Em outro momento, dizia que nem sempre estamos preparados para algumas obras - naquele caso, livros. E o mesmo para discos? Veja que agora pergunto, não afirmo nem trato como axioma.
Apesar da incerteza, tudo indica que sim. Álbuns musicais são coisas complexas. Cresci lendo bons livros - mais por obrigação do colégio que por gosto ou influência familiar, confesso - mas não tive uma boa educação sonora. É complicado, ao menos para mim, desacelerar e ouvir discos inteiros, do começo ao fim. Fico impressionado com quem faz isso, e até sinto certa inveja de quem tem essa capacidade. Não é pra mim.
Mas a questão aqui não é tanto a ter a paciência suficiente de deixar o álbum rolar, mas de estar preparado para ele, para os artistas e para as mensagens - o que é dito, como é dito, com que intenção.
Me pego há dois dias ouvindo um disco de 12 anos atrás. O ouvi muito naquela época e, de repente, me dá na telha de ouvir agora de novo. É engraçada a obsessão repentina, porque não o faço por admiração ou gosto pela banda - não consigo, por exemplo, reconhecer grandes qualidades nela, embora não pense que essa seja uma condição para a fruição estética da obra.
O que me faz ouvir a tal obra? É uma pergunta sem respostas, tanto quanto não sei de fato se é preciso estar preparado para certos discos. Poderia, assim, dizer que precisava estar preparado àquela época - o que bem pode ser verdade. Mas essa talvez seja uma consideração muito falha. E se ainda hoje não me sinto preparado para ela?
29/10/2011
29/09/2011
Cama de gato
Deveria ter vergonha de alguns posicionamentos meus. Não do posicionamento, mas da maneira como lido com eles. E, bem, até tenho um pouco, na verdade, mas pelo visto não tanto assim a ponto de escondê-los. Arreganhemo-los, então.
Lá se encontrava minha pessoa, um perfeito médio burguês, pseudomarxista, meio de esquerda, meio intelectual, jantando e assistindo ao Jornal Nacional. William e Fátima, um dos casais-perfeição da rede do plim-plim, davam notícias importantíssimas sobre a possível moratória dos EUA, os acordos dentre republicanos e democratas, a posição desconfortável de Obama, os jogos de uns e de outros e, por fim, o que realmente havia sido acertado - o que nem vem ao caso agora, mesmo porque fiz questão de esquecer também.
Eu poderia ser cínico o suficiente para dizer "e eu com isso". Mas sei que os pauzinhos que mexem lá acabam reverberando por aqui. E eu bem deveria estar preocupado com isso, da mesma forma como deveria ter ficado penoso e tudo mais em relação aos problemas nucleares em Fukushima, dos quais se falou um pouco depois, ou até revoltado sobre a situação na Líbia, ou ainda chocado com os atentados na Noruega. Contrariando as expectativas quanto à minha performance, apenas continuo tomando minha sopa com uma cara de "próxima notícia, por favor". O impacto das boas novas porém não tão boas é tamanho que já está tudo anestesiado - o corpo, a mente, o coração. O pior de tudo, entretanto, não é meu descaso para o ocorre com o planeta, mas pensar no meu papel de ser-no-mundo enquanto nele estou.
Se ao menos morasse em Marte ou algo assim, ainda se justificaria essa apatia. Mas não moro. Ninguém mora.
Ora, que pouco depois do tal jornal, iria lá me dedicar àquilo que é centro das minhas atenções há muito. E, sem já me importar tanto assim para a qualidade e nas decorrências do meu presente trabalho, fico pensando se ele é assim tão importante a ponto de ser realizado. Pois que recebo dinheiro do governo para produzir algo relevante sobre outra coisa relevante, e no momento da notícia, nada parece mais relevante que o risco de calote americano. A impressão que dá é que um rombo nas finanças do Tio Sam é tão perigoso quanto um buraco negro criado instantaneamente em meio ao Grand Canyon. Mesmo porque o jornalismo, o bom jornalismo, só se ocupa de assuntos importantes, cruciais. Até as fofocas são relevantes. É tudo efêmero, de moratórias à bunda da irmã da princesa, mas é tudo relevante. E eu aqui, me ocupando com algo que meia dúzia de indivíduos entende de mal a pior - eu incluso. Pelo menos não é efêmero.
Mas é bem verdade que nem tudo está plenamente congelado. Ao ver notícias sobre o descaso do Cid Gomes para com os professores da rede municipal ou sobre a calamidade iminente acerca da usina de Belo Monte, devo dizer: ainda há choque, mas só torço para que o mundo dê fim a si mesmo, ou pelo menos consiga exterminar o homem. A gente não tem mais remédio. Ou melhor, poderíamos ser o próprio fármaco, mas somos excessivos demais para darmos conta de nossa própria proteção. Somos venenosos. Por certo há um quê de blasé nessa história toda, um foda-se arrogante mesmo. Talvez um dia haja tempo e/ou energia suficientes para que eu me volte àquilo que é relevante. Por enquanto, não há como negar: abrir a janela e olhar para o mundo é apenas uma forma de retornar a si mesmo. Algo como "vou fechar a cortina e voltar a dormir". Tá tudo errado e só quero acordar quando consertarem a bagunça toda.
E, claro, perceba-se o descaso em não querer consertar também. Mas, no fundo, quero.
Lá se encontrava minha pessoa, um perfeito médio burguês, pseudomarxista, meio de esquerda, meio intelectual, jantando e assistindo ao Jornal Nacional. William e Fátima, um dos casais-perfeição da rede do plim-plim, davam notícias importantíssimas sobre a possível moratória dos EUA, os acordos dentre republicanos e democratas, a posição desconfortável de Obama, os jogos de uns e de outros e, por fim, o que realmente havia sido acertado - o que nem vem ao caso agora, mesmo porque fiz questão de esquecer também.
Eu poderia ser cínico o suficiente para dizer "e eu com isso". Mas sei que os pauzinhos que mexem lá acabam reverberando por aqui. E eu bem deveria estar preocupado com isso, da mesma forma como deveria ter ficado penoso e tudo mais em relação aos problemas nucleares em Fukushima, dos quais se falou um pouco depois, ou até revoltado sobre a situação na Líbia, ou ainda chocado com os atentados na Noruega. Contrariando as expectativas quanto à minha performance, apenas continuo tomando minha sopa com uma cara de "próxima notícia, por favor". O impacto das boas novas porém não tão boas é tamanho que já está tudo anestesiado - o corpo, a mente, o coração. O pior de tudo, entretanto, não é meu descaso para o ocorre com o planeta, mas pensar no meu papel de ser-no-mundo enquanto nele estou.
