Era um gringo desses bem a cara dos USA. Poderia se chamar John, McCoy, Edward, e poderia ser um engenheiro ou advogado aposentado e cansado das mesmices de seu país. Mas quem ele era, afinal, não é tão crucial. O que importa mesmo é que se empanturrava de McDonalds, fritas e Coke. Ali punha para dentro aquilo que encontraria em qualquer lugar do mundo. A experiência local estava perdida, parecia que pouco lhe dizia. Mas talvez estivesse descansando do acarajé, do caruru, do vatapá e das outras iguarias oriundas do dendê. Ainda assim, mesmo globalizado, estava nitidamente deslumbrado com as maravilhas da Bahia.
John, McCoy ou Edward, nosso gringo, lambuzava seu sanduíche de plástico com katchup e mostarda e comia tudo com uma voracidade animal. Em cima da melequeira que se formava, jogava a única coisa que dava gosto àquele rango: pimenta do reino moída, dessas que a gente compra no mercadinho da esquina em saquinhos baratos. E ali, o gringo de cabelos brancos e cara suada, enfrentando o calor de Salvador na praça de alimentação de um shopping qualquer, deturpando a não-culinária do sanduíche-padrão mais famoso do mundo, era a coisa mais fora do eixo que eu vi naquela tarde que antecedia a data mais consumista do nosso calendário cristão.
A cena do dia pagou tudo. Aquele gringo americanizado usando tempero não americano numa comida transnacional (mas tipicamente americana) foi a transgressão não transgressora. Acho que aquele homem não tem ideia do que fazia: não se trata de simplesmente politizar a arte de comer, numa atitude pseudoesquerdista, mas aquela mistura colocava em xeque querelas antigas entre local e global, norte e sul, dominados e dominantes, apocalípticos e integrados.
Diria que ele é um quase apocalíptico, sem nem se perceber como tal. Ingênuo, glutão e ensimesmado, apenas fazia o que queria para ter o sabor perseguido. O sanduíche era seu, a pimenta era sua, mas a dimensão política de sua mistura ultrapassou a experiência do paladar e da prática social. Quantos, afinal, fariam algo similar ao que ele fez? E quantos suportariam a ardência?
Que John, McCoy ou Edward transgrida ainda mais outros padrões, em especial os gastronômicos. Que leve tantos saquinhos de pimenta e outras delícias locais para sua terra. Que estrague os padrões de outras redes, e que cruze outras redes, que ponha tudo em movimento e em conexão. Que seja transgressor ainda que nem se saiba como tal.
19/12/2011
14/12/2011
Foto de costas
Gosto de fotos de costas porque:
. por vezes revelam a visão do fotografado, e não do fotógrafo.
. saem da zona do comum, do ordinário, do rotineiro.
. capturam um momento de surpresa e, não raro, parecem despir o assunto de suas possíveis máscaras.
. não possuem aquela coisa abobalhada do forçado sorriso para a câmera.
. possuem uma aura de subjetividade, intimismo e solitude muito própria.
. algumas costas são belas e, não obstante, sempre ficam renegadas ao descaso.
. por vezes revelam a visão do fotografado, e não do fotógrafo.
. saem da zona do comum, do ordinário, do rotineiro.
. capturam um momento de surpresa e, não raro, parecem despir o assunto de suas possíveis máscaras.
. não possuem aquela coisa abobalhada do forçado sorriso para a câmera.
. possuem uma aura de subjetividade, intimismo e solitude muito própria.
. algumas costas são belas e, não obstante, sempre ficam renegadas ao descaso.
01/12/2011
Suco de abacaxi
Nem só de afetos se denuncia um casal. Pois que aquele era um casal bem discreto. Ele na dele, ela na dela. Mas os indícios sempre ficam no ar, e às vezes uma pista escapa sem querer - mesmo sem mãos dadas, mesmo sem carícias. E eu, desligado a fofocas, deixo pra lá, e nem pego nada no ar.
Mas foi um suco que me encaminhou um pouco mais rumo à certeza - porque a dúvida já havia sido plantada. Um suco de abacaxi de 500ml compartilhado, 2 canudos, e o copo entre os dois. Quem compartilharia um suco senão um casal?
- Aquele menina, é namorada dele?, perguntei a alguém.
- É sim, me responderam.
- Arrá, pensei.
Mas foi um suco que me encaminhou um pouco mais rumo à certeza - porque a dúvida já havia sido plantada. Um suco de abacaxi de 500ml compartilhado, 2 canudos, e o copo entre os dois. Quem compartilharia um suco senão um casal?
- Aquele menina, é namorada dele?, perguntei a alguém.
- É sim, me responderam.
- Arrá, pensei.
23/11/2011
No que se transformam as pessoas?
No que as pessoas se tornam? Essa pergunta tem me acompanhado os últimos tempos por simplesmente me assustar diante das transformações pelas quais pessoas conhecidas a longo prazo têm passado. Acho assustador. Porque, no fundo, a vontade é que uns e outros fiquem sempre do mesmo jeito - especialmente quando fomos e desejamos retornar, e esse desejo é acompanhado de encontrar tudo, ou quase tudo, do jeito que foi deixado. Nem melhor, nem pior.
O pior é saber que as pessoas são dinâmicas, principalmente os amigos, que, em constante ebulição, mudam de emprego, de estudos, de ramos de atuação, de companheiros, gostos musicais e ambiente sociais. Mudam de opinião também, mudam de telefone, de endereço, de estado civil, de cidade e estado, às vezes até de país. Mudam a própria temporalidade, a inteligência também, mudam o jeito de ser e de se vestir, de posar para fotos, de se enquadrar e de se deixar enquadrar. Muda tudo, às vezes até o que nutria as relações - que nada é infinito, tudo precisa ser cultivado.
No que se transformam as pessoas? Complicado mesmo não é não saber essa resposta. Complicado é não saber se olhar e se perguntar: e eu, no que me transformo?
O pior é saber que as pessoas são dinâmicas, principalmente os amigos, que, em constante ebulição, mudam de emprego, de estudos, de ramos de atuação, de companheiros, gostos musicais e ambiente sociais. Mudam de opinião também, mudam de telefone, de endereço, de estado civil, de cidade e estado, às vezes até de país. Mudam a própria temporalidade, a inteligência também, mudam o jeito de ser e de se vestir, de posar para fotos, de se enquadrar e de se deixar enquadrar. Muda tudo, às vezes até o que nutria as relações - que nada é infinito, tudo precisa ser cultivado.
No que se transformam as pessoas? Complicado mesmo não é não saber essa resposta. Complicado é não saber se olhar e se perguntar: e eu, no que me transformo?
07/11/2011
Um anúncio bom
Dois anos atrás, me meti numa seleção de mestrado. Era novembro, e Salvador fazia um calor infernal. Acho que nunca havia sentido uma quentura daquela. O Ceará é um forno, é verdade, e eu até conhecia o tempo dos infernos de Sobral e Teresina. Mas sentir-se cozido ao invés de assado ou frito é outra coisa. Pois era assim que me sentia naquele úmido e calorento mês de novembro de 2009.
A sensação era de panela de pressão. Dupla, triplamente pressão. A situação era toda estressante, a tensão estava nas minhas costas sob a forma de mochila. Tudo sufocava: o medo do fracasso, o nervosismo e o calor, principalmente.
...
Dois anos se passaram e esse novembro de 2011 já não está tão quente assim. Algumas nuvens vão tampando o céu e a temperatura varia com cautela. Mas no geral, nada de calor. Tem chovido bastante, com algumas pausas aqui e acolá. Como, aliás, se a cidade toda precisasse ser lavada.
...
Amanhã é outra entrevista, agora para doutorado. É um passo grande, mas bem sei que posso dá-lo. A situação já é outra. Não só o clima mudou, como também o modo de enxergar as coisas, a confiança, as perspectivas. É engraçado encarar a transformação, o crescimento, os erros e acertos dados ao longo desses anos tão intensos.
O que eu espero de amanhã? Sinceramente, não é sorte ou coisa assim. Só espero que o tempo fique tal como está hoje, e não como há dois anos. Que não seja aquela panela de pressão fazendo bolhas brotarem da pele. Que não tenha aquele sol quente queimando os braços. Que não molhe a camisa inteira, nem faça pingos caírem da testa. Só quero o tempo como um anúncio bom.
A sensação era de panela de pressão. Dupla, triplamente pressão. A situação era toda estressante, a tensão estava nas minhas costas sob a forma de mochila. Tudo sufocava: o medo do fracasso, o nervosismo e o calor, principalmente.
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Dois anos se passaram e esse novembro de 2011 já não está tão quente assim. Algumas nuvens vão tampando o céu e a temperatura varia com cautela. Mas no geral, nada de calor. Tem chovido bastante, com algumas pausas aqui e acolá. Como, aliás, se a cidade toda precisasse ser lavada.
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Amanhã é outra entrevista, agora para doutorado. É um passo grande, mas bem sei que posso dá-lo. A situação já é outra. Não só o clima mudou, como também o modo de enxergar as coisas, a confiança, as perspectivas. É engraçado encarar a transformação, o crescimento, os erros e acertos dados ao longo desses anos tão intensos.
O que eu espero de amanhã? Sinceramente, não é sorte ou coisa assim. Só espero que o tempo fique tal como está hoje, e não como há dois anos. Que não seja aquela panela de pressão fazendo bolhas brotarem da pele. Que não tenha aquele sol quente queimando os braços. Que não molhe a camisa inteira, nem faça pingos caírem da testa. Só quero o tempo como um anúncio bom.
02/11/2011
No feriado, nem café salva
Há de se compreender que feriados não são apenas institucionalizações, mas um complexo estado de espírito. Nessas situações, corpo e mente não funcionam do modo para os quais os programamos antecipadamente. "Vou fazer isso", "vou concluir aquilo", por exemplo, não passam de divagações nesses contextos. Há de se convir que guardamos uma intimista relação com aquilo que nos cerca. Não somos seres desambientados, pois: sugamos o movimento e a sensação exteriores, somos influenciáveis, moldáveis, conduzíveis, e toda nossa obstinação, toda nossa capacidade de racionalizar se perde diante da ausência de movimento lá fora.
