpo não e vai calando a boca logo. Deixa eu curtir esse engarrafamento na minha, porra.
  • E, claro, não é possível deixar de lado aqueles que adoram socializar sua música. Sempre tem alguém no ônibus ouvindo uma swingueira nojenta de dois ou três acordes. Fone de ouvido, para essas criaturas, é algo meio alienígena. Deve dar câncer, só pode.
Está claro por que introspecção é algo que não existe no dialeto baianês?