Se ao menos morasse em Marte ou algo assim, ainda se justificaria essa apatia. Mas não moro. Ninguém mora.
Ora, que pouco depois do tal jornal, iria lá me dedicar àquilo que é centro das minhas atenções há muito. E, sem já me importar tanto assim para a qualidade e nas decorrências do meu presente trabalho, fico pensando se ele é assim tão importante a ponto de ser realizado. Pois que recebo dinheiro do governo para produzir algo relevante sobre outra coisa relevante, e no momento da notícia, nada parece mais relevante que o risco de calote americano. A impressão que dá é que um rombo nas finanças do Tio Sam é tão perigoso quanto um buraco negro criado instantaneamente em meio ao Grand Canyon. Mesmo porque o jornalismo, o bom jornalismo, só se ocupa de assuntos importantes, cruciais. Até as fofocas são relevantes. É tudo efêmero, de moratórias à bunda da irmã da princesa, mas é tudo relevante. E eu aqui, me ocupando com algo que meia dúzia de indivíduos entende de mal a pior - eu incluso. Pelo menos não é efêmero.
Mas é bem verdade que nem tudo está plenamente congelado. Ao ver notícias sobre o descaso do Cid Gomes para com os professores da rede municipal ou sobre a calamidade iminente acerca da usina de Belo Monte, devo dizer: ainda há choque, mas só torço para que o mundo dê fim a si mesmo, ou pelo menos consiga exterminar o homem. A gente não tem mais remédio. Ou melhor, poderíamos ser o próprio fármaco, mas somos excessivos demais para darmos conta de nossa própria proteção. Somos venenosos. Por certo há um quê de blasé nessa história toda, um foda-se arrogante mesmo. Talvez um dia haja tempo e/ou energia suficientes para que eu me volte àquilo que é relevante. Por enquanto, não há como negar: abrir a janela e olhar para o mundo é apenas uma forma de retornar a si mesmo. Algo como "vou fechar a cortina e voltar a dormir". Tá tudo errado e só quero acordar quando consertarem a bagunça toda.
E, claro, perceba-se o descaso em não querer consertar também. Mas, no fundo, quero.
16/09/2011
Retirante, o verdadeiro cosmopolita
Às vezes olho pra trás e compreendo que meu lugar nunca fui ali. Se sempre me senti um "cidadão do mundo", se sempre achei frívola qualquer tentativa de estabelecer fronteiras meramente virtuais, é porque também nunca vi esse ou aquele território como digno de fixação - seja física ou simbólica - o que nos leva a um olhar de mistura, conurbação, indefinições e borragens em geral.
Lançar um olhar para Fortaleza hoje me faz pensar em como ela está se tornando um pouco de arrogante - a exemplo de certas Venezas brasileiras. Há no ar um corrente discurso católico de "somos todos irmãos", mas bate-se no peito com orgulho para se dizer quem é, e usa-se nessa porrada uma força tão grande quanto aquela aplicada para fincar estacas no chão nos processos mais improvisados de demarcação de terra. Parece até que o espírito do sertanejo não saiu do transgressor corpo urbano - o que talvez até seja bom, pois nos lembra um pouco do que somos, de onde viemos.
Acontece que, apesar da boa intenção da fraternidade, não passamos mesmo de um bando de nazistas a procura de seu Hitler, e a formação dos grupinhos, tribos ou panelinhas urbanas é bem sintomática dessa busca. O termo "coletivo" parece designar essa massa fascinante (mas fascinada jamais, porque sua cultura impede!): não é uma empresa, em formas tradicionais, tampouco é socialista - não venha me dizer que um consumidor de Heineken ou Chili Beans estampa com seriedade o símbolo da foice e do martelo; além disso, seus membros são realizadores e não autores, porque esse termo nos remete ao típico (e defasado) modelo de produção e exploração de conteúdo do século XX - e esses gênios, esses vanguardistas da arte contemporânea são qualquer coisa de pós. E nesse passo blasé - uma coisa meio "estou sempre à frente mas não ligo" ou "ai mamãe, como sou cult" - vão constituindo, enquanto coletivos não tão coletivistas, aqueles clustters ao redor dos quais reza e baba a massa de fãs, essa sim ignorante e fascinada.
O mais impiedoso, entretranto, não é bem o totalitarismo nem tão existente (ou existente, mas disfarçado) nesses círculos, mas sim sua própria caracterização de círculo: grosseiramente, ninguém entra e ninguém sai. Fazer parte de um coletivo é tão estonteante quanto diametralmente oposto o é não fazer parte. Ou se insere nos grupinhos da moda ou se lamenta sem previsões de fim. Porque talvez seja justamente isto que me faz ver que o Ceará não era exatamente o meu lugar: ter entendido que as geografias invisíveis daquela terra eram bem mais fortes que as distâncias físicas impostas pela pequena imensidão do mundo. Ora, quem não nasceu pra Farras na Casa Alheia ou Clube do Vaqueiro, nunca vai chegar a ser um nome de peso autopatrocinado dentre a classe média embasbacada de Fortaleza.
Prefiro, pois, carregar a sina que acompanha há tempos os cearenses: ser um pequeno, humilde e eterno retirante em busca de seu lugar.
Lançar um olhar para Fortaleza hoje me faz pensar em como ela está se tornando um pouco de arrogante - a exemplo de certas Venezas brasileiras. Há no ar um corrente discurso católico de "somos todos irmãos", mas bate-se no peito com orgulho para se dizer quem é, e usa-se nessa porrada uma força tão grande quanto aquela aplicada para fincar estacas no chão nos processos mais improvisados de demarcação de terra. Parece até que o espírito do sertanejo não saiu do transgressor corpo urbano - o que talvez até seja bom, pois nos lembra um pouco do que somos, de onde viemos.