É claro que o contrário também pode servir: ao invés de usar o feriado como um descanso, aproveitá-lo como oportunidade de adiantar nosso trabalho (e adiantar aqui serve até para todas aquelas coisas que já estão atrasadas). Mas hoje exatamente não é bem o dia pra isso. Nesse 02 de novembro, finados, me sinto mais letárgico que vívido. Ainda assim, assumo também, algumas fornadas vão sair. Ou pelo menos precisam sair.
É claro que o contrário também pode servir: ao invés de usar o feriado como um descanso, aproveitá-lo como oportunidade de adiantar nosso trabalho (e adiantar aqui serve até para todas aquelas coisas que já estão atrasadas). Mas hoje exatamente não é bem o dia pra isso. Nesse 02 de novembro, finados, me sinto mais letárgico que vívido. Ainda assim, assumo também, algumas fornadas vão sair. Ou pelo menos precisam sair.
29/10/2011
Preparação estética
Em outro momento, dizia que nem sempre estamos preparados para algumas obras - naquele caso, livros. E o mesmo para discos? Veja que agora pergunto, não afirmo nem trato como axioma.
Apesar da incerteza, tudo indica que sim. Álbuns musicais são coisas complexas. Cresci lendo bons livros - mais por obrigação do colégio que por gosto ou influência familiar, confesso - mas não tive uma boa educação sonora. É complicado, ao menos para mim, desacelerar e ouvir discos inteiros, do começo ao fim. Fico impressionado com quem faz isso, e até sinto certa inveja de quem tem essa capacidade. Não é pra mim.
Mas a questão aqui não é tanto a ter a paciência suficiente de deixar o álbum rolar, mas de estar preparado para ele, para os artistas e para as mensagens - o que é dito, como é dito, com que intenção.
Me pego há dois dias ouvindo um disco de 12 anos atrás. O ouvi muito naquela época e, de repente, me dá na telha de ouvir agora de novo. É engraçada a obsessão repentina, porque não o faço por admiração ou gosto pela banda - não consigo, por exemplo, reconhecer grandes qualidades nela, embora não pense que essa seja uma condição para a fruição estética da obra.
O que me faz ouvir a tal obra? É uma pergunta sem respostas, tanto quanto não sei de fato se é preciso estar preparado para certos discos. Poderia, assim, dizer que precisava estar preparado àquela época - o que bem pode ser verdade. Mas essa talvez seja uma consideração muito falha. E se ainda hoje não me sinto preparado para ela?
Apesar da incerteza, tudo indica que sim. Álbuns musicais são coisas complexas. Cresci lendo bons livros - mais por obrigação do colégio que por gosto ou influência familiar, confesso - mas não tive uma boa educação sonora. É complicado, ao menos para mim, desacelerar e ouvir discos inteiros, do começo ao fim. Fico impressionado com quem faz isso, e até sinto certa inveja de quem tem essa capacidade. Não é pra mim.
Mas a questão aqui não é tanto a ter a paciência suficiente de deixar o álbum rolar, mas de estar preparado para ele, para os artistas e para as mensagens - o que é dito, como é dito, com que intenção.
Me pego há dois dias ouvindo um disco de 12 anos atrás. O ouvi muito naquela época e, de repente, me dá na telha de ouvir agora de novo. É engraçada a obsessão repentina, porque não o faço por admiração ou gosto pela banda - não consigo, por exemplo, reconhecer grandes qualidades nela, embora não pense que essa seja uma condição para a fruição estética da obra.
O que me faz ouvir a tal obra? É uma pergunta sem respostas, tanto quanto não sei de fato se é preciso estar preparado para certos discos. Poderia, assim, dizer que precisava estar preparado àquela época - o que bem pode ser verdade. Mas essa talvez seja uma consideração muito falha. E se ainda hoje não me sinto preparado para ela?
29/09/2011
Cama de gato
Deveria ter vergonha de alguns posicionamentos meus. Não do posicionamento, mas da maneira como lido com eles. E, bem, até tenho um pouco, na verdade, mas pelo visto não tanto assim a ponto de escondê-los. Arreganhemo-los, então.
Lá se encontrava minha pessoa, um perfeito médio burguês, pseudomarxista, meio de esquerda, meio intelectual, jantando e assistindo ao Jornal Nacional. William e Fátima, um dos casais-perfeição da rede do plim-plim, davam notícias importantíssimas sobre a possível moratória dos EUA, os acordos dentre republicanos e democratas, a posição desconfortável de Obama, os jogos de uns e de outros e, por fim, o que realmente havia sido acertado - o que nem vem ao caso agora, mesmo porque fiz questão de esquecer também.
Eu poderia ser cínico o suficiente para dizer "e eu com isso". Mas sei que os pauzinhos que mexem lá acabam reverberando por aqui. E eu bem deveria estar preocupado com isso, da mesma forma como deveria ter ficado penoso e tudo mais em relação aos problemas nucleares em Fukushima, dos quais se falou um pouco depois, ou até revoltado sobre a situação na Líbia, ou ainda chocado com os atentados na Noruega. Contrariando as expectativas quanto à minha performance, apenas continuo tomando minha sopa com uma cara de "próxima notícia, por favor". O impacto das boas novas porém não tão boas é tamanho que já está tudo anestesiado - o corpo, a mente, o coração. O pior de tudo, entretanto, não é meu descaso para o ocorre com o planeta, mas pensar no meu papel de ser-no-mundo enquanto nele estou.
Se ao menos morasse em Marte ou algo assim, ainda se justificaria essa apatia. Mas não moro. Ninguém mora.
Ora, que pouco depois do tal jornal, iria lá me dedicar àquilo que é centro das minhas atenções há muito. E, sem já me importar tanto assim para a qualidade e nas decorrências do meu presente trabalho, fico pensando se ele é assim tão importante a ponto de ser realizado. Pois que recebo dinheiro do governo para produzir algo relevante sobre outra coisa relevante, e no momento da notícia, nada parece mais relevante que o risco de calote americano. A impressão que dá é que um rombo nas finanças do Tio Sam é tão perigoso quanto um buraco negro criado instantaneamente em meio ao Grand Canyon. Mesmo porque o jornalismo, o bom jornalismo, só se ocupa de assuntos importantes, cruciais. Até as fofocas são relevantes. É tudo efêmero, de moratórias à bunda da irmã da princesa, mas é tudo relevante. E eu aqui, me ocupando com algo que meia dúzia de indivíduos entende de mal a pior - eu incluso. Pelo menos não é efêmero.
Mas é bem verdade que nem tudo está plenamente congelado. Ao ver notícias sobre o descaso do Cid Gomes para com os professores da rede municipal ou sobre a calamidade iminente acerca da usina de Belo Monte, devo dizer: ainda há choque, mas só torço para que o mundo dê fim a si mesmo, ou pelo menos consiga exterminar o homem. A gente não tem mais remédio. Ou melhor, poderíamos ser o próprio fármaco, mas somos excessivos demais para darmos conta de nossa própria proteção. Somos venenosos. Por certo há um quê de blasé nessa história toda, um foda-se arrogante mesmo. Talvez um dia haja tempo e/ou energia suficientes para que eu me volte àquilo que é relevante. Por enquanto, não há como negar: abrir a janela e olhar para o mundo é apenas uma forma de retornar a si mesmo. Algo como "vou fechar a cortina e voltar a dormir". Tá tudo errado e só quero acordar quando consertarem a bagunça toda.
E, claro, perceba-se o descaso em não querer consertar também. Mas, no fundo, quero.
Lá se encontrava minha pessoa, um perfeito médio burguês, pseudomarxista, meio de esquerda, meio intelectual, jantando e assistindo ao Jornal Nacional. William e Fátima, um dos casais-perfeição da rede do plim-plim, davam notícias importantíssimas sobre a possível moratória dos EUA, os acordos dentre republicanos e democratas, a posição desconfortável de Obama, os jogos de uns e de outros e, por fim, o que realmente havia sido acertado - o que nem vem ao caso agora, mesmo porque fiz questão de esquecer também.
Eu poderia ser cínico o suficiente para dizer "e eu com isso". Mas sei que os pauzinhos que mexem lá acabam reverberando por aqui. E eu bem deveria estar preocupado com isso, da mesma forma como deveria ter ficado penoso e tudo mais em relação aos problemas nucleares em Fukushima, dos quais se falou um pouco depois, ou até revoltado sobre a situação na Líbia, ou ainda chocado com os atentados na Noruega. Contrariando as expectativas quanto à minha performance, apenas continuo tomando minha sopa com uma cara de "próxima notícia, por favor". O impacto das boas novas porém não tão boas é tamanho que já está tudo anestesiado - o corpo, a mente, o coração. O pior de tudo, entretanto, não é meu descaso para o ocorre com o planeta, mas pensar no meu papel de ser-no-mundo enquanto nele estou.
Se ao menos morasse em Marte ou algo assim, ainda se justificaria essa apatia. Mas não moro. Ninguém mora.
Ora, que pouco depois do tal jornal, iria lá me dedicar àquilo que é centro das minhas atenções há muito. E, sem já me importar tanto assim para a qualidade e nas decorrências do meu presente trabalho, fico pensando se ele é assim tão importante a ponto de ser realizado. Pois que recebo dinheiro do governo para produzir algo relevante sobre outra coisa relevante, e no momento da notícia, nada parece mais relevante que o risco de calote americano. A impressão que dá é que um rombo nas finanças do Tio Sam é tão perigoso quanto um buraco negro criado instantaneamente em meio ao Grand Canyon. Mesmo porque o jornalismo, o bom jornalismo, só se ocupa de assuntos importantes, cruciais. Até as fofocas são relevantes. É tudo efêmero, de moratórias à bunda da irmã da princesa, mas é tudo relevante. E eu aqui, me ocupando com algo que meia dúzia de indivíduos entende de mal a pior - eu incluso. Pelo menos não é efêmero.