Acontece que, apesar da boa intenção da fraternidade, não passamos mesmo de um bando de nazistas a procura de seu Hitler, e a formação dos grupinhos, tribos ou panelinhas urbanas é bem sintomática dessa busca. O termo "coletivo" parece designar essa massa fascinante (mas fascinada jamais, porque sua cultura impede!): não é uma empresa, em formas tradicionais, tampouco é socialista - não venha me dizer que um consumidor de Heineken ou Chili Beans estampa com seriedade o símbolo da foice e do martelo; além disso, seus membros são realizadores e não autores, porque esse termo nos remete ao típico (e defasado) modelo de produção e exploração de conteúdo do século XX - e esses gênios, esses vanguardistas da arte contemporânea são qualquer coisa de pós. E nesse passo blasé - uma coisa meio "estou sempre à frente mas não ligo" ou "ai mamãe, como sou cult" - vão constituindo, enquanto coletivos não tão coletivistas, aqueles clustters ao redor dos quais reza e baba a massa de fãs, essa sim ignorante e fascinada.
O mais impiedoso, entretranto, não é bem o totalitarismo nem tão existente (ou existente, mas disfarçado) nesses círculos, mas sim sua própria caracterização de círculo: grosseiramente, ninguém entra e ninguém sai. Fazer parte de um coletivo é tão estonteante quanto diametralmente oposto o é não fazer parte. Ou se insere nos grupinhos da moda ou se lamenta sem previsões de fim. Porque talvez seja justamente isto que me faz ver que o Ceará não era exatamente o meu lugar: ter entendido que as geografias invisíveis daquela terra eram bem mais fortes que as distâncias físicas impostas pela pequena imensidão do mundo. Ora, quem não nasceu pra Farras na Casa Alheia ou Clube do Vaqueiro, nunca vai chegar a ser um nome de peso autopatrocinado dentre a classe média embasbacada de Fortaleza.
Prefiro, pois, carregar a sina que acompanha há tempos os cearenses: ser um pequeno, humilde e eterno retirante em busca de seu lugar.
01/09/2011
O insubstituível ou a essência das coisas
Já falei em outro momento aqui mesmo como os objetos fazem falta, cada qual à sua maneira. Na ocasião, falava de como a ausência de um simples espelho imprimia uma interrogação sobre mim, a ponto de não saber exatamente a quantas andava meu rosto. Àquela época, sem espelho e com preguiça de sair para comprar, a solução acabava morando de aluguel entre uma coisa e outra: a tela do computador, da tv ou do celular, uma janela de carro mais escura e até uma panela bem polida podiam me dar aquilo do que eu estava desprovido: mais que um reflexo, mas também uma reflexão sobre minha identidade.
E a todo momento sinto falta de certas coisas e das coisas certas. A constatação é duplamente estranha, não só pela ideia de certo mas pela utilização específica de uma coisa e não de outra. Comecemos por essa parte, então: há coisas que são substituíveis, enquanto outras têm uma qualidade ímpar. Posso trocar uma caneta por outra, um computador por outro, um copo por outro. Há pouco quebrei mais um prato (eles vivem se desvencilhando das minhas mãos, ora), mas isso não faz a menor falta justamente pelo valor de unicidade que eles não têm. São substituíveis, portanto. Troco de prato, e se quebrarem todos, compro novos.
A coisa começa a se complicar quando vivemos atrelados a um mundo de simulações. Não tenho uma calculadora por perto, não da forma como aprendi que ela é, mas ao mesmo tempo tenho 4. Duas delas em celulares, duas em sistemas operacionais. São calculadoras porque calculam, fazem contas, computam algo. Não têm a mesma materialidade das calculadoras tradicionais (de plástico ou similares), mas funcionam, fazem o que devem fazer. Ainda assim, entretanto, causam estranheza, talvez pela dificuldade de digitar os números no teclado do notebook ou na tela touch do celular. Há algo de dificultoso em ambas as formas, e nem estou bem certo de que essa é uma querela de gerações.
Pelo mesmo caminho vão editores de texto ou blocos de nota. Ora, se a cultura da interface se caracteriza, dentre outras coisas, justamente por ser uma metáfora da vida fora da tela, nada mais sensato que se utilizar de elementos imitativos daquilo a que estamos acostumados. O bloco de notas, assim, pela sua praticidade e versatilidade parece perfeito: tomam-se notas, escrevem-se pequenos textos, programa-se até. Mas, definitivamente, não tem a mesma riqueza que uma folha de papel em branco. Alguém já disse, muito sabiamente, que não fazia esculturas; elas sempre estiveram ali, no mármore, e o que o indivíduo fazia era tão somente retirar o excesso de material até que a forma oculta se revelasse. E é mais ou menos assim com a folha em branco: nada está lá, mas tudo está - virtualmente, mas está. Cabe ao grafite ou à caneta desvelar, camada a camada, o texto, o desenho, os rabiscos que se podem encontrar.
É também estranho falar sobre um uso correto das coisas, como se fosse claro que os objetos são criados para que tenham um fim específico e nenhum outro mais. No fundo, a questão é terrível mesmo, meio que sem solução: há uma essência nos objetos ou eles só se constituem como tal a partir de seu uso? Já falei há pouco que o bloco de notas do Windows, por exemplo, serve para tomar notas, mas é possível usá-lo para criar ou editar softwares inteiros só com ele. E isso os faz ambientes de desenvolvimento? O próprio computador no qual escrevo esse texto por vezes chega a impressionantes 80 e poucos graus centígrados. E isso o faz ser uma frigideira?
No fundo, tudo isso veio de uma constatação desorientadora: da mesma forma como o espelho me fez falta, um caderno de notas (e não bloco) também o faz. Tenho 3 blocos de nota grandes e um 1 pequeno. Embora tenham a mesma função - servir papéis para o rabisco de notas - nenhum consegue ter a mesma aura que um caderninho possui. (E talvez seja esse um dos motivos pelos quais pessoas cool gostem tanto de Moleskines). Mas não só a aura: também a praticidade, a facilidade de uso, a forma concisa, fechada, blocada. Arrancam-se folhas do bloco com uma facilidade que nos faz pensar: em breve, deixará de ser um bloco para se tornar um conjunto disperso de folhas soltas. Porque esse ponto parece bem sensato: não se pode falar de uma essência sem uma forma nem de uma forma sem conteúdo - como, afinal, seria um bloco de notas se as folhas de papel não estivessem juntas?
E a todo momento sinto falta de certas coisas e das coisas certas. A constatação é duplamente estranha, não só pela ideia de certo mas pela utilização específica de uma coisa e não de outra. Comecemos por essa parte, então: há coisas que são substituíveis, enquanto outras têm uma qualidade ímpar. Posso trocar uma caneta por outra, um computador por outro, um copo por outro. Há pouco quebrei mais um prato (eles vivem se desvencilhando das minhas mãos, ora), mas isso não faz a menor falta justamente pelo valor de unicidade que eles não têm. São substituíveis, portanto. Troco de prato, e se quebrarem todos, compro novos.
A coisa começa a se complicar quando vivemos atrelados a um mundo de simulações. Não tenho uma calculadora por perto, não da forma como aprendi que ela é, mas ao mesmo tempo tenho 4. Duas delas em celulares, duas em sistemas operacionais. São calculadoras porque calculam, fazem contas, computam algo. Não têm a mesma materialidade das calculadoras tradicionais (de plástico ou similares), mas funcionam, fazem o que devem fazer. Ainda assim, entretanto, causam estranheza, talvez pela dificuldade de digitar os números no teclado do notebook ou na tela touch do celular. Há algo de dificultoso em ambas as formas, e nem estou bem certo de que essa é uma querela de gerações.
Pelo mesmo caminho vão editores de texto ou blocos de nota. Ora, se a cultura da interface se caracteriza, dentre outras coisas, justamente por ser uma metáfora da vida fora da tela, nada mais sensato que se utilizar de elementos imitativos daquilo a que estamos acostumados. O bloco de notas, assim, pela sua praticidade e versatilidade parece perfeito: tomam-se notas, escrevem-se pequenos textos, programa-se até. Mas, definitivamente, não tem a mesma riqueza que uma folha de papel em branco. Alguém já disse, muito sabiamente, que não fazia esculturas; elas sempre estiveram ali, no mármore, e o que o indivíduo fazia era tão somente retirar o excesso de material até que a forma oculta se revelasse. E é mais ou menos assim com a folha em branco: nada está lá, mas tudo está - virtualmente, mas está. Cabe ao grafite ou à caneta desvelar, camada a camada, o texto, o desenho, os rabiscos que se podem encontrar.
É também estranho falar sobre um uso correto das coisas, como se fosse claro que os objetos são criados para que tenham um fim específico e nenhum outro mais. No fundo, a questão é terrível mesmo, meio que sem solução: há uma essência nos objetos ou eles só se constituem como tal a partir de seu uso? Já falei há pouco que o bloco de notas do Windows, por exemplo, serve para tomar notas, mas é possível usá-lo para criar ou editar softwares inteiros só com ele. E isso os faz ambientes de desenvolvimento? O próprio computador no qual escrevo esse texto por vezes chega a impressionantes 80 e poucos graus centígrados. E isso o faz ser uma frigideira?
No fundo, tudo isso veio de uma constatação desorientadora: da mesma forma como o espelho me fez falta, um caderno de notas (e não bloco) também o faz. Tenho 3 blocos de nota grandes e um 1 pequeno. Embora tenham a mesma função - servir papéis para o rabisco de notas - nenhum consegue ter a mesma aura que um caderninho possui. (E talvez seja esse um dos motivos pelos quais pessoas cool gostem tanto de Moleskines). Mas não só a aura: também a praticidade, a facilidade de uso, a forma concisa, fechada, blocada. Arrancam-se folhas do bloco com uma facilidade que nos faz pensar: em breve, deixará de ser um bloco para se tornar um conjunto disperso de folhas soltas. Porque esse ponto parece bem sensato: não se pode falar de uma essência sem uma forma nem de uma forma sem conteúdo - como, afinal, seria um bloco de notas se as folhas de papel não estivessem juntas?
17/08/2011
Sem lugar para introspecção
Por vezes leva um bom tempo até que você passe a entender a relação entre você mesmo e a cidade em que você vive. Vamos a algumas constatações: não há lugar para introspecção em Salvador. A palavra parece ter sido riscada do dicionário baiano. Mais uma vez, não que seja bom ou ruim a priori, mas é o que se vê por aqui. Notemos:
- Pessoas falam alto no meio da rua, como se todos os demais transeuntes precisassem de fato saber do que se trata. Bem, frisemos que uma conversa até envolve mais de uma pessoa, mas as praças não precisam virar ágoras. Nesses casos, bom senso é um ponto misterioso demais, intocável até.
- Como se não fosse suficiente saber o teor de um diálogo, às vezes nos é dada a oportunidade de saber tudo sobre o monólogo do cidadão. Sim, porque não raro é possível encontrar um indivíduo reclamando, elogiando, gritando sozinho, falando para todos e para ninguém ao mesmo tempo. E quanto mais ignorado, mais ele fala.
- Nas zonas turísticas, você é abordado da maneira mais agressiva possível por ambulantes. Não há respeito pelo espaço alheio, e a invasão é tanta a ponto de chegarmos ao contato físico - se der bobeira, eles amarram uma fitinha do Bonfim made in São Paulo em você e aí já era. Brasileiros não têm lá muito essa frescura, ok, mas e os gringos?
- Ressalte-se, quanto ao ponto anterior, que, quanto maior sua educação, maior o nível de invasão. Coisas como "não, obrigado" resultam numa intensificação da abordagem. Esnobar, dizer não com a cabeça sem nem abrir a boca, fazer cara de quem não está nem aí pra aquela porra de artesanato, tratar como cachorro de rua, enfim, no geral são atos que conseguem afastar vendedores. Um "vai te fuder" meio que lhe dá imunidade para todo o sempre.
- Não bastasse ambulantes nos pontos turísticos, há ainda aqueles que entram no ônibus com o cinismo de quem precisa ganhar o sustento do dia: "desculpa incomodar a viagem de vocês, mas estou aqui trazendo...". Não desculpo não e vai calando a boca logo. Deixa eu curtir esse engarrafamento na minha, porra.
- E, claro, não é possível deixar de lado aqueles que adoram socializar sua música. Sempre tem alguém no ônibus ouvindo uma swingueira nojenta de dois ou três acordes. Fone de ouvido, para essas criaturas, é algo meio alienígena. Deve dar câncer, só pode.