Mas é bem verdade que nem tudo está plenamente congelado. Ao ver notícias sobre o descaso do Cid Gomes para com os professores da rede municipal ou sobre a calamidade iminente acerca da usina de Belo Monte, devo dizer: ainda há choque, mas só torço para que o mundo dê fim a si mesmo, ou pelo menos consiga exterminar o homem. A gente não tem mais remédio. Ou melhor, poderíamos ser o próprio fármaco, mas somos excessivos demais para darmos conta de nossa própria proteção. Somos venenosos. Por certo há um quê de blasé nessa história toda, um foda-se arrogante mesmo. Talvez um dia haja tempo e/ou energia suficientes para que eu me volte àquilo que é relevante. Por enquanto, não há como negar: abrir a janela e olhar para o mundo é apenas uma forma de retornar a si mesmo. Algo como "vou fechar a cortina e voltar a dormir". Tá tudo errado e só quero acordar quando consertarem a bagunça toda.
E, claro, perceba-se o descaso em não querer consertar também. Mas, no fundo, quero.
16/09/2011
Retirante, o verdadeiro cosmopolita
Às vezes olho pra trás e compreendo que meu lugar nunca fui ali. Se sempre me senti um "cidadão do mundo", se sempre achei frívola qualquer tentativa de estabelecer fronteiras meramente virtuais, é porque também nunca vi esse ou aquele território como digno de fixação - seja física ou simbólica - o que nos leva a um olhar de mistura, conurbação, indefinições e borragens em geral.
Lançar um olhar para Fortaleza hoje me faz pensar em como ela está se tornando um pouco de arrogante - a exemplo de certas Venezas brasileiras. Há no ar um corrente discurso católico de "somos todos irmãos", mas bate-se no peito com orgulho para se dizer quem é, e usa-se nessa porrada uma força tão grande quanto aquela aplicada para fincar estacas no chão nos processos mais improvisados de demarcação de terra. Parece até que o espírito do sertanejo não saiu do transgressor corpo urbano - o que talvez até seja bom, pois nos lembra um pouco do que somos, de onde viemos.
Acontece que, apesar da boa intenção da fraternidade, não passamos mesmo de um bando de nazistas a procura de seu Hitler, e a formação dos grupinhos, tribos ou panelinhas urbanas é bem sintomática dessa busca. O termo "coletivo" parece designar essa massa fascinante (mas fascinada jamais, porque sua cultura impede!): não é uma empresa, em formas tradicionais, tampouco é socialista - não venha me dizer que um consumidor de Heineken ou Chili Beans estampa com seriedade o símbolo da foice e do martelo; além disso, seus membros são realizadores e não autores, porque esse termo nos remete ao típico (e defasado) modelo de produção e exploração de conteúdo do século XX - e esses gênios, esses vanguardistas da arte contemporânea são qualquer coisa de pós. E nesse passo blasé - uma coisa meio "estou sempre à frente mas não ligo" ou "ai mamãe, como sou cult" - vão constituindo, enquanto coletivos não tão coletivistas, aqueles clustters ao redor dos quais reza e baba a massa de fãs, essa sim ignorante e fascinada.
O mais impiedoso, entretranto, não é bem o totalitarismo nem tão existente (ou existente, mas disfarçado) nesses círculos, mas sim sua própria caracterização de círculo: grosseiramente, ninguém entra e ninguém sai. Fazer parte de um coletivo é tão estonteante quanto diametralmente oposto o é não fazer parte. Ou se insere nos grupinhos da moda ou se lamenta sem previsões de fim. Porque talvez seja justamente isto que me faz ver que o Ceará não era exatamente o meu lugar: ter entendido que as geografias invisíveis daquela terra eram bem mais fortes que as distâncias físicas impostas pela pequena imensidão do mundo. Ora, quem não nasceu pra Farras na Casa Alheia ou Clube do Vaqueiro, nunca vai chegar a ser um nome de peso autopatrocinado dentre a classe média embasbacada de Fortaleza.
Prefiro, pois, carregar a sina que acompanha há tempos os cearenses: ser um pequeno, humilde e eterno retirante em busca de seu lugar.
Lançar um olhar para Fortaleza hoje me faz pensar em como ela está se tornando um pouco de arrogante - a exemplo de certas Venezas brasileiras. Há no ar um corrente discurso católico de "somos todos irmãos", mas bate-se no peito com orgulho para se dizer quem é, e usa-se nessa porrada uma força tão grande quanto aquela aplicada para fincar estacas no chão nos processos mais improvisados de demarcação de terra. Parece até que o espírito do sertanejo não saiu do transgressor corpo urbano - o que talvez até seja bom, pois nos lembra um pouco do que somos, de onde viemos.
Acontece que, apesar da boa intenção da fraternidade, não passamos mesmo de um bando de nazistas a procura de seu Hitler, e a formação dos grupinhos, tribos ou panelinhas urbanas é bem sintomática dessa busca. O termo "coletivo" parece designar essa massa fascinante (mas fascinada jamais, porque sua cultura impede!): não é uma empresa, em formas tradicionais, tampouco é socialista - não venha me dizer que um consumidor de Heineken ou Chili Beans estampa com seriedade o símbolo da foice e do martelo; além disso, seus membros são realizadores e não autores, porque esse termo nos remete ao típico (e defasado) modelo de produção e exploração de conteúdo do século XX - e esses gênios, esses vanguardistas da arte contemporânea são qualquer coisa de pós. E nesse passo blasé - uma coisa meio "estou sempre à frente mas não ligo" ou "ai mamãe, como sou cult" - vão constituindo, enquanto coletivos não tão coletivistas, aqueles clustters ao redor dos quais reza e baba a massa de fãs, essa sim ignorante e fascinada.
O mais impiedoso, entretranto, não é bem o totalitarismo nem tão existente (ou existente, mas disfarçado) nesses círculos, mas sim sua própria caracterização de círculo: grosseiramente, ninguém entra e ninguém sai. Fazer parte de um coletivo é tão estonteante quanto diametralmente oposto o é não fazer parte. Ou se insere nos grupinhos da moda ou se lamenta sem previsões de fim. Porque talvez seja justamente isto que me faz ver que o Ceará não era exatamente o meu lugar: ter entendido que as geografias invisíveis daquela terra eram bem mais fortes que as distâncias físicas impostas pela pequena imensidão do mundo. Ora, quem não nasceu pra Farras na Casa Alheia ou Clube do Vaqueiro, nunca vai chegar a ser um nome de peso autopatrocinado dentre a classe média embasbacada de Fortaleza.
Prefiro, pois, carregar a sina que acompanha há tempos os cearenses: ser um pequeno, humilde e eterno retirante em busca de seu lugar.
01/09/2011
O insubstituível ou a essência das coisas
Já falei em outro momento aqui mesmo como os objetos fazem falta, cada qual à sua maneira. Na ocasião, falava de como a ausência de um simples espelho imprimia uma interrogação sobre mim, a ponto de não saber exatamente a quantas andava meu rosto. Àquela época, sem espelho e com preguiça de sair para comprar, a solução acabava morando de aluguel entre uma coisa e outra: a tela do computador, da tv ou do celular, uma janela de carro mais escura e até uma panela bem polida podiam me dar aquilo do que eu estava desprovido: mais que um reflexo, mas também uma reflexão sobre minha identidade.
E a todo momento sinto falta de certas coisas e das coisas certas. A constatação é duplamente estranha, não só pela ideia de certo mas pela utilização específica de uma coisa e não de outra. Comecemos por essa parte, então: há coisas que são substituíveis, enquanto outras têm uma qualidade ímpar. Posso trocar uma caneta por outra, um computador por outro, um copo por outro. Há pouco quebrei mais um prato (eles vivem se desvencilhando das minhas mãos, ora), mas isso não faz a menor falta justamente pelo valor de unicidade que eles não têm. São substituíveis, portanto. Troco de prato, e se quebrarem todos, compro novos.
A coisa começa a se complicar quando vivemos atrelados a um mundo de simulações. Não tenho uma calculadora por perto, não da forma como aprendi que ela é, mas ao mesmo tempo tenho 4. Duas delas em celulares, duas em sistemas operacionais. São calculadoras porque calculam, fazem contas, computam algo. Não têm a mesma materialidade das calculadoras tradicionais (de plástico ou similares), mas funcionam, fazem o que devem fazer. Ainda assim, entretanto, causam estranheza, talvez pela dificuldade de digitar os números no teclado do notebook ou na tela touch do celular. Há algo de dificultoso em ambas as formas, e nem estou bem certo de que essa é uma querela de gerações.
Pelo mesmo caminho vão editores de texto ou blocos de nota. Ora, se a cultura da interface se caracteriza, dentre outras coisas, justamente por ser uma metáfora da vida fora da tela, nada mais sensato que se utilizar de elementos imitativos daquilo a que estamos acostumados. O bloco de notas, assim, pela sua praticidade e versatilidade parece perfeito: tomam-se notas, escrevem-se pequenos textos, programa-se até. Mas, definitivamente, não tem a mesma riqueza que uma folha de papel em branco. Alguém já disse, muito sabiamente, que não fazia esculturas; elas sempre estiveram ali, no mármore, e o que o indivíduo fazia era tão somente retirar o excesso de material até que a forma oculta se revelasse. E é mais ou menos assim com a folha em branco: nada está lá, mas tudo está - virtualmente, mas está. Cabe ao grafite ou à caneta desvelar, camada a camada, o texto, o desenho, os rabiscos que se podem encontrar.
É também estranho falar sobre um uso correto das coisas, como se fosse claro que os objetos são criados para que tenham um fim específico e nenhum outro mais. No fundo, a questão é terrível mesmo, meio que sem solução: há uma essência nos objetos ou eles só se constituem como tal a partir de seu uso? Já falei há pouco que o bloco de notas do Windows, por exemplo, serve para tomar notas, mas é possível usá-lo para criar ou editar softwares inteiros só com ele. E isso os faz ambientes de desenvolvimento? O próprio computador no qual escrevo esse texto por vezes chega a impressionantes 80 e poucos graus centígrados. E isso o faz ser uma frigideira?
No fundo, tudo isso veio de uma constatação desorientadora: da mesma forma como o espelho me fez falta, um caderno de notas (e não bloco) também o faz. Tenho 3 blocos de nota grandes e um 1 pequeno. Embora tenham a mesma função - servir papéis para o rabisco de notas - nenhum consegue ter a mesma aura que um caderninho possui. (E talvez seja esse um dos motivos pelos quais pessoas cool gostem tanto de Moleskines). Mas não só a aura: também a praticidade, a facilidade de uso, a forma concisa, fechada, blocada. Arrancam-se folhas do bloco com uma facilidade que nos faz pensar: em breve, deixará de ser um bloco para se tornar um conjunto disperso de folhas soltas. Porque esse ponto parece bem sensato: não se pode falar de uma essência sem uma forma nem de uma forma sem conteúdo - como, afinal, seria um bloco de notas se as folhas de papel não estivessem juntas?
E a todo momento sinto falta de certas coisas e das coisas certas. A constatação é duplamente estranha, não só pela ideia de certo mas pela utilização específica de uma coisa e não de outra. Comecemos por essa parte, então: há coisas que são substituíveis, enquanto outras têm uma qualidade ímpar. Posso trocar uma caneta por outra, um computador por outro, um copo por outro. Há pouco quebrei mais um prato (eles vivem se desvencilhando das minhas mãos, ora), mas isso não faz a menor falta justamente pelo valor de unicidade que eles não têm. São substituíveis, portanto. Troco de prato, e se quebrarem todos, compro novos.
A coisa começa a se complicar quando vivemos atrelados a um mundo de simulações. Não tenho uma calculadora por perto, não da forma como aprendi que ela é, mas ao mesmo tempo tenho 4. Duas delas em celulares, duas em sistemas operacionais. São calculadoras porque calculam, fazem contas, computam algo. Não têm a mesma materialidade das calculadoras tradicionais (de plástico ou similares), mas funcionam, fazem o que devem fazer. Ainda assim, entretanto, causam estranheza, talvez pela dificuldade de digitar os números no teclado do notebook ou na tela touch do celular. Há algo de dificultoso em ambas as formas, e nem estou bem certo de que essa é uma querela de gerações.
Pelo mesmo caminho vão editores de texto ou blocos de nota. Ora, se a cultura da interface se caracteriza, dentre outras coisas, justamente por ser uma metáfora da vida fora da tela, nada mais sensato que se utilizar de elementos imitativos daquilo a que estamos acostumados. O bloco de notas, assim, pela sua praticidade e versatilidade parece perfeito: tomam-se notas, escrevem-se pequenos textos, programa-se até. Mas, definitivamente, não tem a mesma riqueza que uma folha de papel em branco. Alguém já disse, muito sabiamente, que não fazia esculturas; elas sempre estiveram ali, no mármore, e o que o indivíduo fazia era tão somente retirar o excesso de material até que a forma oculta se revelasse. E é mais ou menos assim com a folha em branco: nada está lá, mas tudo está - virtualmente, mas está. Cabe ao grafite ou à caneta desvelar, camada a camada, o texto, o desenho, os rabiscos que se podem encontrar.
É também estranho falar sobre um uso correto das coisas, como se fosse claro que os objetos são criados para que tenham um fim específico e nenhum outro mais. No fundo, a questão é terrível mesmo, meio que sem solução: há uma essência nos objetos ou eles só se constituem como tal a partir de seu uso? Já falei há pouco que o bloco de notas do Windows, por exemplo, serve para tomar notas, mas é possível usá-lo para criar ou editar softwares inteiros só com ele. E isso os faz ambientes de desenvolvimento? O próprio computador no qual escrevo esse texto por vezes chega a impressionantes 80 e poucos graus centígrados. E isso o faz ser uma frigideira?
No fundo, tudo isso veio de uma constatação desorientadora: da mesma forma como o espelho me fez falta, um caderno de notas (e não bloco) também o faz. Tenho 3 blocos de nota grandes e um 1 pequeno. Embora tenham a mesma função - servir papéis para o rabisco de notas - nenhum consegue ter a mesma aura que um caderninho possui. (E talvez seja esse um dos motivos pelos quais pessoas cool gostem tanto de Moleskines). Mas não só a aura: também a praticidade, a facilidade de uso, a forma concisa, fechada, blocada. Arrancam-se folhas do bloco com uma facilidade que nos faz pensar: em breve, deixará de ser um bloco para se tornar um conjunto disperso de folhas soltas. Porque esse ponto parece bem sensato: não se pode falar de uma essência sem uma forma nem de uma forma sem conteúdo - como, afinal, seria um bloco de notas se as folhas de papel não estivessem juntas?
17/08/2011
Sem lugar para introspecção
Por vezes leva um bom tempo até que você passe a entender a relação entre você mesmo e a cidade em que você vive. Vamos a algumas constatações: não há lugar para introspecção em Salvador. A palavra parece ter sido riscada do dicionário baiano. Mais uma vez, não que seja bom ou ruim a priori, mas é o que se vê por aqui. Notemos:
- Pessoas falam alto no meio da rua, como se todos os demais transeuntes precisassem de fato saber do que se trata. Bem, frisemos que uma conversa até envolve mais de uma pessoa, mas as praças não precisam virar ágoras. Nesses casos, bom senso é um ponto misterioso demais, intocável até.
- Como se não fosse suficiente saber o teor de um diálogo, às vezes nos é dada a oportunidade de saber tudo sobre o monólogo do cidadão. Sim, porque não raro é possível encontrar um indivíduo reclamando, elogiando, gritando sozinho, falando para todos e para ninguém ao mesmo tempo. E quanto mais ignorado, mais ele fala.
- Nas zonas turísticas, você é abordado da maneira mais agressiva possível por ambulantes. Não há respeito pelo espaço alheio, e a invasão é tanta a ponto de chegarmos ao contato físico - se der bobeira, eles amarram uma fitinha do Bonfim made in São Paulo em você e aí já era. Brasileiros não têm lá muito essa frescura, ok, mas e os gringos?
- Ressalte-se, quanto ao ponto anterior, que, quanto maior sua educação, maior o nível de invasão. Coisas como "não, obrigado" resultam numa intensificação da abordagem. Esnobar, dizer não com a cabeça sem nem abrir a boca, fazer cara de quem não está nem aí pra aquela porra de artesanato, tratar como cachorro de rua, enfim, no geral são atos que conseguem afastar vendedores. Um "vai te fuder" meio que lhe dá imunidade para todo o sempre.
- Não bastasse ambulantes nos pontos turísticos, há ainda aqueles que entram no ônibus com o cinismo de quem precisa ganhar o sustento do dia: "desculpa incomodar a viagem de vocês, mas estou aqui trazendo...". Não desculpo não e vai calando a boca logo. Deixa eu curtir esse engarrafamento na minha, porra.
- E, claro, não é possível deixar de lado aqueles que adoram socializar sua música. Sempre tem alguém no ônibus ouvindo uma swingueira nojenta de dois ou três acordes. Fone de ouvido, para essas criaturas, é algo meio alienígena. Deve dar câncer, só pode.
13/07/2011
Sobre o arrependimento
Por mais incrível e irônico que pareça, estas linhas não versam sobre o passado, mas sim sobre seu antagonista-mor: o que ainda está por vir, tão certo de vir que até nome já tem e que, ainda assim, apesar das certezas, é tão incerto quanto aquilo que ainda não veio. Ou seja, tão incerto quanto o é em si.
Pensar em arrependimento denota olhar para trás. De uma maneira ou outra, mesmo que pensemos momentaneamente no futuro, arrepender-se é sempre um movimento de volta. Ah se tivesse sido de outra forma... E estas linhas, que já se tornaram parágrafos, parecem tão paradoxais quanto insustentáveis. Mas é só aparência, porque se se sabe bem do futuro, é porque já se viveu o passado demais para já saber do devir.
Pois vejamos: chega o momento, o dia D ou a hora H. Esse é o momento-ápice, aquele que, se representado graficamente, é o cume de uma dança de linhas num plano cartesiano. Consideremos esse instante como o momento exato de arrependimento. É quando olhamos para trás e pensamos que poderia ter sido diferente. É quando temos vontade de desfazer toda a linha do tempo e reconstruir o enredo da maneira que for possível. Mas nesse nosso movimento paradoxal, é bem possível olhar para o futuro, justamente aquele que vem depois do ponto culminante, mas apenas antes de chegarmos neste - e, portanto, bem antes também de alcançarmos o que está por vir depois. Pois é assim que me sinto, sabendo que ora me arrependerei, que olharei para trás e que, ainda assim, outrora me desarrependerei - mas não se entenda como um arrependimento do arrependimento, mas uma simples volta, um retorno ao estado de origem, como seu eu pudesse, ou viesse a poder, flanar na linha do tempo.
Cabe a pergunta: por que fazer a dita ação que me levará ao arrependimento certeiro? Pode-se dizer "para testar", mas essa escolha seria auto-blasé demais. Ou também "porque, de outra forma, apenas me arrependeria mais ainda". No fundo, a dinâmica parece se dar exclusivamente a partir de uma ordem matemática: a menor perda é o que nos leva ao caminho a ser escolhido. Há, claro, aqueles que se baseiam nas emotividades ou ainda nas espiritualidades. É válido, mas não é o caso. Dessa vez - ou como sempre - tomo por base o cálculo frio e a quase certeza do desarrependimento, ainda que tal frieza me permita ver perfeitamente o futuro arrependimento tão certo quanto o próprio espaço-e-tempo, o próprio futuro, que lhe dará lugar.
Pensar em arrependimento denota olhar para trás. De uma maneira ou outra, mesmo que pensemos momentaneamente no futuro, arrepender-se é sempre um movimento de volta. Ah se tivesse sido de outra forma... E estas linhas, que já se tornaram parágrafos, parecem tão paradoxais quanto insustentáveis. Mas é só aparência, porque se se sabe bem do futuro, é porque já se viveu o passado demais para já saber do devir.
Pois vejamos: chega o momento, o dia D ou a hora H. Esse é o momento-ápice, aquele que, se representado graficamente, é o cume de uma dança de linhas num plano cartesiano. Consideremos esse instante como o momento exato de arrependimento. É quando olhamos para trás e pensamos que poderia ter sido diferente. É quando temos vontade de desfazer toda a linha do tempo e reconstruir o enredo da maneira que for possível. Mas nesse nosso movimento paradoxal, é bem possível olhar para o futuro, justamente aquele que vem depois do ponto culminante, mas apenas antes de chegarmos neste - e, portanto, bem antes também de alcançarmos o que está por vir depois. Pois é assim que me sinto, sabendo que ora me arrependerei, que olharei para trás e que, ainda assim, outrora me desarrependerei - mas não se entenda como um arrependimento do arrependimento, mas uma simples volta, um retorno ao estado de origem, como seu eu pudesse, ou viesse a poder, flanar na linha do tempo.