13/07/2011
Sobre o arrependimento
Por mais incrível e irônico que pareça, estas linhas não versam sobre o passado, mas sim sobre seu antagonista-mor: o que ainda está por vir, tão certo de vir que até nome já tem e que, ainda assim, apesar das certezas, é tão incerto quanto aquilo que ainda não veio. Ou seja, tão incerto quanto o é em si.
Pensar em arrependimento denota olhar para trás. De uma maneira ou outra, mesmo que pensemos momentaneamente no futuro, arrepender-se é sempre um movimento de volta. Ah se tivesse sido de outra forma... E estas linhas, que já se tornaram parágrafos, parecem tão paradoxais quanto insustentáveis. Mas é só aparência, porque se se sabe bem do futuro, é porque já se viveu o passado demais para já saber do devir.
Pois vejamos: chega o momento, o dia D ou a hora H. Esse é o momento-ápice, aquele que, se representado graficamente, é o cume de uma dança de linhas num plano cartesiano. Consideremos esse instante como o momento exato de arrependimento. É quando olhamos para trás e pensamos que poderia ter sido diferente. É quando temos vontade de desfazer toda a linha do tempo e reconstruir o enredo da maneira que for possível. Mas nesse nosso movimento paradoxal, é bem possível olhar para o futuro, justamente aquele que vem depois do ponto culminante, mas apenas antes de chegarmos neste - e, portanto, bem antes também de alcançarmos o que está por vir depois. Pois é assim que me sinto, sabendo que ora me arrependerei, que olharei para trás e que, ainda assim, outrora me desarrependerei - mas não se entenda como um arrependimento do arrependimento, mas uma simples volta, um retorno ao estado de origem, como seu eu pudesse, ou viesse a poder, flanar na linha do tempo.
Cabe a pergunta: por que fazer a dita ação que me levará ao arrependimento certeiro? Pode-se dizer "para testar", mas essa escolha seria auto-blasé demais. Ou também "porque, de outra forma, apenas me arrependeria mais ainda". No fundo, a dinâmica parece se dar exclusivamente a partir de uma ordem matemática: a menor perda é o que nos leva ao caminho a ser escolhido. Há, claro, aqueles que se baseiam nas emotividades ou ainda nas espiritualidades. É válido, mas não é o caso. Dessa vez - ou como sempre - tomo por base o cálculo frio e a quase certeza do desarrependimento, ainda que tal frieza me permita ver perfeitamente o futuro arrependimento tão certo quanto o próprio espaço-e-tempo, o próprio futuro, que lhe dará lugar.
Pensar em arrependimento denota olhar para trás. De uma maneira ou outra, mesmo que pensemos momentaneamente no futuro, arrepender-se é sempre um movimento de volta. Ah se tivesse sido de outra forma... E estas linhas, que já se tornaram parágrafos, parecem tão paradoxais quanto insustentáveis. Mas é só aparência, porque se se sabe bem do futuro, é porque já se viveu o passado demais para já saber do devir.
Pois vejamos: chega o momento, o dia D ou a hora H. Esse é o momento-ápice, aquele que, se representado graficamente, é o cume de uma dança de linhas num plano cartesiano. Consideremos esse instante como o momento exato de arrependimento. É quando olhamos para trás e pensamos que poderia ter sido diferente. É quando temos vontade de desfazer toda a linha do tempo e reconstruir o enredo da maneira que for possível. Mas nesse nosso movimento paradoxal, é bem possível olhar para o futuro, justamente aquele que vem depois do ponto culminante, mas apenas antes de chegarmos neste - e, portanto, bem antes também de alcançarmos o que está por vir depois. Pois é assim que me sinto, sabendo que ora me arrependerei, que olharei para trás e que, ainda assim, outrora me desarrependerei - mas não se entenda como um arrependimento do arrependimento, mas uma simples volta, um retorno ao estado de origem, como seu eu pudesse, ou viesse a poder, flanar na linha do tempo.
Cabe a pergunta: por que fazer a dita ação que me levará ao arrependimento certeiro? Pode-se dizer "para testar", mas essa escolha seria auto-blasé demais. Ou também "porque, de outra forma, apenas me arrependeria mais ainda". No fundo, a dinâmica parece se dar exclusivamente a partir de uma ordem matemática: a menor perda é o que nos leva ao caminho a ser escolhido. Há, claro, aqueles que se baseiam nas emotividades ou ainda nas espiritualidades. É válido, mas não é o caso. Dessa vez - ou como sempre - tomo por base o cálculo frio e a quase certeza do desarrependimento, ainda que tal frieza me permita ver perfeitamente o futuro arrependimento tão certo quanto o próprio espaço-e-tempo, o próprio futuro, que lhe dará lugar.
29/06/2011
Tempo bom é o de hoje
Não entendo a filia excessiva que uns e outros têm pelo passado. Fato é que sempre lançamos mão de retóricas para exaltar aquilo de bom que se passou. Oh, como era doce minha infância. Ou bons tempos, aqueles. Fazer uso de um saudosismo tem lá seu valor. Mas tamanho apreço, por vezes, parece se dar precisamente porque a saudade nunca se atualiza em seu próprio perecer. Em outras palavras, o tempo nunca retorna, nem nós mesmos retornamos aos lugares e tempos de outrora. Dada a impossibilidade de reviver o momento, eis a construção de seu valor.
Ora, feito fãs patéticos, bate o desejo de re-situar. O jeito, então, é mobilizar a nós mesmos, porque nem o tempo, nem as coisas, nem as construções vão se mover a nosso bel-prazer, só para nossa satisfação, só para nosso simulacro, nosso faz-de-conta-aberração. Eis que está muito claro: é tudo diferente, absolutamente tudo. Já não se disse que um mesmo homem não entra duas vezes no mesmo rio? Pois esqueçamos essa história de reviver. A história acabou, diria outrém.
Ainda assim, não nego, o passado tem seu valor. Não apenas por ser base fundamental para o presente, mas também por ter sido bom o suficiente para ser plenamente desejado. Que o seja lembrado, então, mas que também se atualize, e por esse caminho, entende-se que há de haver diferenças. Que as valorizemos, também.