Cabe a pergunta: por que fazer a dita ação que me levará ao arrependimento certeiro? Pode-se dizer "para testar", mas essa escolha seria auto-blasé demais. Ou também "porque, de outra forma, apenas me arrependeria mais ainda". No fundo, a dinâmica parece se dar exclusivamente a partir de uma ordem matemática: a menor perda é o que nos leva ao caminho a ser escolhido. Há, claro, aqueles que se baseiam nas emotividades ou ainda nas espiritualidades. É válido, mas não é o caso. Dessa vez - ou como sempre - tomo por base o cálculo frio e a quase certeza do desarrependimento, ainda que tal frieza me permita ver perfeitamente o futuro arrependimento tão certo quanto o próprio espaço-e-tempo, o próprio futuro, que lhe dará lugar.
29/06/2011
Tempo bom é o de hoje
Não entendo a filia excessiva que uns e outros têm pelo passado. Fato é que sempre lançamos mão de retóricas para exaltar aquilo de bom que se passou. Oh, como era doce minha infância. Ou bons tempos, aqueles. Fazer uso de um saudosismo tem lá seu valor. Mas tamanho apreço, por vezes, parece se dar precisamente porque a saudade nunca se atualiza em seu próprio perecer. Em outras palavras, o tempo nunca retorna, nem nós mesmos retornamos aos lugares e tempos de outrora. Dada a impossibilidade de reviver o momento, eis a construção de seu valor.
Ora, feito fãs patéticos, bate o desejo de re-situar. O jeito, então, é mobilizar a nós mesmos, porque nem o tempo, nem as coisas, nem as construções vão se mover a nosso bel-prazer, só para nossa satisfação, só para nosso simulacro, nosso faz-de-conta-aberração. Eis que está muito claro: é tudo diferente, absolutamente tudo. Já não se disse que um mesmo homem não entra duas vezes no mesmo rio? Pois esqueçamos essa história de reviver. A história acabou, diria outrém.
Ainda assim, não nego, o passado tem seu valor. Não apenas por ser base fundamental para o presente, mas também por ter sido bom o suficiente para ser plenamente desejado. Que o seja lembrado, então, mas que também se atualize, e por esse caminho, entende-se que há de haver diferenças. Que as valorizemos, também.
O que mais impressiona, em especial nos revivals, nas confraternizações e afins, é a presença de uma dupla confusão ou ilusão. Primeiro: de que o tempo relaciona-se com uma dada homogeneidade. Fala-se de um grupo perfeito, composto por pessoas perfeitas, com uma harmonia perfeita. Porra, não havia nem há perfeição! Os defeitos do passado podem até ter sido consertado mas, senão, só devem mesmo piorar. Segundo: de que nossos elos só são lembrados por conta de qualidades. Todavia, há ligações ruins, péssimas, tenebrosas. Iludimo-nos, achando que reviver as velhas situações não terá qualquer reminiscência do que se passou de mal. Mas terá!
Fora tudo isso, bem, tudo muda, todos mudam. Os indivíduos de outrora, assim como seus lugares e o próprio tempo, já não são mais os mesmos. O porra-louca virou pastor. A santinha engravidou. O CDF virou pagodeiro/axezeiro/forrozeiro. O vagabundo passou no ITA. O metaleiro encontrou Jesus. A hipponga virou paty. A paty virou biscate. O marxista virou empresário. Alguns seguiram seus caminhos, enquanto outros ficaram estagnados. Uns se deram bem, outros só se ferraram. Alguns acertaram, outros só erraram. Uns enriqueceram, outros só encontraram dívidas. Alguns apostaram em rotas diversas, enquanto outros iam, mas vacilavam. Uns souberam criar novas ligações, enquanto outros só pensam nas velhas homogeneidades já falidas. E, dentre atalhos e desvios, alguns entenderam, outros não: aquele tempo era bom, mas tempo bom, de fato, é o de agora. Vivamos, então, que adorar o tempo morto é como estar tão morto e parado no tempo quanto o próprio tempo em si.
Ora, feito fãs patéticos, bate o desejo de re-situar. O jeito, então, é mobilizar a nós mesmos, porque nem o tempo, nem as coisas, nem as construções vão se mover a nosso bel-prazer, só para nossa satisfação, só para nosso simulacro, nosso faz-de-conta-aberração. Eis que está muito claro: é tudo diferente, absolutamente tudo. Já não se disse que um mesmo homem não entra duas vezes no mesmo rio? Pois esqueçamos essa história de reviver. A história acabou, diria outrém.
Ainda assim, não nego, o passado tem seu valor. Não apenas por ser base fundamental para o presente, mas também por ter sido bom o suficiente para ser plenamente desejado. Que o seja lembrado, então, mas que também se atualize, e por esse caminho, entende-se que há de haver diferenças. Que as valorizemos, também.
O que mais impressiona, em especial nos revivals, nas confraternizações e afins, é a presença de uma dupla confusão ou ilusão. Primeiro: de que o tempo relaciona-se com uma dada homogeneidade. Fala-se de um grupo perfeito, composto por pessoas perfeitas, com uma harmonia perfeita. Porra, não havia nem há perfeição! Os defeitos do passado podem até ter sido consertado mas, senão, só devem mesmo piorar. Segundo: de que nossos elos só são lembrados por conta de qualidades. Todavia, há ligações ruins, péssimas, tenebrosas. Iludimo-nos, achando que reviver as velhas situações não terá qualquer reminiscência do que se passou de mal. Mas terá!
Fora tudo isso, bem, tudo muda, todos mudam. Os indivíduos de outrora, assim como seus lugares e o próprio tempo, já não são mais os mesmos. O porra-louca virou pastor. A santinha engravidou. O CDF virou pagodeiro/axezeiro/forrozeiro. O vagabundo passou no ITA. O metaleiro encontrou Jesus. A hipponga virou paty. A paty virou biscate. O marxista virou empresário. Alguns seguiram seus caminhos, enquanto outros ficaram estagnados. Uns se deram bem, outros só se ferraram. Alguns acertaram, outros só erraram. Uns enriqueceram, outros só encontraram dívidas. Alguns apostaram em rotas diversas, enquanto outros iam, mas vacilavam. Uns souberam criar novas ligações, enquanto outros só pensam nas velhas homogeneidades já falidas. E, dentre atalhos e desvios, alguns entenderam, outros não: aquele tempo era bom, mas tempo bom, de fato, é o de agora. Vivamos, então, que adorar o tempo morto é como estar tão morto e parado no tempo quanto o próprio tempo em si.
18/06/2011
TV local
Assistir a alguns programas televisivos locais só serve para dar certeza de que há um controle patético a partir de certas oligarquias. É filho de fulano como apresentador, sobrinho de beltrano como diretor e as mesmas ideias circulando dentro da tv, fora dela, no ar, nas conversas de café e de mesa de bar. Fora a velha e mofada, porém recauchutada, ideologia do forró, a apoteótica estética do play operando massivamente o dinheiro da classe média e o utópico sonho do brega de um dia atingir o patamar do chique. Ou de puxar tal patamar para o próprio lugar, porque ir é sempre mais difícil que ficar.
Não que assistir à MTV, NatGeo, Fox ou HBO sejam sinônimos de alto gosto - também têm seu quê de ridículo. Ora, sob certa ótica, não faz o menor sentido em separar o que é local do que é global. As duas dimensões não existem, se formos observar a velocidade e o movimento dos fluxos comunicacionais invisíveis mas sensíveis. Trata-se, com efeito, tanto das fibras óticas por debaixo do mar quanto das ondas de satélite a cruzarem nosso caminho, ou ainda as redes wi-fi e 3G que nos servem de combustível de exibição celular, e mesmo até aquelas fofoquinhas incontroláveis que nos dão certo conforto à nossa volonté de savoir rotineira. Ora, porra, há um claro diálogo entre o que é tipicamente regional e o que é claramente gringo, e isso é sempre bem interessante. O que é rizível e digno de enjôo é a regurgitação daí concluída, o produto final das tentativas de juntar, mesclar, conduzir, operacionalizar as tendências, as éticas e as estéticas desse jogo de audiências. E tal resultado não vai de encontro dos poderes oligárquicos que controlam nossas ondas de rádio. Pelo contrário, só faz corroborar, pois quem segue com fidelidade os bordões ecoados em cada canal só merece mesmo ser taxado de admirável gado novo.
Dito isso, fica uma pergunta: do que estou reclamando? A grama do vizinho é sempre mais verde, fato, e se estou com a tv ligada, é por escolha própria. Poderia ir ali e assinar Sky ou Net, mas no fundo apenas me abriria ao mesmo patetismo, só que de escala ampliada. O que é pior, não sei. É hora de desligar, entretanto, porque mudar de canal, é só pra mudar de raia desse fosso-cloaca.
Não que assistir à MTV, NatGeo, Fox ou HBO sejam sinônimos de alto gosto - também têm seu quê de ridículo. Ora, sob certa ótica, não faz o menor sentido em separar o que é local do que é global. As duas dimensões não existem, se formos observar a velocidade e o movimento dos fluxos comunicacionais invisíveis mas sensíveis. Trata-se, com efeito, tanto das fibras óticas por debaixo do mar quanto das ondas de satélite a cruzarem nosso caminho, ou ainda as redes wi-fi e 3G que nos servem de combustível de exibição celular, e mesmo até aquelas fofoquinhas incontroláveis que nos dão certo conforto à nossa volonté de savoir rotineira. Ora, porra, há um claro diálogo entre o que é tipicamente regional e o que é claramente gringo, e isso é sempre bem interessante. O que é rizível e digno de enjôo é a regurgitação daí concluída, o produto final das tentativas de juntar, mesclar, conduzir, operacionalizar as tendências, as éticas e as estéticas desse jogo de audiências. E tal resultado não vai de encontro dos poderes oligárquicos que controlam nossas ondas de rádio. Pelo contrário, só faz corroborar, pois quem segue com fidelidade os bordões ecoados em cada canal só merece mesmo ser taxado de admirável gado novo.
Dito isso, fica uma pergunta: do que estou reclamando? A grama do vizinho é sempre mais verde, fato, e se estou com a tv ligada, é por escolha própria. Poderia ir ali e assinar Sky ou Net, mas no fundo apenas me abriria ao mesmo patetismo, só que de escala ampliada. O que é pior, não sei. É hora de desligar, entretanto, porque mudar de canal, é só pra mudar de raia desse fosso-cloaca.
03/06/2011
No coração da aldeota
Às vezes acho que tenho algo de masoquista. Pois, não sei por que, parece até que procuro por aquilo e por aqueles que me fazem mal. Mas isso já é ser negativista e colocar a culpa sobre meus ombros. Se "eu fosse mais eu", externalizaria qualquer falta e diria que o negativo é que me procura - assumiria, de quebra, que sou um pólo positivo, e que o que não presta está fora de mim.
É irônico que assim seja, até porque é precisamente essa assunção que tantos utilizam, quando são, quando fazem, quando estão. E sobre esse verbo, que parece ser menos ação que o ser e mais localização que o situar, lanço meu olhar por uns instante. Pois que, fazendo um elo entre o primeiro e o segundo parágrafos, posso dizer: vez por outro me atraio por aquilo que me faz mal, e me faz mal ler qualquer coisa publicitária que afirme, com orgulho, "estar no coração da Aldeota". Pois foi o que vi há pouco, pulando de link em link, até encontrar a maldita frase já catapultada ao posto de bordão da propaganda cabeça-chata.
Mas o que afinal é estar no coração da Aldeota?
A frase, claro, diz algo além do endereço. Diz algo sobre condição socioeconômica, e também política, e cultural, e simbólica e também qualquer coisa que se queira pensar. Aliás, em tempo, todo mundo quer estar na Aldeota, ou queria, já que o velho bairro parece andar meio na ladeira da decadência. Mas se todos estão na Aldeota, e mais ainda em seu coração, que coração central é esse que abarca o corpo inteiro? É de mãe esse músculo involuntário?
Ora, estar no coração da Aldeota é como morar no melhor da Messejana: tem sempre algo de bom, é perto de tudo, tem todos os serviços e o que é de ruim resta periférico. Lá, não aqui. E se o periférico depende de um centro, e esse centro sequer existe, porque todos clamam por ele, então que periferia circulante é essa? E que centro flutuante é esse? Não, nem se trata de assumir as mudanças dos centros econômicos ao longo das décadas. Tal nomadismo é facilmente observável. Trata-se de pensar - e assumir! - as guerrinhas particulares entre bairros, de ter por fato o medíocre discurso bélico do dia-a-dia que lança mantas de favela ali e louros de Alpha Ville aqui. Porque estar no coração da Aldeota é isso, e muito mais. É ser católico apostólico românico, é usar iPhone e ostentar o símbolo do pecado, é estar livre de todo mal, amém, e pregar, no carro, adesivo do Recado, comer na Romana e ignorar a Leão do Sul, pagar 6 meses de academia adiantados e frequentar só por 2, se esbaldar de Heineken e considerar o Ceará já inserido no circuito internacional do consumo.
E então, aldeia Aldeota, o que é de fato estar em seu coração? Se é que há algum no seio dessas suas famílias filhas da oligarquia... Aposto que, se pudesse responder, você sequer teria palavras exatas. Aposto que nenhuma descrição daria conta para falar dessa finesse ridícula que consome a visão já hipermétrope dos seus moradores e vizinhos publicitários, inventores e reinventores dos bordões exclusivistas mais repetidos da cidade. Indica de uma vez onde é que fica esse coração pra que algum Peri lhe dê umas boas flechadas. Talvez assim, só assim, é que se rasgue toda essa falácia cosmopolitana que te cobre e a faça desmoronar. A falácia, não você, porque se você vier a cair, que Papicu, Fátima ou Seis Bocas virá assumir o seu lugar?
É irônico que assim seja, até porque é precisamente essa assunção que tantos utilizam, quando são, quando fazem, quando estão. E sobre esse verbo, que parece ser menos ação que o ser e mais localização que o situar, lanço meu olhar por uns instante. Pois que, fazendo um elo entre o primeiro e o segundo parágrafos, posso dizer: vez por outro me atraio por aquilo que me faz mal, e me faz mal ler qualquer coisa publicitária que afirme, com orgulho, "estar no coração da Aldeota". Pois foi o que vi há pouco, pulando de link em link, até encontrar a maldita frase já catapultada ao posto de bordão da propaganda cabeça-chata.
Mas o que afinal é estar no coração da Aldeota?
A frase, claro, diz algo além do endereço. Diz algo sobre condição socioeconômica, e também política, e cultural, e simbólica e também qualquer coisa que se queira pensar. Aliás, em tempo, todo mundo quer estar na Aldeota, ou queria, já que o velho bairro parece andar meio na ladeira da decadência. Mas se todos estão na Aldeota, e mais ainda em seu coração, que coração central é esse que abarca o corpo inteiro? É de mãe esse músculo involuntário?
Ora, estar no coração da Aldeota é como morar no melhor da Messejana: tem sempre algo de bom, é perto de tudo, tem todos os serviços e o que é de ruim resta periférico. Lá, não aqui. E se o periférico depende de um centro, e esse centro sequer existe, porque todos clamam por ele, então que periferia circulante é essa? E que centro flutuante é esse? Não, nem se trata de assumir as mudanças dos centros econômicos ao longo das décadas. Tal nomadismo é facilmente observável. Trata-se de pensar - e assumir! - as guerrinhas particulares entre bairros, de ter por fato o medíocre discurso bélico do dia-a-dia que lança mantas de favela ali e louros de Alpha Ville aqui. Porque estar no coração da Aldeota é isso, e muito mais. É ser católico apostólico românico, é usar iPhone e ostentar o símbolo do pecado, é estar livre de todo mal, amém, e pregar, no carro, adesivo do Recado, comer na Romana e ignorar a Leão do Sul, pagar 6 meses de academia adiantados e frequentar só por 2, se esbaldar de Heineken e considerar o Ceará já inserido no circuito internacional do consumo.
E então, aldeia Aldeota, o que é de fato estar em seu coração? Se é que há algum no seio dessas suas famílias filhas da oligarquia... Aposto que, se pudesse responder, você sequer teria palavras exatas. Aposto que nenhuma descrição daria conta para falar dessa finesse ridícula que consome a visão já hipermétrope dos seus moradores e vizinhos publicitários, inventores e reinventores dos bordões exclusivistas mais repetidos da cidade. Indica de uma vez onde é que fica esse coração pra que algum Peri lhe dê umas boas flechadas. Talvez assim, só assim, é que se rasgue toda essa falácia cosmopolitana que te cobre e a faça desmoronar. A falácia, não você, porque se você vier a cair, que Papicu, Fátima ou Seis Bocas virá assumir o seu lugar?
01/06/2011
Certo que nunca vivi tão apinhado de textos ao meu redor. Artigos soltos, livros, xérox, impressões diversas. Apinhado ando não só de textos, mas também de ideias, dúvidas, projetos, vontades e anseios, como se cada página não lida fosse um problema a se resolver e, igualmente, como se cada página lida trouxesse novos problemas, novas perguntas e novas inquietações.
Jogando o olhar rapidamente, é possível notar de tudo: livros para um estudo específico, livros variados, livros para, digamos, fins diletantes, livros na estante, livros no criado mudo, livros servindo até de base para uma coisa ou outra; xérox de livros sobre um tema específico aqui, impressões sobre outro tema ali e mais outras folhas soltas acolá. Metódico que sou, fico sempre a procurar um modo de organizar, categorizar, calar, enfim, o monstro do caos que teima em surgir por gênese espontânea. Esteja dito, há um criacionismo no universo do quarto: tanto menos se colocam as coisas em seus lugares - ainda que estes sejam inventados autoritariamente - mais elas teimam em andar e explorar os espaços possíveis. É assim que se perdem as canetas Bic, os carregadores de celular e todas aquelas coisas que somem justamente quando mais são necessárias.
Não bastasse essa galhofa, os textos gostam de ir além no que tange à bagunça a preencher nosso vazio interior de todos os dias: não apenas são fanfarrões em si mesmos, dizendo coisas e desmentindo nosso entendimento, como gozam de certa liberdade em ir e vir, em sair de sua ordem ou localização, seja lá qual for, de Z a A, amontoados em pilhas ou alinhados lado a lado. Talvez eles saibam como devem estar dispostos, afinal, já que se supõe serem mais sábios que nós, os burros a lê-los. Eu devia estar sempre aqui, não ali, é como se dissessem. Uma afinidade meio à Deleuze e Guattari.
E, assim, posso dizer: toda organização é efêmera. Deixe que cheguem mais itens, novos amigos para os textos brincarem (e eles sempre virão!), e logo a bagunça volta a imperar, feito recreio de criança. No fim das contas, iremos lá, ajeitar, podar, censurar, enfileirar pedagogicamente o universo de ideias que as letrinhas tanto querem embaralhar.
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Jogando o olhar rapidamente, é possível notar de tudo: livros para um estudo específico, livros variados, livros para, digamos, fins diletantes, livros na estante, livros no criado mudo, livros servindo até de base para uma coisa ou outra; xérox de livros sobre um tema específico aqui, impressões sobre outro tema ali e mais outras folhas soltas acolá. Metódico que sou, fico sempre a procurar um modo de organizar, categorizar, calar, enfim, o monstro do caos que teima em surgir por gênese espontânea. Esteja dito, há um criacionismo no universo do quarto: tanto menos se colocam as coisas em seus lugares - ainda que estes sejam inventados autoritariamente - mais elas teimam em andar e explorar os espaços possíveis. É assim que se perdem as canetas Bic, os carregadores de celular e todas aquelas coisas que somem justamente quando mais são necessárias.
Não bastasse essa galhofa, os textos gostam de ir além no que tange à bagunça a preencher nosso vazio interior de todos os dias: não apenas são fanfarrões em si mesmos, dizendo coisas e desmentindo nosso entendimento, como gozam de certa liberdade em ir e vir, em sair de sua ordem ou localização, seja lá qual for, de Z a A, amontoados em pilhas ou alinhados lado a lado. Talvez eles saibam como devem estar dispostos, afinal, já que se supõe serem mais sábios que nós, os burros a lê-los. Eu devia estar sempre aqui, não ali, é como se dissessem. Uma afinidade meio à Deleuze e Guattari.