O que mais impressiona, em especial nos revivals, nas confraternizações e afins, é a presença de uma dupla confusão ou ilusão. Primeiro: de que o tempo relaciona-se com uma dada homogeneidade. Fala-se de um grupo perfeito, composto por pessoas perfeitas, com uma harmonia perfeita. Porra, não havia nem há perfeição! Os defeitos do passado podem até ter sido consertado mas, senão, só devem mesmo piorar. Segundo: de que nossos elos só são lembrados por conta de qualidades. Todavia, há ligações ruins, péssimas, tenebrosas. Iludimo-nos, achando que reviver as velhas situações não terá qualquer reminiscência do que se passou de mal. Mas terá!
Fora tudo isso, bem, tudo muda, todos mudam. Os indivíduos de outrora, assim como seus lugares e o próprio tempo, já não são mais os mesmos. O porra-louca virou pastor. A santinha engravidou. O CDF virou pagodeiro/axezeiro/forrozeiro. O vagabundo passou no ITA. O metaleiro encontrou Jesus. A hipponga virou paty. A paty virou biscate. O marxista virou empresário. Alguns seguiram seus caminhos, enquanto outros ficaram estagnados. Uns se deram bem, outros só se ferraram. Alguns acertaram, outros só erraram. Uns enriqueceram, outros só encontraram dívidas. Alguns apostaram em rotas diversas, enquanto outros iam, mas vacilavam. Uns souberam criar novas ligações, enquanto outros só pensam nas velhas homogeneidades já falidas. E, dentre atalhos e desvios, alguns entenderam, outros não: aquele tempo era bom, mas tempo bom, de fato, é o de agora. Vivamos, então, que adorar o tempo morto é como estar tão morto e parado no tempo quanto o próprio tempo em si.
Ora, feito fãs patéticos, bate o desejo de re-situar. O jeito, então, é mobilizar a nós mesmos, porque nem o tempo, nem as coisas, nem as construções vão se mover a nosso bel-prazer, só para nossa satisfação, só para nosso simulacro, nosso faz-de-conta-aberração. Eis que está muito claro: é tudo diferente, absolutamente tudo. Já não se disse que um mesmo homem não entra duas vezes no mesmo rio? Pois esqueçamos essa história de reviver. A história acabou, diria outrém.
Ainda assim, não nego, o passado tem seu valor. Não apenas por ser base fundamental para o presente, mas também por ter sido bom o suficiente para ser plenamente desejado. Que o seja lembrado, então, mas que também se atualize, e por esse caminho, entende-se que há de haver diferenças. Que as valorizemos, também.
O que mais impressiona, em especial nos revivals, nas confraternizações e afins, é a presença de uma dupla confusão ou ilusão. Primeiro: de que o tempo relaciona-se com uma dada homogeneidade. Fala-se de um grupo perfeito, composto por pessoas perfeitas, com uma harmonia perfeita. Porra, não havia nem há perfeição! Os defeitos do passado podem até ter sido consertado mas, senão, só devem mesmo piorar. Segundo: de que nossos elos só são lembrados por conta de qualidades. Todavia, há ligações ruins, péssimas, tenebrosas. Iludimo-nos, achando que reviver as velhas situações não terá qualquer reminiscência do que se passou de mal. Mas terá!
Fora tudo isso, bem, tudo muda, todos mudam. Os indivíduos de outrora, assim como seus lugares e o próprio tempo, já não são mais os mesmos. O porra-louca virou pastor. A santinha engravidou. O CDF virou pagodeiro/axezeiro/forrozeiro. O vagabundo passou no ITA. O metaleiro encontrou Jesus. A hipponga virou paty. A paty virou biscate. O marxista virou empresário. Alguns seguiram seus caminhos, enquanto outros ficaram estagnados. Uns se deram bem, outros só se ferraram. Alguns acertaram, outros só erraram. Uns enriqueceram, outros só encontraram dívidas. Alguns apostaram em rotas diversas, enquanto outros iam, mas vacilavam. Uns souberam criar novas ligações, enquanto outros só pensam nas velhas homogeneidades já falidas. E, dentre atalhos e desvios, alguns entenderam, outros não: aquele tempo era bom, mas tempo bom, de fato, é o de agora. Vivamos, então, que adorar o tempo morto é como estar tão morto e parado no tempo quanto o próprio tempo em si.
18/06/2011
TV local
Assistir a alguns programas televisivos locais só serve para dar certeza de que há um controle patético a partir de certas oligarquias. É filho de fulano como apresentador, sobrinho de beltrano como diretor e as mesmas ideias circulando dentro da tv, fora dela, no ar, nas conversas de café e de mesa de bar. Fora a velha e mofada, porém recauchutada, ideologia do forró, a apoteótica estética do play operando massivamente o dinheiro da classe média e o utópico sonho do brega de um dia atingir o patamar do chique. Ou de puxar tal patamar para o próprio lugar, porque ir é sempre mais difícil que ficar.
Não que assistir à MTV, NatGeo, Fox ou HBO sejam sinônimos de alto gosto - também têm seu quê de ridículo. Ora, sob certa ótica, não faz o menor sentido em separar o que é local do que é global. As duas dimensões não existem, se formos observar a velocidade e o movimento dos fluxos comunicacionais invisíveis mas sensíveis. Trata-se, com efeito, tanto das fibras óticas por debaixo do mar quanto das ondas de satélite a cruzarem nosso caminho, ou ainda as redes wi-fi e 3G que nos servem de combustível de exibição celular, e mesmo até aquelas fofoquinhas incontroláveis que nos dão certo conforto à nossa volonté de savoir rotineira. Ora, porra, há um claro diálogo entre o que é tipicamente regional e o que é claramente gringo, e isso é sempre bem interessante. O que é rizível e digno de enjôo é a regurgitação daí concluída, o produto final das tentativas de juntar, mesclar, conduzir, operacionalizar as tendências, as éticas e as estéticas desse jogo de audiências. E tal resultado não vai de encontro dos poderes oligárquicos que controlam nossas ondas de rádio. Pelo contrário, só faz corroborar, pois quem segue com fidelidade os bordões ecoados em cada canal só merece mesmo ser taxado de admirável gado novo.