E, assim, posso dizer: toda organização é efêmera. Deixe que cheguem mais itens, novos amigos para os textos brincarem (e eles sempre virão!), e logo a bagunça volta a imperar, feito recreio de criança. No fim das contas, iremos lá, ajeitar, podar, censurar, enfileirar pedagogicamente o universo de ideias que as letrinhas tanto querem embaralhar.
19/05/2011
A dura vida de estudante profissional
Primeiro de tudo, há que se considerar mais de um tipo de estudante profissional, doravante EP. Identifico pelo menos dois: o primeiro é aquele que tem medo de enfrentar o mundo fora das grades do ambiente de estudo, seja lá qual for. Todos conhecemos pelo menos uma pessoa assim, ora indecisa, ora cheia de certezas, mas que, dentre vários vou ou fico, pulo ou não, acaba se deslocando sempre na horizontalidade. Ou seja, mal termina um curso, começa outro, ao invés de encarar um desafio novo, diferente. Assim se sucede pois o devir é sempre amedontrador, é sempre uma escuridão, e encará-la é assombroso demais quando não se tem uma barra de saia pra puxar ou uma sandália japonesa pra levar nos couros.
Não é desse tipo covarde que desejo falar, entretanto, mas daquele EP cujo trabalho é de fato estudar. Tarefas? Ler, escrever, anotar, fichar, congressar, articular, referenciar, ler mais uma vez e alimentar todo o ciclo vicioso de construção de ficções - só para citar Latour e Woolgar e seu maravilhoso A vida de Laboratório. Essa categoria é aquela recebe dinheiro, ou deveria receber, para somente estudar. E estudar, aqui, significa gastar não uma ou duas horas lendo um texto qualquer, fingindo alguma produçãozinha e algo mais, mas talvez estabelecer uma rotina suficiente para manter vivo aquele ciclo citado logo acima. Não é um trabalho melhor ou pior que os outros, de mais ou menos status, mas é diferente a ponto de não ser compreendido. Enquanto o mundo todo estuda para depois trabalhar, o EP trabalha já estudando.
É claro que a situação típica do EP dedicado - aquele que consegue deixar a bunda quadrada e realmente se torna um cu de ferro - pode vir a ser radicalmente não entendida por outros tantos. Como alguém trabalha em casa?, diria a D. Maria que faz faxina. Como alguém fica estudando às 3h da manhã?, perguntaria o S. Menino, porteiro que dá uma bisbilhotada nas luzes dos quartos entre um cochilo e outro. Ambas as atividades, por sinal, são privilegiadas: é bem possível passar o pano na sala ou abrir o portão enquanto se pensa em outra coisa. Corpo aqui, mente acolá.Trabalhar, assim, já parece ter virado sinônimo de alienação, enquanto estudar é algo como preparação. Mas notemos: alienação não apenas no velho sentido marxista, que esse ainda persiste, mas também num sentido meio lobotômico - aquele caso típico de entrar no automático, apertar parafusos e pressionar botões, sem já nem saber como e por que. De forma é possível entrar no automático lendo textos cabeçudos? Seria possível e mesmo desejável?
Fora essas questões, ainda resta um ponto a esclarecer antes de assinarmos a carteira, afinal: quantas horas por dia? O operário padrão chega às 8h e sai às 18h, ou qualquer coisa similar. É isso que faz o EP certinho? Oito horas de trabalho puxado, com intervalo de almoço no meio, é assim que deve proceder o EP? Não sei bem ao certo. Até pensei que fosse, pois por vezes acho que essa modernidade toda é o que está quebrando o mundo. Alguns padrões rígidos de disciplina até que não fazem tão mal assim, né? Ou fazem, sei lá. Esse texto mesmo não estaria saindo agora se eu estivesse seguindo o ciclo ideal do EP do mês. Ou talvez nem devesse sair, de fato, já que há uns 2 ou 3 artigos ansiosos por serem feitos. Eles existem, virtualmente. Então deixa que eu os atualize, já é hora. É preciso construir ficções.
Não é desse tipo covarde que desejo falar, entretanto, mas daquele EP cujo trabalho é de fato estudar. Tarefas? Ler, escrever, anotar, fichar, congressar, articular, referenciar, ler mais uma vez e alimentar todo o ciclo vicioso de construção de ficções - só para citar Latour e Woolgar e seu maravilhoso A vida de Laboratório. Essa categoria é aquela recebe dinheiro, ou deveria receber, para somente estudar. E estudar, aqui, significa gastar não uma ou duas horas lendo um texto qualquer, fingindo alguma produçãozinha e algo mais, mas talvez estabelecer uma rotina suficiente para manter vivo aquele ciclo citado logo acima. Não é um trabalho melhor ou pior que os outros, de mais ou menos status, mas é diferente a ponto de não ser compreendido. Enquanto o mundo todo estuda para depois trabalhar, o EP trabalha já estudando.
É claro que a situação típica do EP dedicado - aquele que consegue deixar a bunda quadrada e realmente se torna um cu de ferro - pode vir a ser radicalmente não entendida por outros tantos. Como alguém trabalha em casa?, diria a D. Maria que faz faxina. Como alguém fica estudando às 3h da manhã?, perguntaria o S. Menino, porteiro que dá uma bisbilhotada nas luzes dos quartos entre um cochilo e outro. Ambas as atividades, por sinal, são privilegiadas: é bem possível passar o pano na sala ou abrir o portão enquanto se pensa em outra coisa. Corpo aqui, mente acolá.Trabalhar, assim, já parece ter virado sinônimo de alienação, enquanto estudar é algo como preparação. Mas notemos: alienação não apenas no velho sentido marxista, que esse ainda persiste, mas também num sentido meio lobotômico - aquele caso típico de entrar no automático, apertar parafusos e pressionar botões, sem já nem saber como e por que. De forma é possível entrar no automático lendo textos cabeçudos? Seria possível e mesmo desejável?
Fora essas questões, ainda resta um ponto a esclarecer antes de assinarmos a carteira, afinal: quantas horas por dia? O operário padrão chega às 8h e sai às 18h, ou qualquer coisa similar. É isso que faz o EP certinho? Oito horas de trabalho puxado, com intervalo de almoço no meio, é assim que deve proceder o EP? Não sei bem ao certo. Até pensei que fosse, pois por vezes acho que essa modernidade toda é o que está quebrando o mundo. Alguns padrões rígidos de disciplina até que não fazem tão mal assim, né? Ou fazem, sei lá. Esse texto mesmo não estaria saindo agora se eu estivesse seguindo o ciclo ideal do EP do mês. Ou talvez nem devesse sair, de fato, já que há uns 2 ou 3 artigos ansiosos por serem feitos. Eles existem, virtualmente. Então deixa que eu os atualize, já é hora. É preciso construir ficções.
03/05/2011
Lógica da desordem
Há uma lógica de desordem inacreditável em Salvador. Não que a desordem seja ruim e que a ordem seja boa. Não desejo anexar juízos de valor a estas palavras, pelo menos não conscientemente. Mas que há uma desordem, há, e parece que ninguém da casa sabe ou mesmo quer arrumar a bagunça. Vejamos, pois.
Primeiramente, os traçados das ruas. Seria preciso voltar pela história da cidade para entender mas, aparentemente, o departamento de trânsito local não sabe e nunca soube que a distância mais curta entre dois pontos é uma reta. Ok, há trocentos morros para todos os lados, e fazer meros 100 metros de avenida reta às vezes é impossível. Como cavar um túnel é mais caro que contornar o obstáculo, tome curva, então.
Não bastasse a inspiração nos grandes prêmios da Fórmula 1, a desordem também impera na numeração. Pra que ela existe, aliás? Se ali na frente é 260, depois é 322, mas logo volto para 274, então ela não funciona! E de repente aparece, no mesmo lado, um número ímpar, um 91 da vida, por exemplo. Nitidamente há em alguns logradouros uma dupla marcação, por vezes no melhor estilo "à direita de quem vai, à esquerda de quem vem". E procurar um endereço no nosso guru-mor de cada dia, o oráculo Google, é inútil: nem mesmo o olho de Deus sabe ao certo onde ficam determinados endereços, e a indicação passa ao largo de uns 500 metros, no mínimo.
Outra coisa impressionante é forma como as coisas estão localizadas na cabeça. Existe um senso de se localizar pelos lugares ou pela topografia. Isso é impressionante! Quando se pede água, a pessoa do outro lado da linha não pergunta qual a numeração do prédio; pergunta apenas qual a rua e o nome do edifício. E se você ainda assim quer ser brother e tenta fornecer a numeração, a criatura recusa. Parece uma ojeriza aos números. Mais estarrecedor é pedir informações na rua. As pessoas não dizem "você dobra na rua tal, depois entra à esquerda na avenida x". Ao invés disso, transformam-se instantaneamente em geógrafos, acessam um banco de dados interno, puxam todas as informações da estrutura física da cidade e, por fim, roteirizam: "é na rua do Morro do Cristo" ou "logo depois que descer o viaduto, você vira a direita e segue até o largo" ou mesmo "entra nas gordinhas". É até compreensível que seja assim, afinal se a numeração-racionalização não funciona, faz-se necessário encontrar outro meio de racionalizar o espaço.
Apesar de toda a dificuldade com as ruas daqui, confesso que eu mesmo já me peguei dando informações à la baiano: "onde fica o final da linha x?", perguntaram-me. Minha resposta não poderia ter sido mais sotero: "cê vai em frente e na terceira rua, a rua do posto, entra à esquerda". É estranho, mas deve ter sido uma solução encontrada pela população para poder se situar no arranjo louco da cidade. É até meio poético, uma vez que a valorização do tal senso comum e do saber local tem sido apreciada - um passar de mão pela cabeça quase pedagógico, bem dizer. Mesmo essa relação afetivo-topográfica sendo bonitinha, confessemos: seria bem mais fácil ter uma estrutura ordenada, como em NY: ruas e avenidas não com nomes, mas numeradas, cartesiana e ditatorialmente postas em perpendicularidade. Se bem que aqui é Salvador, né? Se adotassem tal marcação, nem a ordem dos números seria respeitada - como já não o é no caso dos imóveis...
- Onde fica a Rua 4? Não consigo achar.
- Ah, é porque ela fica entre as ruas 6 e 7. Entra ali nas gordinhas que cê chega nela.
Primeiramente, os traçados das ruas. Seria preciso voltar pela história da cidade para entender mas, aparentemente, o departamento de trânsito local não sabe e nunca soube que a distância mais curta entre dois pontos é uma reta. Ok, há trocentos morros para todos os lados, e fazer meros 100 metros de avenida reta às vezes é impossível. Como cavar um túnel é mais caro que contornar o obstáculo, tome curva, então.
Não bastasse a inspiração nos grandes prêmios da Fórmula 1, a desordem também impera na numeração. Pra que ela existe, aliás? Se ali na frente é 260, depois é 322, mas logo volto para 274, então ela não funciona! E de repente aparece, no mesmo lado, um número ímpar, um 91 da vida, por exemplo. Nitidamente há em alguns logradouros uma dupla marcação, por vezes no melhor estilo "à direita de quem vai, à esquerda de quem vem". E procurar um endereço no nosso guru-mor de cada dia, o oráculo Google, é inútil: nem mesmo o olho de Deus sabe ao certo onde ficam determinados endereços, e a indicação passa ao largo de uns 500 metros, no mínimo.
Outra coisa impressionante é forma como as coisas estão localizadas na cabeça. Existe um senso de se localizar pelos lugares ou pela topografia. Isso é impressionante! Quando se pede água, a pessoa do outro lado da linha não pergunta qual a numeração do prédio; pergunta apenas qual a rua e o nome do edifício. E se você ainda assim quer ser brother e tenta fornecer a numeração, a criatura recusa. Parece uma ojeriza aos números. Mais estarrecedor é pedir informações na rua. As pessoas não dizem "você dobra na rua tal, depois entra à esquerda na avenida x". Ao invés disso, transformam-se instantaneamente em geógrafos, acessam um banco de dados interno, puxam todas as informações da estrutura física da cidade e, por fim, roteirizam: "é na rua do Morro do Cristo" ou "logo depois que descer o viaduto, você vira a direita e segue até o largo" ou mesmo "entra nas gordinhas". É até compreensível que seja assim, afinal se a numeração-racionalização não funciona, faz-se necessário encontrar outro meio de racionalizar o espaço.
Apesar de toda a dificuldade com as ruas daqui, confesso que eu mesmo já me peguei dando informações à la baiano: "onde fica o final da linha x?", perguntaram-me. Minha resposta não poderia ter sido mais sotero: "cê vai em frente e na terceira rua, a rua do posto, entra à esquerda". É estranho, mas deve ter sido uma solução encontrada pela população para poder se situar no arranjo louco da cidade. É até meio poético, uma vez que a valorização do tal senso comum e do saber local tem sido apreciada - um passar de mão pela cabeça quase pedagógico, bem dizer. Mesmo essa relação afetivo-topográfica sendo bonitinha, confessemos: seria bem mais fácil ter uma estrutura ordenada, como em NY: ruas e avenidas não com nomes, mas numeradas, cartesiana e ditatorialmente postas em perpendicularidade. Se bem que aqui é Salvador, né? Se adotassem tal marcação, nem a ordem dos números seria respeitada - como já não o é no caso dos imóveis...
- Onde fica a Rua 4? Não consigo achar.
- Ah, é porque ela fica entre as ruas 6 e 7. Entra ali nas gordinhas que cê chega nela.
27/03/2011
O hífen e a hibridação
Jamais fomos modernos porque jamais nos purificamos. Embora tenhamos aceito o projeto de separação entre o que é humano e o que não é - eis a purificação -, não carregamos a modernidade em nossas veias porque nunca realmente nos apartamos das coisas que são a-humanas. E sempre precisamos delas para que nos fizéssemos sempre mais e mais humanos. Ou híbridos. E a modernidade assim se criou e criou também as condições para sua própria morte.
É por aí que corre a defesa de Latour em seu famoso Ensaio de Antropologia Simétrica. Mas deixemos esse ponto um pouco de lado e pensemos sobre o uso gramatical de hífens(-) e barras(/), porque há algo de profundo que não nos é explicado nas aulas língua portuguesa.
A barra, essencialmente, separa. Assim como nos sitemas e nos sites, quando tem a serventia de demarcar limites entre diretórios e subdiretórios. Ou nas opções que precisamos fazer entre isso/aquilo. Uma coisa, quando o pensamento é separatório, dualista, só é uma coisa/outra coisa, comunista/capitalista, amor/sexo, diabo/deus. Barra é ou. Não há lugar para adição ou interseção.
Já o hífen é uma ponte, um elo entre duas instâncias. Mas não apenas une como também transforma o que é unido. Heidegger argumenta que a ponte une, mas John Urry vai além: um novo elemento muda tudo. Não se trata mais de lado A, lado B, duas zonas separadas e agora unidas ou margens distintas de um mesmo rio. A ponte, ao acoplar os lados, transforma-os imediatamente, e novas práticas vão se formado sobre e ao redor dela. Trata-se de um híbrido margem-ponte-margem, com um rio a fazer parte dele também.
Por esse caminho corre o hífen, com o poder somatório-multiplicador: não é mais uma coisa nem outra, mas ambas. Perfeito como nossa gramática soube compreender bem o poder desse tracinho: já não temos mais nem erva nem doce, nem guarda nem volumes, nem salva nem vidas, nem zaz nem traz. Também não são mais duas coisas, mas uma única forjada por, quem sabe, uma atração singular entre as coisas. Uma espécie de matrimônio perfeito, uma bênção mais poderosa que a da aliança. Não é que haja infinito: talvez possamos cindir os elos, talvez mesmo as coisas possam pedir divórcio. Mas, se estão juntos, é porque em algum momento estiveram distantes e se atraíram? Então eram virtualmente colados? Como dissociar objetos que, portanto, nunca estiveram apartados?
É por aí que corre a defesa de Latour em seu famoso Ensaio de Antropologia Simétrica. Mas deixemos esse ponto um pouco de lado e pensemos sobre o uso gramatical de hífens(-) e barras(/), porque há algo de profundo que não nos é explicado nas aulas língua portuguesa.
A barra, essencialmente, separa. Assim como nos sitemas e nos sites, quando tem a serventia de demarcar limites entre diretórios e subdiretórios. Ou nas opções que precisamos fazer entre isso/aquilo. Uma coisa, quando o pensamento é separatório, dualista, só é uma coisa/outra coisa, comunista/capitalista, amor/sexo, diabo/deus. Barra é ou. Não há lugar para adição ou interseção.
Já o hífen é uma ponte, um elo entre duas instâncias. Mas não apenas une como também transforma o que é unido. Heidegger argumenta que a ponte une, mas John Urry vai além: um novo elemento muda tudo. Não se trata mais de lado A, lado B, duas zonas separadas e agora unidas ou margens distintas de um mesmo rio. A ponte, ao acoplar os lados, transforma-os imediatamente, e novas práticas vão se formado sobre e ao redor dela. Trata-se de um híbrido margem-ponte-margem, com um rio a fazer parte dele também.
Por esse caminho corre o hífen, com o poder somatório-multiplicador: não é mais uma coisa nem outra, mas ambas. Perfeito como nossa gramática soube compreender bem o poder desse tracinho: já não temos mais nem erva nem doce, nem guarda nem volumes, nem salva nem vidas, nem zaz nem traz. Também não são mais duas coisas, mas uma única forjada por, quem sabe, uma atração singular entre as coisas. Uma espécie de matrimônio perfeito, uma bênção mais poderosa que a da aliança. Não é que haja infinito: talvez possamos cindir os elos, talvez mesmo as coisas possam pedir divórcio. Mas, se estão juntos, é porque em algum momento estiveram distantes e se atraíram? Então eram virtualmente colados? Como dissociar objetos que, portanto, nunca estiveram apartados?
22/03/2011
Axioma 1: em dados momentos, não estamos preparados para certos livros. Não adianta lê-los, a não ser puramente para gastar, ou investir, quase inutilmente nosso tempo. Se o texto não nos serve nem de base, a culpa é toda nossa, a quem falta a base de fato para sustentá-lo, justamente nós que não conseguimos deslocar e realocar pesados blocos de pensamento, e não da obra em si ou do autor, que tão bem conseguiu criá-la com uma leveza intocável e desconcertante.
Axioma 2: os objetos nos escolhem. Uma metáfora florida para dizer aquilo que nos é custoso: que temos escolhas a fazer. E durante tais escolhas, as visões são turvas, vêm aos poucos, e talvez sempre esperemos o momento mágico da epifania: é isso! Mas pode ser que seja isso mesmo, uma galhofa entre atenção seletiva e dissonância cognitiva, um querer-não-querer desgraçado, uma agonia e uma recorrência das coisas. Há uma vida e uma vontade própria nesses objetos - ou quase-objetos - que os faz sempre acenar, mandar gracejos, reaparecer, justamente quando inesperados.
Axioma 3: tudo está conectado (ou nada é por acaso). E então chega um dado momento em que voltamos àquele livro, ou é ele que retorna por vontade própria, e aí surge então uma nova oportunidade de recomeçar. Pode ser que, dessa vez, já estejamos prontos, já que julgamos termos passado por outros nós da rede, ou mesmo que eles, também por próprio querer, é que tenham passado por nós.
Axioma 2: os objetos nos escolhem. Uma metáfora florida para dizer aquilo que nos é custoso: que temos escolhas a fazer. E durante tais escolhas, as visões são turvas, vêm aos poucos, e talvez sempre esperemos o momento mágico da epifania: é isso! Mas pode ser que seja isso mesmo, uma galhofa entre atenção seletiva e dissonância cognitiva, um querer-não-querer desgraçado, uma agonia e uma recorrência das coisas. Há uma vida e uma vontade própria nesses objetos - ou quase-objetos - que os faz sempre acenar, mandar gracejos, reaparecer, justamente quando inesperados.
Axioma 3: tudo está conectado (ou nada é por acaso). E então chega um dado momento em que voltamos àquele livro, ou é ele que retorna por vontade própria, e aí surge então uma nova oportunidade de recomeçar. Pode ser que, dessa vez, já estejamos prontos, já que julgamos termos passado por outros nós da rede, ou mesmo que eles, também por próprio querer, é que tenham passado por nós.
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