Dito isso, fica uma pergunta: do que estou reclamando? A grama do vizinho é sempre mais verde, fato, e se estou com a tv ligada, é por escolha própria. Poderia ir ali e assinar Sky ou Net, mas no fundo apenas me abriria ao mesmo patetismo, só que de escala ampliada. O que é pior, não sei. É hora de desligar, entretanto, porque mudar de canal, é só pra mudar de raia desse fosso-cloaca.
Não que assistir à MTV, NatGeo, Fox ou HBO sejam sinônimos de alto gosto - também têm seu quê de ridículo. Ora, sob certa ótica, não faz o menor sentido em separar o que é local do que é global. As duas dimensões não existem, se formos observar a velocidade e o movimento dos fluxos comunicacionais invisíveis mas sensíveis. Trata-se, com efeito, tanto das fibras óticas por debaixo do mar quanto das ondas de satélite a cruzarem nosso caminho, ou ainda as redes wi-fi e 3G que nos servem de combustível de exibição celular, e mesmo até aquelas fofoquinhas incontroláveis que nos dão certo conforto à nossa volonté de savoir rotineira. Ora, porra, há um claro diálogo entre o que é tipicamente regional e o que é claramente gringo, e isso é sempre bem interessante. O que é rizível e digno de enjôo é a regurgitação daí concluída, o produto final das tentativas de juntar, mesclar, conduzir, operacionalizar as tendências, as éticas e as estéticas desse jogo de audiências. E tal resultado não vai de encontro dos poderes oligárquicos que controlam nossas ondas de rádio. Pelo contrário, só faz corroborar, pois quem segue com fidelidade os bordões ecoados em cada canal só merece mesmo ser taxado de admirável gado novo.
Dito isso, fica uma pergunta: do que estou reclamando? A grama do vizinho é sempre mais verde, fato, e se estou com a tv ligada, é por escolha própria. Poderia ir ali e assinar Sky ou Net, mas no fundo apenas me abriria ao mesmo patetismo, só que de escala ampliada. O que é pior, não sei. É hora de desligar, entretanto, porque mudar de canal, é só pra mudar de raia desse fosso-cloaca.
03/06/2011
No coração da aldeota
Às vezes acho que tenho algo de masoquista. Pois, não sei por que, parece até que procuro por aquilo e por aqueles que me fazem mal. Mas isso já é ser negativista e colocar a culpa sobre meus ombros. Se "eu fosse mais eu", externalizaria qualquer falta e diria que o negativo é que me procura - assumiria, de quebra, que sou um pólo positivo, e que o que não presta está fora de mim.
É irônico que assim seja, até porque é precisamente essa assunção que tantos utilizam, quando são, quando fazem, quando estão. E sobre esse verbo, que parece ser menos ação que o ser e mais localização que o situar, lanço meu olhar por uns instante. Pois que, fazendo um elo entre o primeiro e o segundo parágrafos, posso dizer: vez por outro me atraio por aquilo que me faz mal, e me faz mal ler qualquer coisa publicitária que afirme, com orgulho, "estar no coração da Aldeota". Pois foi o que vi há pouco, pulando de link em link, até encontrar a maldita frase já catapultada ao posto de bordão da propaganda cabeça-chata.
Mas o que afinal é estar no coração da Aldeota?
A frase, claro, diz algo além do endereço. Diz algo sobre condição socioeconômica, e também política, e cultural, e simbólica e também qualquer coisa que se queira pensar. Aliás, em tempo, todo mundo quer estar na Aldeota, ou queria, já que o velho bairro parece andar meio na ladeira da decadência. Mas se todos estão na Aldeota, e mais ainda em seu coração, que coração central é esse que abarca o corpo inteiro? É de mãe esse músculo involuntário?
Ora, estar no coração da Aldeota é como morar no melhor da Messejana: tem sempre algo de bom, é perto de tudo, tem todos os serviços e o que é de ruim resta periférico. Lá, não aqui. E se o periférico depende de um centro, e esse centro sequer existe, porque todos clamam por ele, então que periferia circulante é essa? E que centro flutuante é esse? Não, nem se trata de assumir as mudanças dos centros econômicos ao longo das décadas. Tal nomadismo é facilmente observável. Trata-se de pensar - e assumir! - as guerrinhas particulares entre bairros, de ter por fato o medíocre discurso bélico do dia-a-dia que lança mantas de favela ali e louros de Alpha Ville aqui. Porque estar no coração da Aldeota é isso, e muito mais. É ser católico apostólico românico, é usar iPhone e ostentar o símbolo do pecado, é estar livre de todo mal, amém, e pregar, no carro, adesivo do Recado, comer na Romana e ignorar a Leão do Sul, pagar 6 meses de academia adiantados e frequentar só por 2, se esbaldar de Heineken e considerar o Ceará já inserido no circuito internacional do consumo.
E então, aldeia Aldeota, o que é de fato estar em seu coração? Se é que há algum no seio dessas suas famílias filhas da oligarquia... Aposto que, se pudesse responder, você sequer teria palavras exatas. Aposto que nenhuma descrição daria conta para falar dessa finesse ridícula que consome a visão já hipermétrope dos seus moradores e vizinhos publicitários, inventores e reinventores dos bordões exclusivistas mais repetidos da cidade. Indica de uma vez onde é que fica esse coração pra que algum Peri lhe dê umas boas flechadas. Talvez assim, só assim, é que se rasgue toda essa falácia cosmopolitana que te cobre e a faça desmoronar. A falácia, não você, porque se você vier a cair, que Papicu, Fátima ou Seis Bocas virá assumir o seu lugar?
É irônico que assim seja, até porque é precisamente essa assunção que tantos utilizam, quando são, quando fazem, quando estão. E sobre esse verbo, que parece ser menos ação que o ser e mais localização que o situar, lanço meu olhar por uns instante. Pois que, fazendo um elo entre o primeiro e o segundo parágrafos, posso dizer: vez por outro me atraio por aquilo que me faz mal, e me faz mal ler qualquer coisa publicitária que afirme, com orgulho, "estar no coração da Aldeota". Pois foi o que vi há pouco, pulando de link em link, até encontrar a maldita frase já catapultada ao posto de bordão da propaganda cabeça-chata.
Mas o que afinal é estar no coração da Aldeota?
A frase, claro, diz algo além do endereço. Diz algo sobre condição socioeconômica, e também política, e cultural, e simbólica e também qualquer coisa que se queira pensar. Aliás, em tempo, todo mundo quer estar na Aldeota, ou queria, já que o velho bairro parece andar meio na ladeira da decadência. Mas se todos estão na Aldeota, e mais ainda em seu coração, que coração central é esse que abarca o corpo inteiro? É de mãe esse músculo involuntário?
Ora, estar no coração da Aldeota é como morar no melhor da Messejana: tem sempre algo de bom, é perto de tudo, tem todos os serviços e o que é de ruim resta periférico. Lá, não aqui. E se o periférico depende de um centro, e esse centro sequer existe, porque todos clamam por ele, então que periferia circulante é essa? E que centro flutuante é esse? Não, nem se trata de assumir as mudanças dos centros econômicos ao longo das décadas. Tal nomadismo é facilmente observável. Trata-se de pensar - e assumir! - as guerrinhas particulares entre bairros, de ter por fato o medíocre discurso bélico do dia-a-dia que lança mantas de favela ali e louros de Alpha Ville aqui. Porque estar no coração da Aldeota é isso, e muito mais. É ser católico apostólico românico, é usar iPhone e ostentar o símbolo do pecado, é estar livre de todo mal, amém, e pregar, no carro, adesivo do Recado, comer na Romana e ignorar a Leão do Sul, pagar 6 meses de academia adiantados e frequentar só por 2, se esbaldar de Heineken e considerar o Ceará já inserido no circuito internacional do consumo.
E então, aldeia Aldeota, o que é de fato estar em seu coração? Se é que há algum no seio dessas suas famílias filhas da oligarquia... Aposto que, se pudesse responder, você sequer teria palavras exatas. Aposto que nenhuma descrição daria conta para falar dessa finesse ridícula que consome a visão já hipermétrope dos seus moradores e vizinhos publicitários, inventores e reinventores dos bordões exclusivistas mais repetidos da cidade. Indica de uma vez onde é que fica esse coração pra que algum Peri lhe dê umas boas flechadas. Talvez assim, só assim, é que se rasgue toda essa falácia cosmopolitana que te cobre e a faça desmoronar. A falácia, não você, porque se você vier a cair, que Papicu, Fátima ou Seis Bocas virá assumir o seu lugar?
01/06/2011
Certo que nunca vivi tão apinhado de textos ao meu redor. Artigos soltos, livros, xérox, impressões diversas. Apinhado ando não só de textos, mas também de ideias, dúvidas, projetos, vontades e anseios, como se cada página não lida fosse um problema a se resolver e, igualmente, como se cada página lida trouxesse novos problemas, novas perguntas e novas inquietações.
Jogando o olhar rapidamente, é possível notar de tudo: livros para um estudo específico, livros variados, livros para, digamos, fins diletantes, livros na estante, livros no criado mudo, livros servindo até de base para uma coisa ou outra; xérox de livros sobre um tema específico aqui, impressões sobre outro tema ali e mais outras folhas soltas acolá. Metódico que sou, fico sempre a procurar um modo de organizar, categorizar, calar, enfim, o monstro do caos que teima em surgir por gênese espontânea. Esteja dito, há um criacionismo no universo do quarto: tanto menos se colocam as coisas em seus lugares - ainda que estes sejam inventados autoritariamente - mais elas teimam em andar e explorar os espaços possíveis. É assim que se perdem as canetas Bic, os carregadores de celular e todas aquelas coisas que somem justamente quando mais são necessárias.
Não bastasse essa galhofa, os textos gostam de ir além no que tange à bagunça a preencher nosso vazio interior de todos os dias: não apenas são fanfarrões em si mesmos, dizendo coisas e desmentindo nosso entendimento, como gozam de certa liberdade em ir e vir, em sair de sua ordem ou localização, seja lá qual for, de Z a A, amontoados em pilhas ou alinhados lado a lado. Talvez eles saibam como devem estar dispostos, afinal, já que se supõe serem mais sábios que nós, os burros a lê-los. Eu devia estar sempre aqui, não ali, é como se dissessem. Uma afinidade meio à Deleuze e Guattari.
E, assim, posso dizer: toda organização é efêmera. Deixe que cheguem mais itens, novos amigos para os textos brincarem (e eles sempre virão!), e logo a bagunça volta a imperar, feito recreio de criança. No fim das contas, iremos lá, ajeitar, podar, censurar, enfileirar pedagogicamente o universo de ideias que as letrinhas tanto querem embaralhar.
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Jogando o olhar rapidamente, é possível notar de tudo: livros para um estudo específico, livros variados, livros para, digamos, fins diletantes, livros na estante, livros no criado mudo, livros servindo até de base para uma coisa ou outra; xérox de livros sobre um tema específico aqui, impressões sobre outro tema ali e mais outras folhas soltas acolá. Metódico que sou, fico sempre a procurar um modo de organizar, categorizar, calar, enfim, o monstro do caos que teima em surgir por gênese espontânea. Esteja dito, há um criacionismo no universo do quarto: tanto menos se colocam as coisas em seus lugares - ainda que estes sejam inventados autoritariamente - mais elas teimam em andar e explorar os espaços possíveis. É assim que se perdem as canetas Bic, os carregadores de celular e todas aquelas coisas que somem justamente quando mais são necessárias.
Não bastasse essa galhofa, os textos gostam de ir além no que tange à bagunça a preencher nosso vazio interior de todos os dias: não apenas são fanfarrões em si mesmos, dizendo coisas e desmentindo nosso entendimento, como gozam de certa liberdade em ir e vir, em sair de sua ordem ou localização, seja lá qual for, de Z a A, amontoados em pilhas ou alinhados lado a lado. Talvez eles saibam como devem estar dispostos, afinal, já que se supõe serem mais sábios que nós, os burros a lê-los. Eu devia estar sempre aqui, não ali, é como se dissessem. Uma afinidade meio à Deleuze e Guattari.
E, assim, posso dizer: toda organização é efêmera. Deixe que cheguem mais itens, novos amigos para os textos brincarem (e eles sempre virão!), e logo a bagunça volta a imperar, feito recreio de criança. No fim das contas, iremos lá, ajeitar, podar, censurar, enfileirar pedagogicamente o universo de ideias que as letrinhas tanto querem embaralhar.
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